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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Voltar atrás

O que caracteriza este fenômeno é que a reação aos excessos governamentais vem de uma resistência interna das bases das próprias instituições

Por Joaquim Falcão - Atualizado em 11 May 2019, 16h13 - Publicado em 11 May 2019, 07h17

Joaquim Falcão (publicado no Globo)

Existe fenômeno novo na política brasileira. Nunca Judiciário, Executivo e Legislativo, quando tentaram ir para frente em caminhos inadequados, voltaram atrás.

Quando Toffoli e Moraes se concederam autopoderes e tentaram censurar a imprensa, a reação da mídia, da sociedade, da opinião pública foi tão avassaladora que recuaram sem necessidade de embate institucional maior.

Quando se pretendeu alinhar o Brasil com os Estados Unidos contra a Venezuela a qualquer preço, os militares reagiram, e uso da força militar, invadir, jamais. Voltou-se atrás.

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Quando o presidente Bolsonaro interveio no preço do diesel, a reação do mercado foi tão grande, que logo encontrou-se solução para suportar o caráter empresarial da Petrobras.

Quando se pensava que a então nova procuradora-geral Raquel Dodge iria ser instrumento de proteção ao ex-presidente Michel Temer e sua equipe contra a Lava-Jato, a sua base interna, os procuradores, se mobilizaram em favor da autonomia e imparcialidade.

Quando agora o ministro da Educação pretende descartar o ensino de Sociologia e Filosofia, e a alfabetização de idosos, a comunidade acadêmica, inclusive a Academia Nacional de Ciências, reage. Provavelmente vai se encontrar saída para tanta escuridão.

Como também, a reforma da Previdência não será a que privatistas mais radicais desejariam. Sobretudo numa situação com 13 milhões de desempregados.

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O que caracteriza este voltar atrás é que a reação aos excessos governamentais não vem de partidos de oposição, nem de sindicatos, de organizações políticas clássicas. Vem sobretudo da opinião pública difusa, da ainda silenciosa reação internacional, e sobretudo de uma resistência interna das bases das próprias instituições.

Há ainda claro limite ao mando quando é desmando. Nada assegura que juízes nas instâncias menores sigam uma jurisprudência contra direitos.

Nada assegura que universidades sigam as obsessões ideológicas do MEC. Nada assegura que o novo procurador-geral da República seja da lista tríplice ou não, vá silenciar seus procuradores.

Está solta no ar a famosa frase de Bill Clinton: “Ser presidente dos Estados Unidos é dar ordens num cemitério”.

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É bem verdade que estamos ainda na fase de governo retórico, assinala o professor Carlos Pereira. Fala-se muito, prepara-se tanto e faz-se pouco.

Os embates políticos reais ainda não foram para o Congresso e o Judiciário. Para as ruas. Estamos na fase de treinamentos insinceros? Voltar atrás passou a ser uma tática estabilizadora.

Antes da desestabilização da democracia?

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