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O que pensa Angus Deaton, o Nobel de Economia de 2015

"Boas notícias às vezes geram desigualdade" e outras ideias do novo Nobel

1. Desigualdade é uma consequência inevitável da prosperidade

No filme A Grande Fuga, 250 prisioneiros da Segunda Guerra Mundial escapam de um campo nazista. A fuga foi uma excelente notícia para os que conseguiram escapar, mas provocou uma desigualdade entre os prisioneiros. Se antes estavam todos igualmente presos, com o episódio alguns conquistaram a liberdade, enquanto outros foram deixados para trás. Na soma geral, porém, nenhum prisioneiro ficou numa situação pior.

Angus Deaton, economista que ganhou o Nobel de Economia esta semana, se inspirou nesse filme para dar o título do seu livro mais famoso – A Grande Fuga: saúde, riqueza e as origens de desigualdade. Até a Revolução Industrial, o mundo todo era igualmente miserável. A prosperidade que surgiu a partir de então tirou alguns países da miséria, enquanto outros seguiram pobres. A desigualdade aumentou, ainda que ninguém tenha piorado de situação. Diz ele:

Desigualdade é frequentemente uma consequência do progresso. Nem todos enriquecem ao mesmo tempo, e nem todos tem acesso imediato às medidas profiláticas mais recentes, seja o acesso a água limpa, vacinas ou a novas drogas de prevenção a doenças. Desigualdade, por sua vez, afeta o progresso. Ela pode ser boa; crianças indianas percebem o que a educação pode fazer e também vão para a escola. E pode ser má se os vencedores tentam impedir os outros de segui-los, puxando para cima as escadas atrás deles.

*

A Revolução Industrial, começando na Inglaterra nos séculos 18 e 19, iniciou o crescimento econômico que tem sido responsável por centenas de milhões de pessoas escapando da privação material. O outro lado da mesma Revolução Industrial é o que os historiadores chamam de ‘Grande Divergência’, quando a Inglaterra, seguida um pouco depois pelo noroeste da Europa e pelos Estados Unidos, se afastou do resto do mundo, criando um enorme golfo entre o Ocidente e o resto.

2. Mais que a riqueza, foi o conhecimento que nos tornou mais saudáveis

Uma ideia bem aceita entre demógrafos e economistas é que o aumento da renda a partir da Revolução Industrial causou a enorme melhoria da saúde e da expectativa de vida nos últimos três séculos. Com mais comida na mesa e dinheiro para bancar descobertas médicas, as pessoas viveram mais e melhor. Um europeu médio hoje é 11 centímetros mais alto e vive quatro décadas mais que no século 18. Angus Deaton concorda que a renda contribui para a saúde, mas dá pouca importância a essa relação. Mostra, por exemplo, que em 1750 famílias ricas e bem alimentadas tinham a mesma expectativa de vida que os pobres. Para ele, o que nos tornou mais saudáveis não foi tanto o crescimento econômico, mas o maior conhecimento sobre germes e doenças.

3. A ajuda à África atrapalha

Angus Deaton abraça a ideia de que a maior parte da ajuda humanitária mais prejudica que contribui com o desenvolvimento da África. Para ele, o que os países mais pobres precisam é de instituições que propiciem o crescimento econômico, e muitas vezes a ajuda humanitária enfraquece ainda mais as instituições:

A ajuda estrangeira mina o desenvolvimento da capacidade do estado. Isso é mais óbvio nos países onde o governo recebe grandes quantias de ajuda direta. Esses governos não precisam de contato com os seus cidadãos, nem parlamento e nem sistema de coleta de impostos.

@lnarloch

 

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  1. Comentado por:

    Helio Medeiros da Silva Júnior

    O economista, como de hábito para os burocratas de gabinete, considera a arrecadação governamental com uma prioridade acima da vida das pessoas: reflexo daquilo que Hayek tratou em ‘The Fatal Conceit’, onde demonstra que a nomenklatura coloca-se um grau acima da humanidade, tratando com indiferença os indivíduos, como se os agregados econômicos fossem ‘maleáveis’ numa dimensão alheia, onde o que importa são públicas, saldos comerciais, dentre outros, pela ótica dos ‘gestores’.

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  2. Comentado por:

    Ricardo Platero

    Caro Narloch,
    Com o devido perdão pela pergunta direta, mas você leu de fato Deaton? Porque você sintentizou as ideias de forma incorreta ou conivente, pois o sofisticado economista escocês não dá respostas simples a qualquer quer tema, mas sim usa o clássico “Depende”, que é o correto quando se fala de uma ciência qu eé humana e trata de coisas subjetivas, ainda que com amplo apelo matemático.
    Se você, ous os demais leitores, quiserem de fato saber o que pensa o laureado com o Nobel de forma correta, e não seu resumo que está incorreto e ruim (novamente, desculpe por ser tão direto), seguem dois links, ambos apenas em inglês: o primeiro é um resumo mais correto feito pelo Financial Times e o outro é uma lista de artigos disponíveis para download pela Princeton:
    http://www.ft.com/intl/cms/s/0/b60c2e76-70f0-11e5-ad6d-f4ed76f0900a.html#axzz3oPg6nSQ8
    scholar.princeton.edu/deaton/publications?page=1

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  3. Comentado por:

    Geraldo

    Isso faz me lembrar um australiano que anos atrás ganhou uma láurea por suas descobertas envolvendo as mulheres que tiveram câncer de mama. Após seu exaustivo trabalho ele concluiu que estas mulheres tiveram… problemas emocionais!
    Uma coisa mais do que óbvia, tão óbvia quanto as conclusões do Angus Deaton.
    Nós aqui no Brasil já sabemos disso – ajuda externa mina o desenvolvimento – desde que existe o bolsa-família.

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