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Da VEJA ao PT, todos elogiaram o Plano Cruzado

Aos 30 anos esta semana, o Plano Cruzado ficou para a história da economia brasileira como um fiasco, uma tentativa patética de controlar preços. Mas, no início, o plano teve enorme apoio do povo, de políticos, economistas e da imprensa (incluindo esta revista)

cruzado

 

Em 28 de fevereiro de 1986, quando o presidente José Sarney anunciou o corte de três zeros do Cruzeiro, a criação do Cruzado e o congelamento de todos os preços de produtos e serviços, muita gente considerou o pacote um ato justo para acabar com a desordem da economia e a festa dos especuladores. Predominava na época a ideia de que a inflação é fruto da ganância dos comerciantes e especuladores, e não do excesso de dinheiro que o governo imprime para cobrir o rombo de suas despesas.

O apoio mais enfático veio da economista Maria da Conceição Tavares. Num programa da Globo sobre as medidas de Sarney, ela não conseguiu segurar a emoção. “Raras vezes na minha vida profissional tive orgulho da minha profissão”, disse entre lágrimas. “Eu estou muito contente com uma equipe econômica que redime politicamente o país. Eu acho esse programa um programa sério.” A economista do PT aproveitou para convocar o povo e a imprensa a denunciar empresários que reajustassem os preços.

Aloizio Mercadante, então economista da CUT, gravou um vídeo num supermercado mostrando que o tabelamento estava funcionando. “Nós estamos vivendo o Brasil do Cruzado. O Brasil em que a dona de casa, na maioria das vezes, vai fazer a compra com uma lista da Sunab, uma lista do governo, que fixou os preços.”

“Aparentemente, no Brasil do Cruzado, o problema da inflação acabou”, disse Mercadante em 1986. Daquele ano até 1994, a inflação foi de 322.829.174.615%.

Não foram só sindicalistas ou economistas alucinados que apoiaram o Plano Cruzado. Como os preços estavam sem controle e todo mundo reajustava porque os outros reajustavam, parecia fazer sentido impor um congelamento para acabar com a inércia da inflação. “Era isso mesmo que tinha de ser feito”, disse a VEJA Amador Aguiar, então o maior acionista do Bradesco.

“Sob todos os aspectos, olhando-se o problema de uma maneira geral, a reforma econômica de Sarney representa uma audaciosa e competente tentativa de saneamento de uma desordem já velha de quase dez anos”, diz o editorial de VEJA de 5 de março de 1985. “Tecnicamente, parece claro que a reforma está concebida de tal forma que pode dar certo.”

VEJA participou do coro que culpava a ganância dos comerciantes pela inflação. A primeira reportagem da revista sobre o Cruzado fala do quebra-quebra contra lojas que “remarcavam seus preços covardemente”, “ludibriando seus fregueses e o anseio da sociedade por uma economia estável”.

Era muito difícil, nos primeiros meses de 1986, achar alguém que o criticasse o Plano Cruzado. FHC, então líder da ala à esquerda do PMDB (o PSDB seria criado dois anos depois), fez uma pausa nas críticas ao governo Sarney para elogiar as novas medidas. “O pacote é bom e deve ser defendido.”

“O país tem que enfrentar de uma vez por todas o problema da inflação. É a hora da verdade. Não há motivo algum para pânico. São medidas corajosas e pelo que sei economicamente coerentes”, disse José Serra para a Folha de S. Paulo.

Diante de tanto entusiasmo, quem se opôs ao Plano Cruzado ganhou fama de estraga-prazeres.  Ninguém deu ouvidos a Roberto Campos e aos poucos liberais brasileiros para quem o excesso de oferta monetária era a real causa da inflação. Eugênio Gudin, economista que passou algumas décadas batendo nessa tecla, estava com 99 anos em 1986 – morreria em outubro daquele ano.

Muitos erraram ao apoiar o Plano Cruzado – a diferença foi o tempo que cada um demorou para perceber o erro. Como sempre acontece desde a Roma Antiga, o congelamento de preços tirou o incentivo à produção e provocou uma crise de desabastecimento. Um mês depois do anúncio de Sarney, VEJA passou a enxergar o Plano Cruzado com ceticismo. “O fato é que o congelamento de preços em lugar nenhum do mundo significou, algum dia, uma panaceia contra o problema da inflação”, diz a edição de 3 de abril.

Já Mercadante continuou defendendo o controle de preços muitos anos depois do fiasco do Plano Cruzado. Em 1996, ele disse à Folha de S.Paulo que o Plano Real daria em água – e que a solução era “o controle de preços dos produtos da cesta básica”.

