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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Vista aérea

Lembrei do menino de uma semana antes, inebriado pela paixão pelo fútbol. E o casario de Lisboa, cantado em verso, prosa e cores pelos artistas do mundo

Por Heraldo Palmeira Atualizado em 30 jul 2020, 20h35 - Publicado em 3 fev 2018, 20h11

Heraldo Palmeira

A simpatia do pessoal de terra combinava com a manhã ensolarada que iluminava o aeroporto. Nenhum sinal de nevoeiro, um dos problemas que afetam a região do Porto e atrapalha o tráfego aéreo de vez em quando. Em poucos minutos, meu procedimento de embarque estava resolvido.

Ainda restava algum tempo até a hora do voo e caminhei pelas lojas sempre iguais às de qualquer aeroporto internacional ao redor do mundo. Tempo para fazer comparações de preços depois da conversão das moedas e descobrir que tudo fica caro com um fator de quatro e tais para um.

Mais adiante, um café sempre bem-vindo, ainda mais quando há inverno lá fora, visível pelas vidraças enormes que também revelavam a movimentação dos aviões na pista. E num canto mais afastado, a agradável surpresa de um duo de instrumentistas, piano e violino, tocando bem belos standards. Inclusive da bossa nova.

Lembrei do mesmo voo, que havia feito duas semanas antes para uma reunião que um amigo havia marcado em Lisboa. Íamos tomar um café num quiosque da calçada central da Avenida da Liberdade, colocar os assuntos em dia, falar de negócios. Ele também queria me apresentar um músico angolano.

Naquela outra manhã, uma família representada por três gerações já se destacava ao redor do portão de embarque. Falando alto, rápido e sem parar. Em castelhano. Gerando uma inquietação incomum para a quietude dos demais.

No movimento de embarque, terminaram ficando para trás. Eram oito, adultos e crianças. Ao entrar no avião provocaram uma pequena confusão tentando passar logo pelos outros passageiros que se acomodavam. O patriarca exasperou-se com o comissário de bordo, pois havia pedido para que ficassem todos juntos, numa dessas bobagens que se tornam ainda mais tolas num voo de uma hora.

Ouviu do rapaz que aquele era um problema que deveria ter sido resolvido no check-in, e estava claro que a grosseria inicial matou qualquer possibilidade de ajuda a bordo.

Quando percebeu que exatamente ele ficaria sozinho, na parte de trás, o velho patriarca resolveu pedir a um senhor que estava na fileira quatro para trocar de lugar com ele. O homem estava nitidamente irritado com aquela movida sem sentido e negou.

O patriarca ironizou a negativa com o que parecia ser seu genro. O outro senhor levantou – e não parava mais de levantar, era enorme – e perguntou, com um fortíssimo sotaque lusitano na voz de trovão:

– Qual é o teu problema, hein? Acaso não percebes que estás a atrapalhar a todos? Não tens vergonha de agir como um puto?

Sentado na fileira cinco, levei alguns centésimos de segundo quase eternos para me dar conta de que “puto” é apenas “menino” na linguagem lusa, enquanto a adrenalina baixava na mesma proporção em que o velho patriarca, sem dar um pio, se afastou em busca do próprio assento no fundo do avião.

O turboélice franco-italiano partiu quase lotado. E pelo menos na primeira meia hora aqueles passageiros infernizaram a vida de todos, falando aos gritos – o barulho dos motores era intenso – para conversarem todos com todos, apesar da distância entre suas poltronas nas fileiras três e quatro.

Até que duas das crianças, ali na faixa entre oito e dez anos – deram mostras amplas da crise de autoridade dos pais de hoje. A menina só reagia quando provocada pelo irmão. Mas o menino era difícil, do tipo irritante, provocante, pedindo coisas impossíveis, que não estavam no voo – suco de tomate, hambúrger, sinal de internet num avião daquele porte… E a mãe entrando em parafuso, falando aos gritos e quase na velocidade da luz, cada vez mais irritada. E irritante!

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As duas crianças foram ameaçadas de castigos pelos parentes, vã tentativa para que se comportassem. Até que o menino foi longe demais no tom de voz e na ameaça ao homem jovem do grupo. Desrespeitoso a valer, boca suja com gosto.

De novo, entrou em ação o homenzarrão com sotaque lusitano e voz de trovão, que levantou e foi até a poltrona do casal de crianças.

– Ó puto, já chega por hoje! E vocês todos, chega! Já incomodaram imenso desde o embarque! Será que não têm um mínimo de educação?

Não fosse o barulho dos dois motores, seria possível ouvir qualquer inseto mudo passando por ali, estivesse dentro ou fora da fuselagem. Ninguém ousou qualquer reação, havia um quê de autoridade indignada no velho senhor difícil de enfrentar – faltou pouco para o patriarca daquela família agradecer não ter havido a troca dos assentos que pretendia; lá atrás estava tudo sossegado.

Na verdade, muito mais do que grosseria, ali aquele velho senhor enorme já falava por todos. Ficou no ar a impressão de que o português estava agindo como educador, apresentando o velho, bom e cada vez mais negligenciado limite, que todos naquele grupo inegavelmente precisavam.

Um pegou algo para ler, outra tratou de olhar a paisagem na janela. Os meninos terminaram cochilando. A matriarca baixou a cabeça, fechou os olhos e apoiou a testa no punho fechado. A paz foi restabelecida.

De repente, nos minutos finais do voo, o menino quebrou o silêncio, eufórico na janela, gritando “una cancha, una cancha!”, apontando freneticamente como se enxergasse messis e ronaldos correndo atrás da pelota. “Otra, otra!”, estupefato, sem entender que há apenas uma pequena distância entre os estádios do Benfica e do Sporting. Desanuviou o ambiente.

Voltei ao presente com a chamada do embarque. O voo daquele dia estava absolutamente tranquilo, poucos passageiros, um perfil mais executivo, todos absortos em seus próprios interesses. Nada de famílias estrangeiras em férias.

Vi o Atlântico majestoso e calmo lá embaixo, como um tapete azul garantindo estabilidade ao pequeno avião. Daquela altura, contornos muito distantes de barcos e navios. Um veleiro singrava com a nobreza de suas duas velas brancas plenas de ar.

Mais ao longe, algo que me pareceu um submarino – pensei em consultar meu querido amigo almirante para saber se aquilo era possível ou simples delírio de um ignorante dos mares. Generoso e delicado, ele certamente me diria que era possível, pois ali é rota para o Mediterrâneo e diversas marinhas nacionais podem trafegar na região, com a devida permissão de Portugal.

A chegada sobrevoando a cidade linda, seus monumentos passando debaixo de nós, a luz quase sobrenatural de Lisboa num dia de sol, as cores estalando no famoso contraste dos tons que encanta há séculos.

De novo, eu avistava a foz do Tejo, as pontes 25 de Abril (a irmã da Golden Gate de San Francisco) e a Vasco da Gama. A lendária e hoje pequenina Torre de Belém, na margem direita do rio, ponto de partida das grandes navegações portuguesas que redesenharam o mundo moderno. Também à vista, o Mosteiro dos Jerónimos e o trecho de rua onde são servidos os pastéis irresistíveis, de fama mundial.

Mais adiante, os dois estádios magníficos, palcos de uma das rivalidades mais antigas do futebol europeu. Lembrei do menino de uma semana antes, inebriado pela paixão pelo fútbol. E o casario de Lisboa, cantado em verso, prosa e cores pelos artistas do mundo.

Lisboa trata o sorriso como patrimônio. É bom não esquecer, deve ser item obrigatório na bagagem.

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