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“Parem de dizer que somos escravos”, pede líder dos bolivianos em São Paulo

luiz vasquez

Para Luiz Vásquez, as operações contra o trabalho escravo atrapalham os bolivianos. Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

 

Conversei na semana passada com o boliviano Luis Vásquez, 43 anos, há 12 no Brasil. Presidente da Associação de Empreendedores Bolivianos da rua Coimbra (Assempbol), Vásquez organiza a feira da rua da comunidade e representa os bolivianos no Conselho Participativo Municipal. Na conversa, ele insiste: “se for fazer reportagem, por favor, diga que ninguém aqui se considera escravo”.

O Ministério Público do Trabalho encontra com frequência bolivianos em ‘trabalho análogo à escravidão’ nas oficinas de costura. É trabalho escravo mesmo?

Não, de forma alguma. A polícia aparece, faz todo um espetáculo, jornalistas tiram fotos e dizem a polícia libertou bolivianos do trabalho escravo. Mas ninguém aqui acha que é escravo. Ninguém está sendo forçado a trabalhar. Os bolivianos podem sair do trabalho quando quiserem. A imprensa não entende isso.

Mas as condições de trabalho não são boas.

É verdade, mas são muito melhores que na Bolívia. As pessoas que vem para cá saem de regiões muito pobres da Bolívia. Quando chegam, só querem trabalhar. Algumas oficinas tentaram contratar por CLT, com 8 horas de trabalho. Mas os bolivianos acham ruim – preferem ganhar por produção. Estão no Brasil para ganhar dinheiro – não veem sentido em ficar cinco, seis horas sem nada pra fazer. Além disso, o patrão não tem obrigação de bancar a moradia dos costureiros. Eles dormem no trabalho porque é mais barato, pois economizam o aluguel e o transporte. Claro que há problemas, mas estão confundido irregularidade trabalhista com trabalho escravo.

As oficinas não poderiam pagar mais aos costureiros?

As oficinas são tão vítimas quanto os costureiros. Ter uma oficina, hoje, é um mau negócio. As margens são muito pequenas. O problema todo é o baixo preço que as grandes lojas pagam. É a oferta e procura – tem muita oficina, muito costureiro para pouco serviço. As lojas se aproveitam disso. Quem quer nos ajudar deveria contribuir para a capacitação dos costureiros e das oficinas. Assim, o pessoal poderia cobrar mais pelo serviço.

As operações contra o trabalho escravo atrapalham ou ajudam os bolivianos?

Prejudicam demais. Quando a Polícia Federal aparece, dá a impressão que vai prender o Fernandinho Beira-Mar. Um monte de viaturas e policiais para prender o coitado do dono da oficina. Ele é multado por tudo o que você imagina. Essa história tem levado muitos empreendedores à falência. Quando a polícia vai embora, os bolivianos vão para outras oficinas onde a condição é a mesma. É um show montado para dar notícia.

 

@lnarloch

 

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  1. Comentado por:

    Luís

    Para salvar a marca de roupa, essa matéria justifica o trabalho escravo.

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  2. Comentado por:

    Jacqueline Volpi

    Que posição! Desapontada com a Revista! Se está no Brasil a CLT deve ser cumprida, se quer trabalhar mais recebam horas extras! As condições podem ser melhores que na Bolívia, entretanto são piores e condizentes com que a lei DESSE país põe como trabalho escravo. Ao receber estrangeiros como cidadãos as mesmas leis devem valer, ou estaremos abusando. Tapa na cara não deixa de ser violência porque surfar são violência e maiores. É estamos falando de roupas que são compradas por preços elevados, ou seja, alguém está ganhando muuuuito com isso. Vergonha da matéria e o Boliviano que representa os outros está fazendo discurso de capataz. Triste isso.

