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Precisamos de cultura nacional?

É uma delícia ter filmes e músicas sobre nossas lembranças. Mas isso não é requisito para sermos um país decente

Com o fim do Ministério da Cultura, muitas perguntas surgiram sobre o papel do Estado nesse tema. Mas há uma questão mais profunda que despertou pouco interesse: precisamos de cultura nacional?  Caso concordemos que cultura é importante, que exposições, cinemas e teatros são necessários à soberania de um país, é preciso que esses filmes, peças e exposições sejam feitos por brasileiros dentro do nosso território?

Veja: não estou perguntando se é bom, mas se é necessário. Certamente é uma delícia ter músicas, livros e filmes que lidam com os nossos ícones e nossas lembranças. Mas para que haja paz e prosperidade no país é necessário haver cineastas, músicos e dramaturgos nacionais, a ponto do governo gastar bilhões tentando forjá-los?

Não, não é. Arte não é um espelho, é uma janela. Apreciamos a arte não só para enxergar nós próprios, mas para ver o desconhecido, o outro. É pobre se afligir tanto com a cultura da província. É enriquecedor desfrutar o que vem de fora.

Nos últimos anos, milhões de brasileiros trocaram novelas nacionais por séries americanas. Tornaram-se cidadãos rebaixados por isso?

Entre House of Cards e A Regra do Jogo, qual enriquece mais o espectador, qual explica melhor o Brasil?

Quando eu era criança, as rádios só tocavam The Police e The Cure. Na adolescência, os sucessos mudaram para Araketu e É o Tchan. Ganhei alguma coisa com essa mudança para a cultura nacional?

É uma delícia assistir Os Normais e Porta dos Fundos, mas se nada disso existisse, não nos bastariam Monty Python e a sexta temporada de Seinfeld?

O Japão era melhor nos anos 40, tão obcecado com a cultura nacional que foi à guerra para dominar o mundo, ou é melhor agora, saborosamente invadido pela cultura americana?

Suponha que você fosse um cidadão da Núbia, região abaixo do Egito, em pleno século 1, época de esplendor do Império Romano. Ficaria satisfeito com a cultura núbia, a Música Popular Núbia, os dramaturgos núbios ou iria correndo desfrutar a riqueza da fusão de culturas de três continentes que se expressava pelas ruas de Roma?

O esporte que mais gostamos vem da Inglaterra. Os pratos típicos brasileiros são todos estrangeiros – feijoada (que vem da Europa, e não das senzalas), caipirinha (feita com limão, fruta que não existia no Brasil até a chegada dos portugueses), arroz, banana e coco (asiáticos). O fascínio com a cultura estrangeira enriqueceu a nossa própria.

Da mesma forma, a Língua Portuguesa. Se os brasileiros mesclarem o português ao espanhol, banto ou inglês, irão enriquecer a língua, e não empobrecê-la. Se os brasileiros deixarem de falar português e de repente passarem a se comunicar apenas em latim, francês ou inglês, terão assim se empobrecido?

É bom ter cultura nacional. Mas ela não é um requisito para sermos um país decente. Não precisamos gastar bilhões com cineastas de qualidade duvidosa nem choramingar pelo fim do Ministério da Cultura.

@lnarloch

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  1. Comentado por:

    Lola

    Adorei seu texto.Você falou o que o povo realmente pensa.

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  2. Comentado por:

    cristina

    Excelente!!!!Quem precisa ver filmeco de quinta de diretor bolivariano e mamador de teta governamental??????O POVO QUER EMPREGO,SAÚDE,EDUCAÇÃO e SEGURANÇA!!!!!!

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  3. Comentado por:

    Walter B.M.O.Junior

    Cultura é sempre bom, cultura nacional é diferente de arte nacional. Acho O Tchan e Axé péssimos, mas Ariano Suassuna e o Auto da Compadecida são ótimos.
    O que não precisa é de um ministério. Cultura forma-se na sociedade, não no governo. Aliás, cultura é tudo que um governo não quer, pois um povo culto não elege porcaria. Esse MinC, que deveria ficar enterrado, era apenas uma fonte de boquinhas.

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  4. Comentado por:

    Rafael Diesel

    Acho curioso que TODOS os países de 1° Mundo tem financiamento público para produção cultural e artística, principalmente na Europa e Canadá (coincidentemente nos países com melhor qualidade de vida segundo qualquer ranking que se for pesquisar). Seria coincidência?

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  5. Comentado por:

    TMonk

    Eu acho que é importante termos cultura nacional também, oras! A pergunta correta é: precisamos financiar a produção cultural brasileira com dinheiro público? Concordo plenamente com a lógica do texto, Leandro. Ela é impecável. Vejo exemplo disso em países como a Holanda e a Bélgica, que enriqueceram suas culturas absorvendo elementos do mundo todo. Ninguém vai morrer se acabar a axé music. Mas há aspectos importantes da identidade nacional expressados por manifestações artísticas e que merecem ser preservados. O difícil é distinguir o que seja realmente uma manifestação cultural relevante. Você deve concordar que nem toda produção artística pode ser considerada com uma manifestação cultural. Comédias como “Mulheres ao mar”, “O candidato honesto” e outras do gênero, são obras importantes a ponto de merecerem o dinheiro dos pagadores de impostos? Será que toda obra de entretenimento é cultura?
    Entendo que trabalhos de preservação de manifestações folclóricas precisem de recursos públicos, pois são registros da identidade nacional que não possuem apelo comercial que lhes proveja sustentação autônoma. Mas a Lei Rouanet elevou a questão do financiamento público das produções artísticas aos píncaros da imoralidade. Artistas consagrados, como Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Betânia e tais, não precisam de dinheiro público pra fazer sua arte. Eles enchem teatros e vendem discos suficientes para continuar o seu trabalho. Produzir esse tipo de arte com recursos públicos é um acinte.
    A verdade que as artes sempre dependeram do mecenato. O que não acho correto é que o mecenato (que banca o custo da produção artística) seja imposto aos cidadãos, inclusive contra a sua vontade. Afinal, é o mecenas que escolhe o seu artista protegido e não o contrário.

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