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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Ansiedade, um mal potencializado pela Covid-19

Diversos estudos mostram que a doença gerou ainda mais impacto na saúde mental

Por Claudio Lottenberg 12 jul 2021, 17h47

A pandemia da Covid-19 completou no domingo, 11, um ano e quatro meses, desde que foi declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse período, os números de casos da doença e óbitos se multiplicaram milhares de vezes e geraram uma onda de temor que se estendeu a todas as áreas da vida – o que abalou a saúde mental de milhões de pessoas no mundo todo, e em particular, os do Brasil. Mas os níveis de ansiedade dos brasileiros já figuravam entre os mais altos desde antes da disseminação do novo coronavírus.

Diversos estudos mostram que a Covid-19 gerou ainda mais impacto na saúde mental. Um deles, publicado em março no International Journal of Environmental Research and Public Health, apontou que os brasileiros apresentaram o maior índice de sintomas de ansiedade e depressão na comparação com outros 11 países (Brasil, Bulgária, China, Cingapura, Espanha, EUA, Índia, Irlanda, Macedônia do Norte, Malásia e Turquia). O aumento dos sintomas das duas doenças esteve associado à maior exposição pessoal ao risco de se contrair a Covid-19, diz o documento.

Outros levantamentos revelam esse avanço: em junho de 2020, pesquisa do Instituto Ipsos, com mais de 16 mil pessoas em 16 países, mostrou que 41% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter experimentado algum nível de ansiedade relacionado à doença. Estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontou que cerca de 80% da população do Estado se sentiu mais ansiosa e 68% apresentaram sintomas depressivos ligados ao estresse provocado pela Covid-19.

A literatura científica já criou inclusive um termo específico para o medo e a ansiedade de se contrair o coronavírus: “coronofobia” (tradução livre do inglês “corona-phobia”), usado para designar o choque psicológico causado pela doença. Envolve principalmente (mas não só) medo da morte, de contrair versões mais graves, de sequelas, de contaminar outras pessoas ou mesmo dos desdobramentos econômicos a ela relacionados.

Um artigo publicado em janeiro de 2020 (anterior à pandemia), já citava estudo sobre a saúde mental dos brasileiros e mostrava que os transtornos mentais respondem por 32,4% dos anos de vida perdidos por invalidez no Brasil, e que os transtornos depressivos e ansiosos foram a quinta e sexta causas, respectivamente, de anos de vida vividos com deficiência. Segundo o levantamento, o país tem características demográficas e econômicas que podem favorecer a alta na incidência e persistência de transtornos mentais – entre elas: rápida urbanização com aumento populacional nas periferias; crises econômicas com reflexos no desemprego; entrada de mulheres no mercado de trabalho sem aumento no apoio social (licença-maternidade e creches, por exemplo), entre outras. Segundo levantamento da OMS de 2017, o Brasil aparecia com prevalência de 5,8% da população com distúrbios depressivos – atrás apenas dos Estados Unidos, entre os países das Américas.

Isso se reflete também no aumento do consumo de antidepressivos e estabilizantes de humor durante a pandemia: segundo dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF), a alta no ano passado foi de 17%. Mas em 2019, já havia sido de 12% e, em 2018, de 9%.

Como se vê, os brasileiros têm vivido e convivido com a ansiedade e a depressão há algum tempo, e a pandemia da covid-19 contribuiu para o agravamento da situação. Embora o caminho que tenha levado cada pessoa a alguma dessas condições seja único, há fatores comuns, como o isolamento, temores quanto à economia, à violência, inseguranças e pressões no dia a dia. No trabalho, colaboradores afetados por distúrbios mentais tendem a desenvolver a síndrome de Burnout nos casos mais agudos, o que também causa mais absenteísmo, reduz produtividade e afeta o desempenho geral.

Mesmo com o distanciamento e o home office, é necessário estimular um ambiente de trabalho humanizado. Lideranças que saibam ouvir e, quando necessário, ajudar; oferecer serviços e benefícios focados em saúde mental; criar uma cultura de feedbacks; promover interações online que não sejam estritamente reuniões ou encontros virtuais de trabalho. Estas podem ser saídas para que os colaboradores sintam menos pressão e mais integração.

Além disso, o ritmo de vacinação no Brasil fez com que cerca de 19% da população adulta do país recebesse as duas doses de vacina ou a dose única. O combate à Covid é tarefa para muitos anos à frente, e algum grau de proteção adotado durante a pandemia pode ter chegado para ficar. Mas vemos alguma redução na mortalidade em determinadas faixas etárias e uma descompressão nas UTIs dos hospitais. As aulas presenciais encontrarão um meio de voltar à rotina e a economia também retomará aos poucos seu curso normal. Causas para ansiedade e depressão não deixarão de existir, mas a Covid-19 deverá gradualmente sair do centro das atenções. O que não é pouco.

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