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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

Precisamos de cultura nacional?

É uma delícia ter filmes e músicas sobre nossas lembranças. Mas isso não é requisito para sermos um país decente

Por Leandro Narloch - Atualizado em 9 Feb 2017, 07h57 - Publicado em 20 May 2016, 14h06

Com o fim do Ministério da Cultura, muitas perguntas surgiram sobre o papel do Estado nesse tema. Mas há uma questão mais profunda que despertou pouco interesse: precisamos de cultura nacional?  Caso concordemos que cultura é importante, que exposições, cinemas e teatros são necessários à soberania de um país, é preciso que esses filmes, peças e exposições sejam feitos por brasileiros dentro do nosso território?

Veja: não estou perguntando se é bom, mas se é necessário. Certamente é uma delícia ter músicas, livros e filmes que lidam com os nossos ícones e nossas lembranças. Mas para que haja paz e prosperidade no país é necessário haver cineastas, músicos e dramaturgos nacionais, a ponto do governo gastar bilhões tentando forjá-los?

Não, não é. Arte não é um espelho, é uma janela. Apreciamos a arte não só para enxergar nós próprios, mas para ver o desconhecido, o outro. É pobre se afligir tanto com a cultura da província. É enriquecedor desfrutar o que vem de fora.

Nos últimos anos, milhões de brasileiros trocaram novelas nacionais por séries americanas. Tornaram-se cidadãos rebaixados por isso?

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Entre House of Cards e A Regra do Jogo, qual enriquece mais o espectador, qual explica melhor o Brasil?

Quando eu era criança, as rádios só tocavam The Police e The Cure. Na adolescência, os sucessos mudaram para Araketu e É o Tchan. Ganhei alguma coisa com essa mudança para a cultura nacional?

É uma delícia assistir Os Normais e Porta dos Fundos, mas se nada disso existisse, não nos bastariam Monty Python e a sexta temporada de Seinfeld?

O Japão era melhor nos anos 40, tão obcecado com a cultura nacional que foi à guerra para dominar o mundo, ou é melhor agora, saborosamente invadido pela cultura americana?

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Suponha que você fosse um cidadão da Núbia, região abaixo do Egito, em pleno século 1, época de esplendor do Império Romano. Ficaria satisfeito com a cultura núbia, a Música Popular Núbia, os dramaturgos núbios ou iria correndo desfrutar a riqueza da fusão de culturas de três continentes que se expressava pelas ruas de Roma?

O esporte que mais gostamos vem da Inglaterra. Os pratos típicos brasileiros são todos estrangeiros – feijoada (que vem da Europa, e não das senzalas), caipirinha (feita com limão, fruta que não existia no Brasil até a chegada dos portugueses), arroz, banana e coco (asiáticos). O fascínio com a cultura estrangeira enriqueceu a nossa própria.

Da mesma forma, a Língua Portuguesa. Se os brasileiros mesclarem o português ao espanhol, banto ou inglês, irão enriquecer a língua, e não empobrecê-la. Se os brasileiros deixarem de falar português e de repente passarem a se comunicar apenas em latim, francês ou inglês, terão assim se empobrecido?

É bom ter cultura nacional. Mas ela não é um requisito para sermos um país decente. Não precisamos gastar bilhões com cineastas de qualidade duvidosa nem choramingar pelo fim do Ministério da Cultura.

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@lnarloch

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