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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

Precisamos de cultura nacional?

É uma delícia ter filmes e músicas sobre nossas lembranças. Mas isso não é requisito para sermos um país decente

Por Leandro Narloch Atualizado em 30 jul 2020, 22h40 - Publicado em 20 Maio 2016, 14h06

Com o fim do Ministério da Cultura, muitas perguntas surgiram sobre o papel do Estado nesse tema. Mas há uma questão mais profunda que despertou pouco interesse: precisamos de cultura nacional?  Caso concordemos que cultura é importante, que exposições, cinemas e teatros são necessários à soberania de um país, é preciso que esses filmes, peças e exposições sejam feitos por brasileiros dentro do nosso território?

Veja: não estou perguntando se é bom, mas se é necessário. Certamente é uma delícia ter músicas, livros e filmes que lidam com os nossos ícones e nossas lembranças. Mas para que haja paz e prosperidade no país é necessário haver cineastas, músicos e dramaturgos nacionais, a ponto do governo gastar bilhões tentando forjá-los?

Não, não é. Arte não é um espelho, é uma janela. Apreciamos a arte não só para enxergar nós próprios, mas para ver o desconhecido, o outro. É pobre se afligir tanto com a cultura da província. É enriquecedor desfrutar o que vem de fora.

Nos últimos anos, milhões de brasileiros trocaram novelas nacionais por séries americanas. Tornaram-se cidadãos rebaixados por isso?

Entre House of Cards e A Regra do Jogo, qual enriquece mais o espectador, qual explica melhor o Brasil?

Quando eu era criança, as rádios só tocavam The Police e The Cure. Na adolescência, os sucessos mudaram para Araketu e É o Tchan. Ganhei alguma coisa com essa mudança para a cultura nacional?

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É uma delícia assistir Os Normais e Porta dos Fundos, mas se nada disso existisse, não nos bastariam Monty Python e a sexta temporada de Seinfeld?

O Japão era melhor nos anos 40, tão obcecado com a cultura nacional que foi à guerra para dominar o mundo, ou é melhor agora, saborosamente invadido pela cultura americana?

Suponha que você fosse um cidadão da Núbia, região abaixo do Egito, em pleno século 1, época de esplendor do Império Romano. Ficaria satisfeito com a cultura núbia, a Música Popular Núbia, os dramaturgos núbios ou iria correndo desfrutar a riqueza da fusão de culturas de três continentes que se expressava pelas ruas de Roma?

O esporte que mais gostamos vem da Inglaterra. Os pratos típicos brasileiros são todos estrangeiros – feijoada (que vem da Europa, e não das senzalas), caipirinha (feita com limão, fruta que não existia no Brasil até a chegada dos portugueses), arroz, banana e coco (asiáticos). O fascínio com a cultura estrangeira enriqueceu a nossa própria.

Da mesma forma, a Língua Portuguesa. Se os brasileiros mesclarem o português ao espanhol, banto ou inglês, irão enriquecer a língua, e não empobrecê-la. Se os brasileiros deixarem de falar português e de repente passarem a se comunicar apenas em latim, francês ou inglês, terão assim se empobrecido?

É bom ter cultura nacional. Mas ela não é um requisito para sermos um país decente. Não precisamos gastar bilhões com cineastas de qualidade duvidosa nem choramingar pelo fim do Ministério da Cultura.

@lnarloch

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