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Indústria da ‘cannabis’ pode resgatar as vítimas da guerra às drogas

Agência reguladora da Califórnia distribuiu US$ 10 milhões para programas de inclusão de populações marginalizadas pelo proibicionismo

Os segmentos mais esclarecidos da indústria da cannabis reconhecem que o setor já nasce com um passivo a resgatar: os excluídos, marginalizados e encarcerados pelo combate à erva que marcou os últimos 80 anos. Encontrar essas pessoas é muito fácil porque elas são as mesmas e aparecem em todas as estatísticas, independentemente do lugar do mundo onde se faça o levantamento. São majoritariamente negros, moradores de periferias e pobres.

Estudo realizado pela agência Pública na cidade de São Paulo revelou que os juízes condenam proporcionalmente mais negros do que brancos. Ao analisar mais de 4 mil sentenças de primeiro grau para o crime de tráfico de drogas julgados na capital paulista em 2017, os jornalistas descobriram que 71% dos negros foram condenados, contra 67% entre os brancos. “De maneira geral, os negros também foram processados por tráfico com menos quantidade de maconha, cocaína e crack do que os brancos. Entre os réus brancos foram apreendidas, na mediana, 85 gramas de maconha, 27 gramas de cocaína e 10,1 gramas de crack. Quando o réu é negro, a medida é inferior nas três substâncias: 65 gramas de maconha, 22 gramas de cocaína e 9,5 gramas de crack”, reportou a Pública.

Na Califórnia, que regulamentou a cannabis medicinal em 1996 e o uso adulto em 2018, há um esforço de compensação para essas populações, cujo objetivo é estimular sua contratação e envolvimento nos negócios relacionados à planta. O Bureau of Cannabis Control (BCC), órgão regulador estadual, anunciou nesta semana os beneficiários de seu programa de equidade, que distribuirá 10 milhões de dólares para ações em 10 cidades e condados do estado. Pelas regras, fazem jus à verba as localidades que promovem iniciativas com foco na inclusão e apoio a comunidades e pessoas que tenham sofrido impactos desproporcionais como consequência da criminalização da cannabis. Receberão os fundos, proporcionais ao número de habitantes, as cidades de Los Angeles, Oakland, San Francisco, Sacramento, Long Beach, San Jose, Coachella e Palm Springs, assim como os condados de Humboldt e Santa Cruz.

Além de recrutar e incentivar a participação dessas pessoas na economia da cannabis , procuradores do Estado informaram, em abril, que trabalhariam para eliminar os antecedentes criminais de cerca de 54 mil condenados por infrações ligadas à erva em Los Angeles e San Joaquin. Estudo realizado em 2016 mostrou que, apesar de representar apenas 6% da população californiana, os afrodescendentes formam quase um quarto da população carcerária presa por crimes exclusivamente ligados à cannabis . Esse tipo de abordagem vem atraindo a atenção de outras jurisdições, que têm adotado posturas semelhantes para reparar os danos causados por décadas de uma proibição que, pouco a pouco, vai deixando de fazer sentido ao redor do mundo.

Iniciativas inclusivas e socialmente responsáveis também fazem parte de um movimento global que busca tornar o capitalismo mais humano. É crescente o consenso de que os negócios precisam estar conectados a propósitos mais nobres do que a simples valorização dos ativos. Recentemente, o Financial Times, jornal inglês de perfil ultraliberal fundado em 1888, conclamou seus leitores a abraçar o que chamou de “Nova Agenda”. Para o periódico, chegou a hora de um “recomeço”. Na página dedicada ao tema, o FT reforçou seu compromisso com o capitalismo e a livre-iniciativa, atribuindo ao sistema a geração de riquezas e a promoção da paz, prosperidade e desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes nos últimos 50 anos.

Desde a crise financeira de 2008, no entanto, o modelo está sob pressão. Segundo o jornal, a crise está ligada ao foco excessivo na maximização dos lucros e na geração de valor para os acionistas. “Esses princípios são necessários, mas não suficientes. No longo prazo, a saúde do capitalismo baseado na livre-iniciativa vai depender da entrega de lucro com propósito. As empresas vão entender que essa combinação serve tanto a seus interesses individuais quanto aos de seus clientes e empregados”, escreveu Lionel Barber, editor do jornal. É justamente o que se vê em alguns segmentos do ainda incipiente mercado da cannabis legal, Califórnia à frente. Diante de tudo isso, talvez a cannabis não esteja apenas fundando uma nova indústria, mas contribuindo para a construção do novo capitalismo.

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