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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

O manifesto eco-modernista: “só com tecnologia seremos capazes de proteger a natureza”

Por Leandro Narloch - Atualizado em 11 Feb 2017, 10h17 - Publicado em 25 Jun 2015, 06h46
Crédito: Nick Garbutt/Barcroft

Crédito: Nick Garbutt/Barcroft

 

Muita gente acredita que uma vida sustentável exige entrar em harmonia com a natureza – viver entre as árvores, construir casas de madeira ou comer alimentos orgânicos. Um grupo de ambientalistas lançou na semana passada um manifesto com a afirmação oposta: a melhor forma de reduzir o impacto humano sobre o meio ambiente é com inovação, tecnologia, agricultura intensiva e cidades com milhões de pessoas.

Os autores do Eco-modernism Manifest, boa parte deles professores em universidades britânicas e americanas, se declaram eco-pragmáticos. Deixaram ideologias no armário e passaram a pensar no que pode conciliar a redução da pobreza com a preservação ambiental. Concluíram que só a tecnologia é capaz disso. “Intensificar diversas atividades humanas – principalmente agricultura, extração de energia e reflorestamento – de modo que usem menos energia e interfiram menos no mundo natural, é a chave para dissociar o desenvolvimento humano dos impactos ambientais”, dizem eles.

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Outros trechos:

Neste manifesto, nós reafirmamos um antigo objetivo ambiental, o de que a humanidade deve reduzir o impacto sobre o ambiente para preservar a natureza, e ao mesmo tempo rejeitamos outro antigo ideal, que as sociedades humanas devem entrar em harmonia com a natureza para evitar o colapso econômico e ecológico.

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Tecnologias humanas, desde aquelas que possibilitaram que a agricultura substituísse a caça e a coleta, até aquelas que hoje guiam a economia globalizada, tornaram os humanos menos dependentes de diversos ecossistemas que uma vez foram sua única forma de subsistência.

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Cidades ocupam somente de 1% a 3% da superfície da Terra, mas abrigam 4 bilhões de pessoas. As cidades tanto guiam como simbolizam a dissociação da humanidade da natureza, com um desempenho melhor que economias rurais ao fornecer de modo eficiente necessidades materiais e ao mesmo tempo reduzindo impactos ambientais. 

O crescimento das cidades, junto aos benefícios econômicos e ecológicos que as acompanham, são inseparáveis dos avanços da produtividade da agricultura. Enquanto a agricultura se tornou mais eficiente em aproveitamento de terra e trabalho, populações rurais deixaram o campo para as cidades. Mais ou menos metade da população americana trabalhava na terra em 1880. Hoje, menos de 2% o fazem.

Como vidas foram liberadas do trabalho no campo, recursos humanos gigantescos foram destinados a outros desafios. Cidades, como as pessoas as conhecem hoje, não existiriam sem mudanças radicais na agricultura. Em contrate, modernização não é possível numa economia de subsistência.

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Há muitas histórias a comprovar as afirmações do manifesto. A agricultura mecanizada utiliza hoje 70% menos área de cultivo para produzir um quilo de alimento que antigos campos de agricultura de subsistência. Um carro emite hoje menos de um terço da poluição que produziam modelos de 30 anos atrás. Uma lâmpada de LED gasta menos de um quarto de energia de uma lâmpada tradicional.

O meu exemplo preferido da inovação a favor da natureza tem a ver com os pinguins. No século 19, um jeito ganhar dinheiro era arranjar um barco, viajar até a Antártida e voltar com um carregamento de óleo – óleo de baleia ou óleo de pinguim. Esses animais têm uma capa grossa de gordura para protegê-los do frio, então basta caçá-los e ferver a gordura para obter um bom combustível para lampiões e luminárias de rua. Em 1867, uma expedição de quatro barcos ingleses fabricou 200 mil litros de óleo de pinguim. Como cada ave rende meio litro de óleo, dá para estimar que só aquela expedição, só naquele ano, matou cerca de 400 mil pinguins.

Por causa da caça industrial, a população de pinguins estava desaparecendo no fim do século 19. Mas de repente os barcos de pescadores deixaram aportar na Antártida. Ninguém mais se interessava em caçar pinguins, pois um combustível mais barato e eficiente estava ganhando mercado na Europa e nos Estados Unidos. Foi assim que a invenção do querosene, um combustível fóssil, salvou milhões de pinguins na Antártida.

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@lnarloch

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