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Valentina de Botas: Os brasileiros radicais flertam com a morte do senso interno de liberdade

Ninguém nos Estados Unidos se xingaria por causa das eleições presidenciais daqui

“Canalha, mídia golpista, vocês vão se f* porque o povo não é bobo e ninguém cai mais nessa conversa de uma elite fascistoide, chora direitinha!!!!!! Chupaaaaa!!!! A casa grande surta quando a senzala anda de avião!!!!!!”. Comentário modelo de devotos da súcia petista quando Dilma se reelegeu.

“Canalha, mídia golpista, vocês vão se f* porque o povo não é bobo e os comunistazinhos escrotos disfarçados de jornalistas foram desmascarados. Trump é a vitória da direita contra a tramoia do jornalixo!!!! Chora esquerdalha!!!!! Chupa!!!!!”
Comentário modelo de admiradores brasileiros de Donald Trump nas redes sociais a artigos do Augusto Nunes, meu e do Oliver sobre a vitória do americano.

Desculpe-me o eventual leitor deste texto, desculpem-me as famílias brasileiras nos lares das quais este texto eventualmente for lido, mas os dois modelos são um extrato real do mundo-cão virtual. Atenção, não me refiro aos moderados na expressão da preferência por Trump, me refiro apenas aos radicais; gente que despeja no teclado a própria infelicidade ou a felicidade deformada. Quando afirmei aqui que os dois bandos radicais se igualam, considerava o comportamento de manada, a obtusidade, o ódio à divergência tratada como imperdoável ofensa pessoal. Mas são idênticos também na linguagem e no estilo descritivo-narrativo. Além disso, ambos veem conspiração no sibilo do vento e atrelam a perfeição de seus ídolos à imperfeição dos que não os reconhecem como perfeitos. O pensamento é meio circular, mas não há o que fazer com essa lógica.

Assim, o bando radical esquerdista que vê golpe no impeachment e conspiração na Lava Jato para impedir que Lula se candidate à derrota em 2018, acha o caudilho tão superior que sequer ele deveria ser submetido às leis. O bando radical de direita, que vê em Trump a direita que ele não é, acha o americano tão poderoso que, por uma alquimia de que só ele é capaz, o jornalista que, um texto antes, era acusado de golpista e reacionário pelo primeiro bando, no texto seguinte é declarado pelo segundo bando um comunista que tramou a derrota do candidato dos red necks. Claro que a imprensa, sobretudo a americana, errou, mas ainda que Trump fosse o que seus adoradores acham que ele é, restaria a qualquer pessoa o direito de achar que ele não é e isso não a transformar numa caça.

Borges conta no miniconto “Diálogo sobre un diálogo” que naquela noite enquanto o grande Macedonio Fernández lhe explicava a tese de que a alma é imortal e que a morte é o feito mais nulo que pode suceder a um homem, ele brincava com uma navalha do amigo, abrindo-a e fechando-a. Mas um acordeom no vizinho insistia em tocar a “Cumparsita”, perturbando a conversa. Borges propôs ao amigo que se suicidassem para conversarem em paz. O radicalismo é o modo mais eficaz de destruir aquilo por que se luta, a eleição foi nos Estados Unidos – onde ninguém se xingaria por causa das eleições presidenciais daqui, francamente – e não precisávamos importar essa questão para reaquecer ódios nutridos por liberticidas depois de os democratas, e não os radicais (como os defensores de intervenção militar), obtermos o impeachment de Dilma Rousseff e surrarmos as esquerdas nas eleições municipais escolhendo também moderados.

Os brasileiros radicais flertam com a morte do senso interno – o mais importante – de liberdade, num suicídio (simbólico!) inútil resultante do gozo em manada no ódio que os anima e que só enxergam no outro, atestando a deformação de se assemelhar àquilo que combatem. Borges encerra o miniconto: francamente, não me lembro se nos suicidamos naquela noite.

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  1. Comentado por:

    valternei

    entendimento equivocado da eleicao americana.
    este video mostra a verdade do que ocorreu la. Nao sao os raivosos que venceram, foram os que estao cansados dos raivosos.
    Britanny Hughes faz um desenho para os mais “incrédulos” acerca da vitória do Trump
    https://www.facebook.com/embaixadaresistencia/videos/1714274768888801/
    o mauricio (15/11/2016 às 17:25) esta coberto de razao, gostem ou nao do trump teve meritos ao vencer e soube entender o momento e sabe o que a populacao americana quer. Tomara seja um excelente presidente. Torço por ele e se a economia amrica for bem , a brasileira terá chance de aproveitar oportunidades que isso tras.

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  2. Comentado por:

    Diego de Lareina

    Esta “ultradireita” PENSA que está no poder. Não está. Apenas estão livres, queira Deus para sempre, das esquerda doentia no comando dos destinos da Nação, dos estados e municípios. Fiquemos tranquilos, eles têm tanta chance de conquistar o poder quanto Lula tem de se eleger em 2018. Apenas é a vez deles de tripudiar e enxovalhar os “inimigos”, o antigo “nós” derrotado, e de rolar nas poças de tanta alegria.

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  3. Comentado por:

    deaC

    Tá bem estranho os comentários nas redes sociais. Sabe como está parecendo? pessoas “addict to drugs” estão enlouquecidas, nós defenestramos uma presidente, estamos sem uma causa e adotamos a causa dos Estados Unidos. O que é bem bizarro. Ainda temos muitos problemas a resolver no nosso quintal, e estamos nos envolvendo na vida dos outros. Pessoas bacanas que eu interagia, de repente se tornaram fãs enlouquecidas do Trump, como se conhecessem a vida do sujeito desde criancinhas. Tenho até dúvidas, será que essas pessoas são cidadãs americanas que estão aqui passando uma temporada? ou será que são brasileiros candidatos ao green card e passaram a simpatizar com o novo POTUS e externam seus pensamentos. Sei lá. Já que todos se acham no direito de opinar, tenho algo a dizer também: NEVER NORMALIZE TRUMP. NEVER! The midia will try. Don’t allow it. He can not be treated like a normal president. He is not. We can not let this ever be seen as acceptable, not for a second. Anyway, I have faith in the resilience of american people.

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