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Blog da Rússia Em detalhes, a cobertura da Copa do Mundo de 2018

Esperança, minha salvadora em um dia dramático no aeroporto

Para um jornalista que cobre uma Copa na Rússia, poucas coisas podem ser tão desesperadoras quanto a perda do celular

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 20 jun 2018, 14h18 - Publicado em 20 jun 2018, 11h49

Uma Copa do Mundo é feita de imprevistos, como já se viu nos últimos dias. Uma lesão de última hora, uma expulsão no início do jogo, uma demissão de treinador às vésperas da estreia, uma grande zebra… Entre os jornalistas que cobrem o evento ou mesmo torcedores que realizam grandes deslocamentos, alguns desafios também podem se apresentar. No caso de um Mundial na Rússia, o idioma é o maior deles. Poucas pessoas falam outra língua que não o russo, especialmente em cidades menores como Sochi e Rostov, por onde passei. O incompreensível alfabeto cirílico está por toda parte, algo um tanto desesperador no início. Diante disso, o Google Tradutor costuma resolver os problemas mais simples, como pedir um prato de comida ou fazer o check-in no hotel. Hoje, porém, vivenciei um drama maior, comparável à perda do principal jogador do time – no universo dos jornalistas, claro.

Tabela completa de jogos da Copa do Mundo de 2018

O perrengue teve início cedo, quando o hotel informou que não teria espaço para guardar minhas malas maiores – como retornarei a Sochi, não convém levar todas as malas preparadas para cinquenta dias para uma breve ida a São Petersburgo. Eu e o editor Alexandre Salvador, então, decidimos ir até o aeroporto com bastante antecedência procurar um bagageiro. Foi aí que cometi um erro infantil, quase imperdoável, em minha primeira Copa do Mundo: ao sair do Uber (por aqui não convém pegar táxis), me distraí e esqueci meu celular no banco de trás do carro, e só me dei conta do deslize no momento em que tirava as bugigangas do bolso para passar pelo detector de metais.

Messi, isso é obra sua? Luiz Felipe Castro/VEJA.com

Entrei imediatamente em desespero. Olhei para a minha camiseta, com um desenho de Lionel Messi. Seria isso uma maldição divina por eu estar vestindo a camisa de um rival em plena Copa? E agora, como vou trabalhar sem meu celular (é com ele que muitas vezes tuíto, gravo vídeos para o Instagram Stories, faço lives para o Facebook e por vezes até escrevo matérias, no trem ou no avião.) Passado o choque, como conseguirei recuperar meu “camisa 10”? Por sorte, o chamado da Uber foi feito pelo Alexandre. Cheguei a me acalmar, pensando que ele veria o contato do motorista, pediríamos a ele que voltasse e estaria tudo certo. O problema é que as instruções estavam todas em russo. E não havia nenhum número de contato. Eu me senti como um marciano, totalmente impotente.

  • Foi aí que meu segundo anjo da guarda do dia entrou em ação (o primeiro foi o Alexandre). Depois de algumas tentativas frustradas de encontrar alguém que falasse inglês, cruzamos com Nadezdha Dolmatova, agente de aeroporto de uma companhia russa, Ural. Explicamos a situação, com medo de que ela desse de ombros e seguisse fazendo seu serviço – que por sinal nada tinha a ver conosco, já que voaríamos por outra companhia. Mas a jovem não só se prestou a ajudar, como perdeu cerca de trinta minutos até que tudo fosse resolvido. Ajudou-nos a fazer contato com a central russa da Uber, fez ligações de seu próprio telefone e encontrou o motorista. Ainda explicou onde deveríamos encontrá-lo e fez questão de me acompanhar – talvez para evitar que o motorista pedisse propina ou algo do tipo. Ele cobrou apenas o valor da corrida que realizou (1.000 rublos, cerca de 60 reais).

    Aliviado, mas ainda um pouco em choque, perguntei a Nadezhda como poderia agradecê-la por tamanha gentileza. A agente então me pediu apenas que eu escrevesse uma boa recomendação a ela no livro da companhia aérea, o que fiz com bastante capricho – afinal, era o mínimo que eu poderia fazer. Ela ainda me contou que está feliz com a seleção russa na Copa, mas um pouco triste pela ausência da Itália. E, ao soletrar seu nome, me ensinou uma palavra que eu certamente não vou esquecer: “Nadezdha, em russo, significa ESPERANÇA.” Sorri e respondi, de boca cheia, uma das poucas palavras que também já fixei: SPASIBA! Obrigado de verdade, serei eternamente grato!

    Spasiba, Nadezdha! Luiz Felipe Castro/VEJA.com

     

     

     

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