Maria da Conceição Tavares manteve o apoio ao Plano Cruzado por um tempinho mais. Em 2015, numa entrevista para O Globo, ela ainda misturava moralismo à economia e culpava inimigos imaginários pelo fracasso do Plano Cruzado. “As grandes empresas comerciais não cumpriram o plano”, disse.

@lnarloch

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  1. Comentado por:

    ‘martins

    O PT nunca deixou de apoiar medidas que são causas de inflação, e não seria agora que iriam fazer isso, alias, agora eles podem praticar as medidas que apoiam. Mas, uma das medidas deve ser analisada e ser temida caso venha a ser praticada novamente, que é imprimir dinheiro e injetar na economia diretamente sem o atual arranjo em que o tesouro tem que emitir os títulos da divida e o mercado comprá-los, pois antes o tesouro mandava a casa da moeda imprimir a grana e pronto.

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  2. Comentado por:

    Berlatto

    Como faz falta “nestepaíz” um Milton Campos, hein? Edmund Burke então?, nem me fale.
    Essa cambada de esquerdóides já mais aprende que não existe almoço grátis, né Leandro?

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  3. Comentado por:

    Rômulo Viel

    O pior é que a visão de que o culpado é o empresário, persiste! Como tem gente burra…

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  4. Comentado por:

    Marcelo Monteiro Ribeiro

    Meu Deus, não dá pra acreditar que já se passaram 30 anos e que o povo brasileiro viveu esse pesadelo!! Tinha 12 anos na época e me lembro muito bem da grande esperança com o plano para, logo em seguida, a realidade se impor e a hiperinflação voltar com tudo. Quanta cenas ridículas, meu Deus!! Fiscais do Sarney fechando supermercados em nome do povo, agentes da PF dando confiscando bois no pasto… O Brasil era a Venezuela de hoje. Depois ainda veio Bresser Pereira, Mailson da Nóbrega, Zélia Cardoso de Melo… PELO AMOR DE DEUS!! Só resta nos mobilizar para retirarmos esse bolivarianos do PT o mais rápido possível do poder, e deixar que pessoas competentes voltem a comandar a nossa economia e salvae o que restou do Plano Real.

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  5. Comentado por:

    wilson

    O Plano Cruzado e outros da feitiçaria socialista mandava todos cumprir menos o verdadeiro meliante o próprio governo. Hoje 2016 por acaso o governo corta e administra a gastança? Não!!!

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  6. Comentado por:

    Carlos Olimpio Alves

    Teve mais um cara que não apoiou o plano cruzado: Leonel Brizola, lembram ?

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  7. Comentado por:

    AM

    Caro Leandro, a bem da verdade histórica, Brizola não apoiou o Plano Cruzado. Percebeu a clara manobra eleitoreira. Para os cariocas foi uma tragédia: deixaram de eleger Darcy Ribeiro como governador, preferindo Moreira Franco, com ajuda lateral de Gabeira, candidato do PV apoiado pelo PT.
    Abraço.

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  8. Comentado por:

    João Carlos Carvalho

    Que falta fazem ao Brasil homens de caráter e conhecimento de Economia como Roberto Campos e Eugênio Gudin ! Hoje o PT apresenta Nelson Barbosa , Valdir Simão e Aluísio Mercadante que conhecem assuntos econômicos de ouvir falar !

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  9. Comentado por:

    gonzaga

    Tambem vivi o plano cruzado, mas tambem o plano real. Os dois defendi enfaticamente no inicio, com a diferença que o cruzado refletiu bem o imediatismos das politicas populares dos nossos governantes que hoje estao no poder, enquanto enquanto o real se auto-ajustava em funcao de uma meta de longo prazo. Coisa que o PT foi contra e pelo jeito ate hoje nao reconhece o sucesso do real, ao implantar politicas imediatistas do tipo “bolsa-qualquer-coisa”

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  10. Comentado por:

    ‘martins

    Na verdade a pajelança econômica nunca saiu do cenário e da cabeça da maioria dos economistas brasileiros. Esse é o preço que pagamos por estarmos astronomicamente distantes do liberalismo e de uma economia genuinamente de mercado. Décadas e décadas de doutrinação ideológica marxista gerou essa mentalidade nossa de cada dia de que o Estado é que deve fazer isso e aquilo e mais ninguém tem a capacidade de fazer. No fundo essa mentalidade acha que apenas o Estado é que tem a moral o suficiente para fazer tudo direitinho para as pessoas e acima de tudo protegê-las dos empresários gananciosos. O brasileiro hoje, como um escritor diz, odeia a classe politica mas ama o Estado, mas não percebe a contradição disso, pois quem administra o Estado é a classe politica, e esses pelo jeito não são nada santos e iluminados!

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