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Cidades sem Fronteiras Por Mariana Barros A cada mês, cinco milhões de pessoas trocam o campo pelo asfalto. Ao final do século seremos a única espécie totalmente urbana do planeta. Conheça aqui os desafios dessa histórica transformação.

O triste fim de George Bell e os microapartamentos: dois finais para uma mesma história

Com cada vez mais gente vivendo sozinha, dá para passar dias sem falar com ninguém ou conviver com vizinhos em espaços compartilháveis

Por Mariana Barros - Atualizado em 10 fev 2017, 08h38 - Publicado em 23 out 2015, 15h53
Guindaste monta a estrutura do My Micro NY: moradia popular com estrutura pré-fabricada

Guindaste monta a estrutura do My Micro NY: moradia popular com estrutura pré-fabricada

Nesta semana, o jornal The New York Times publicou a triste história de George Bell, que aos 72 anos morreu sozinho em seu apartamento no Queens sem que ninguém se desse conta. Sua morte só foi descoberta oito dias depois, e não porque algum amigo ou parente tenha dado falta dele, mas pelo mau cheiro exalado no corredor.

O episódio, que além de melancólico é mais comum do que se imagina, atesta a enorme solidão em que vivem os moradores de grandes cidades. E esse estilo de vida solitário se reflete nos imóveis escolhidos. Desde 2007, mais da metade dos nova-iorquinos mora sozinha, resultado da combinação do aumento da expectativa de vida, dos divórcios mais frequentes e da redução na taxa de fecundidade das mulheres — tendência presente nas maiores cidades do mundo, inclusive nas brasileiras.

Sozinho é bem mais difícil conseguir comprar um imóvel. E, com a alta acumulada durante décadas no preço dos apartamentos, milhares de nova-iorquinos desistiram de tentar comprar um lugar para morar. Acabam, assim, empurrados para o aluguel.

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Mas a lei do mercado não falha e, com tanta gente à procura de locações, é claro que esses preços também sobem. Hoje, é difícil encontrar endereço na cidade onde se pague menos de 1.500 dólares mensais. Em média, locatários nova-iorquinos destinam 3.000 dólares do orçamento só para essa despesa.

Estruturas modulares montadas no Brooklin para serem montadas no My Micro NY

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A situação levou o ex-prefeito Michael Bloomberg a lançar em 2011 um concurso para escolher projetos arquitetônicos de moradias populares. O primeiro fruto da empreitada deve ser inaugurado em dezembro. Projetado pelo nArchitects, escritório vencedor do concurso, o My Micro NY é um  residencial de nove andares com 55 unidades entre 23 e 35 metros quadrados. São microapartamentos, studios, quitinetes, dependendo do nome que se queira dar. A torre é construída com estruturas modulares pré-fabricadas no Brooklin, e a locação de cada um dos espaços internos custará entre 950 dólares e 1492 dólares, atraindo os solitários típicos ou quem tenha um parceiro ou filho como companhia.

Além do preço, um benefício importante do My Micro NY é propiciar a convivência entre vizinhos. Como as unidades são muito pequenas, foi preciso desenhar áreas comuns que servissem de lounge, lavanderia e guarda-volumes. Se George Bell morasse num desses, quem sabe os vizinhos tivessem percebido antes que havia algo de errado com ele. “Foi como se ele tivesse morrido de tristeza”, escreveu o jornalista N. R. Kleinfield, que assina a reportagem do Times. E disso todos nós estamos sujeitos a morrer pouco a pouco.

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Por Mariana Barros

Projeção de como será a fachada do My Micro NY: janelas grandes para disfarçar o aperto (Fotos Divulgação)

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