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  3. Comentado por:

    Guilherme

    O artigo é de uma infelicidade extremada, mas não supera o desacerto da revista em publicá-lo. As premissas do narrador podem sim estar corretas, de fato, estão. Todavia a conclusão é divorciada daquilo que hoje se convém chamar Estado Social de Direito. Não estou falando de socialismo, mas de moderação do capitalismo. Será que não já nos convencemos que o capitalismo irregrado é nefasto à harmonia dos povos? Será que a história já não nos mostrou isso? Será que o fenecimento do Estado burguês e do capitalismo industrial do século 18 já não nos mostrou isso? O individuo aceita condições laboro-ambientais (aqui se incluem as jornadas extenuantes) porque é o que mercado de trabalho fornece? De fato, aceita. Se não aceitar ficará desempregado? Possivelmente sim. E se isso ocorrer haverá outro que se submeterá a essa condição? Certamente. E assim a empresa continuará a manter uma margem lucrativa exarcebada? Positivo. E essa mesma empresa estará concorrendo deslealmente com a outra empresa do seguimento que cumpre as regras de forma rigorosa? É óbvio. Agora pergunto ao narrador: o Estado Democrático deve cruzar os braços e permitir que isso ocorra, estimulando indiretamente que essa prática se massifique? Me parece que não, ou estou errado e inverti a ordem dos valores mais comezinhos da humanidade? A mais valia deve preponderar diante da dignidade da pessoa humana? Não, não. O Estado existe para coibir os excessos dos mais fortes perantes os mais fracos. Do hipersuficiente em relação ao hiposuficiente, caso contrário a disputa seria injusta, não é mesmo? Pergunto ao nobre narrador: não seria melhor o empregado ter acesso a condições de trabalho (aqui incluo a jornada laboral, novamente) e também receber bons salários, para assim possuir condições de manter uma qualidade de vida mediana, e não apenas manter sua sobrevivência, inclusive podendo consumir mais e melhor os produtos que são por eles confeccionados na condição de empregados, aumentado a receita das empresas? Me parece que seria o ideal, não é mesmo. Pois bem, é isso que instituições como o MTE, MPT e Justiça do Trabalho buscam, o mínimo. Não estou defendendo aqui, como disse no início, o fim do regime capitalista, mas sim a sua evolução, um capitalismo moderado, social, que não veja o ser humano apenas como um instrumento de produção. Para finalizar, esclareço ao ilustre narrador que conceitos se desenvolvem, se amoldam à nova sociedade. Talvez não exista, ou exista em pouca expressão, aquela escravidão do Brasil Imperial. Todavia o conceito de escravidão se modernizou para excluir situações de violação à dignidade da pessoas humana que não necessariamente se identifique integralmente com os abusos do passado. Não nos apeguemos aos conceitos pretéritos, pois se assim agirmos estaremos trazendo ao moderno conceito de comunicação a idéia do telex, ou ao moderno conceito de transporte a idéia das carruagens movida por força motriz animal, ou ao moderno conceito de dignidade da pessoa humana a singela possibilidade de trabalhar sem ser açoitado fisicamente.

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  4. Comentado por:

    Thalmonn

    Acho que os Bolivianos que hoje veem para o brasil, tem que se integrarem a sociedade . Porem eles se interessarem mais por subempregos ,que pouco vai ajuda-los, e, ainda os coloca em uma condição dos pobres do Brasil. Isso pode inchar as fileiras de pessoas precisando de assistencialismo. A informalidade e a falta de contribuição para os auxílios ao longo do tempo, poderão se torna um problema . Diferente de outras correntes migratórias que vieram para nosso pais os bolivianos vivem sua clandestinidade achando que isso e uma vantagem. Nos sabemos que o Brasil e sim um pais descriminador e isso todas as minorias vão sentir um dia ,temos um preconceito de classes , preconceito regional e preconceito de raças . Talvez eles ainda não tenham sentido isso por viverem mais nas periferias. Sabemos que em outras esferas isso muda. O nosso preconceito e velado e pior que todos no mundo . Em muitas camadas de nossa sociedade não aceitamos os nossos ,imagina um estrangeiro tido como um ser inferior . Nos Brasileiros somos a unica Nação Luzo desse continente e as vezes tratamos todos como Mexicanos por falarem o idioma Castelhano (Espãnico). Para nos não importa se são Argentinos,Bolivianos , Mexicanos ,Uruguaio . Todos parecem mais Latinos dos que nos Luzofonos. A de se pensar no futuro de seus descendentes no Brasil.

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