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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

A Lei de Spencer e a emancipação feminina

Quanto mais raro um fenômeno social, mais ele nos chama a atenção ou causa revolta. Eis uma boa explicação para a relevância das questões de gênero hoje em dia

Por Leandro Narloch Atualizado em 30 jul 2020, 23h20 - Publicado em 8 mar 2016, 14h45

Nas últimas décadas, as mulheres conquistaram o mercado de trabalho, ganharam mais liberdade para usar a roupa que preferem, conseguiram criminalizar a violência doméstica e convencer o marido a participar da troca de fraldas. Por que só agora essas questões entraram no debate público?

Herbert Spencer, sociólogo inglês do século 19, pode ajudar. Spencer dizia o seguinte: “O grau de preocupação pública sobre um problema ou fenômeno social varia inversamente à sua incidência real”.

Quanto mais raro um fenômeno, mais ele nos chama a atenção. Quanto mais próximo da solução, mais lamentamos um problema social. Do mesmo modo, quanto mais frequente um comportamento, menos atenção e revolta ele desperta.

As mulheres eram 15% do mercado de trabalho no Brasil em 1920, 32% em 1960 e são 48% hoje. Até os anos 60, usar biquíni era questão de polícia; até os 80, elas tinham vergonha de se dizerem divorciadas. As mulheres de hoje certamente não vivem num mundo perfeito, mas desfrutam de muito mais liberdade que há 30 ou 50 anos. E, apesar disso, nunca falamos tanto sobre as “questões de gênero”.

Há muitos exemplos interessantes da Lei de Spencer. A pobreza, regra da humanidade até a Revolução Industrial, só causou espanto quando começamos a deixar de ser pobres. A parte recém-enriquecida da população inglesa olhou para a parte ainda pobre e se espantou: “vejam, a pobreza!”.

Durante a Idade Média, quando menos de 10% dos europeus sabiam ler, pouca gente considerava o analfabetismo um problema social. O fenômeno só entrou na agenda pública no fim do século 19, quando estava prestes a desaparecer. Em 1870, ano em que a educação pública virou lei na Inglaterra, 75% dos ingleses já eram alfabetizados.

Por que isso acontece? O historiador britânico Stephen Davies aposta num problema de percepção. “Quando um fenômeno como a pobreza, o trabalho infantil ou o maltrato às mulheres é disseminado, ninguém o percebe, pois é simplesmente tido como parte do jeito que as coisas são”, diz ele. Se o problema deixa de ser tão frequente, nas poucas vezes em que ocorre desperta indignação, e não mais indiferença.

Não dê bola para as militantes radicais. Há muito o que se comemorar neste Dia Internacional da Mulher.

@lnarloch

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