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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

A importância das máscaras vai além de decretos

Fim da obrigatoriedade exige debate e cautela

Por Claudio Lottenberg 11 out 2021, 11h14

Declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, a pandemia da Covid-19 ainda está longe de terminar. No Brasil, já se discute o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras, que continuam a ser uma das principais barreiras de proteção no combate à transmissão do Sars-CoV-2.

No mundo todo foram adotadas medidas de contenção do contágio, vieram as vacinas e a luta contra a Covid-19 conheceu avanços e retrocessos. No ponto em que se encontra, a vacinação avançou em muitos países e o número de pessoas completamente imunizadas (com duas doses ou dose única) cresce dia a dia. Mas o contraponto são os óbitos e o número de pessoas infectadas, que, apesar de terem diminuído, devem ser levados em conta ao se pensar em ampliar a flexibilização das medidas de proteção individual e coletiva.

Países que haviam chegado perto de alguma forma de normalização, como Israel e Estados Unidos, sofreram reveses e voltaram a adotar mais rigor para impedir que a transmissão voltasse a disparar. Nestes, a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais fechados chegou mesmo a ser suspensa. Em maio, em território americano, por exemplo, o uso deixou de ser exigido para pessoas já totalmente imunizadas depois que a vacinação ganhou velocidade (e, mesmo assim, continuou vigorando para hospitais e transporte público). No entanto, o país viveu um aumento nos casos relacionados à variante delta, e em agosto muitas cidades americanas retomaram a obrigatoriedade. Não se afirma aqui haver relação de causa e efeito entre um evento e outro – estudos e pesquisas deverão mostrar no futuro se tal relação se verifica ou não. Mas o fato é que, sem a obrigação de usar, muita gente deixou as máscaras de lado num momento crítico, de avanço da delta.

No Brasil, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, está em discussão a liberação e a desobrigação da máscara, medida que pode entrar em vigor nos próximos dias. Em todos os casos, usa-se o percentual da população vacinada como argumento para justificar a medida. Já se fala inclusive em retomar o carnaval de rua no país.

De acordo com dado do Ministério da Saúde (citado pela Fiocruz), o Brasil tinha, em 31 de agosto, pouco mais de 2.600 casos confirmados da variante delta – sendo que, uma semana antes, eram em cerca de 1.400 casos. Apesar do progresso na vacinação, a delta também segue uma curva crescente. E as variantes do novo coronavírus continuam avançando pelo alfabeto grego: já são alfa, beta, gama, delta e a mais recente, mu (identificada na Colômbia e, segundo a OMS, responsável por cerca de 4.600 casos em ao menos 40 países).

Ou seja: a Covid-19 continua a infectar muita gente e os óbitos decorrentes da doença ainda são expressivos. Isso tudo mostra que o uso de máscaras não é uma questão a ser decidida por decreto. Muitas pessoas, aliás, deverão seguir usando máscaras independentemente de imunizações e mesmo depois que o período da pandemia tiver sido ultrapassado. No Japão, por exemplo, mesmo antes da pandemia não era incomum encontrar pessoas que utilizassem máscaras e até luvas nas ruas.

As máscaras, a higienização frequente das mãos e o distanciamento social não são, obviamente, garantia de controle absoluto da transmissão. Mas são meios bastante eficientes para isso. Mesmo com a redução na ocupação de UTIs em diversos estados brasileiros, nenhuma forma de controle deveria ser abandonada.

E é preciso ainda destacar o claro benefício adicional que as máscaras trazem no controle de outras doenças infectocontagiosas. Ao reter gotículas em sua parte interna, a máscara ajuda a evitar a transmissão de vírus como os causadores da gripe e das influenzas (H1N1, A e B), sarampo, catapora, tuberculose e meningite. Nem há que se falar em desconforto no uso de máscaras: tal questão nem se põe frente aos ganhos que se obtêm com seu uso – e mais que isso, frente aos prejuízos que podem advir da desobrigação.

Já estamos muito longe na luta contra o novo coronavírus para pensar em dar passos atrás no combate à Covid-19. Com o avanço das variantes, relaxar na proteção individual pode pôr em risco os avanços alcançados até aqui. Usar ou não as máscaras não é assunto para decreto, e sim para ser debatido de forma desapaixonada. Não há que se ceder a demandas movidas por pura e simples emoção num momento ainda tão crítico.

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