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Valentina de Botas: Depois de Sharon e Ledezma, o que mais precisa acontecer?

VALENTINA DE BOTAS Sharon estava angustiada com as ameaças do namorado e com a violência dele contra a própria mãe. No começo, o pai estranhou: “Minha filha, você é pobre, mas é estudada, bonita, trabalhadora, não merece isso; ele bate na mãe e o irmão ficou preso seis anos por assassinato”. “Ah, pai, ele não […]

VALENTINA DE BOTAS

Sharon estava angustiada com as ameaças do namorado e com a violência dele contra a própria mãe. No começo, o pai estranhou: “Minha filha, você é pobre, mas é estudada, bonita, trabalhadora, não merece isso; ele bate na mãe e o irmão ficou preso seis anos por assassinato”. “Ah, pai, ele não é o irmão e prometeu que vai mudar”. Na quinta-feira passada, foi esse irmão quem segurou Sharon para o ex-namorado ensinar a ela com golpes de faca que “vagabunda nenhuma faz isso” com ele. “Isso”: terminar o namoro, a atitude de Sharon quatro dias antes.

Andrés Pastrana indaga o que mais precisa acontecer, depois do sequestro de Antonio Ledezma, para que os presidentes latino-americanos denunciem a violação dos direitos humanos na Venezuela. O Itamaraty, aviltado sob o lulopetismo, incorreu naquela nota pusilânime. Analistas debatem se o repugnante Maduro se fortaleceu ao modo bolivariano de existir – violando direitos, roubando e mentindo – para as eleições próximas ou se traiu seu enfraquecimento. Incontestável é que os bolivarianos, degenerescência das esquerdas perfeitamente idiotas latino-americanas que morrem atirando, não têm projeto para os países onde florescem senão a preservação do poder.

Segundo o Mapa da Violência, seis mulheres são assassinadas diariamente no Brasil pelos atuais ou ex-companheiros, uma a cada quatro horas. Eles podem ser um Pimenta Neves (maduro, estável financeiramente, formação superior) ou igual aos assassinos de Sharon (jovens, desocupados, ensino médio incompleto). Em comum, a convicção de que aquelas mulheres eram uma coisa deles que só faziam jus à vida enquanto coisa deles fossem. O perfil das vítimas também é variado; em comum, o gênero tornado em pena capital.

Criada em 2006, a Lei Maria da Penha arrefeceu pouco a violência contra a mulher, e não pelo texto legal em si, mas pela campanha de divulgação. E então, em 2008, o feminicídio retomou a curva ascendente sustentada até hoje. Criminosos não ligam para leis num país em que menos de 10% dos homicidas são julgados e ficam presos menos de dez anos. Ademais, logo a Secretaria Especial das Mulheres ocupou-se de propaganda de lingerie, o Ministério da Justiça adotou um terrorista e a Secretaria de Direitos Humanos não desperdiça direitos em humanos que ignoram matizes ideológicos do regime ou estão do lado oposto.

A primeira mulher-mãe-avó-presidenta, na exiguidade neuronal e moral dela, não tem plano algum para o feminicídio nem para os 63 mil assassinatos anuais, a matança silenciosa no país em que uma súcia indiferente ao cotidiano real da população não move um mísero mensalão, um porto de Mariel, uma campanha joãosantana para estancar o esvaziamento dramático do direito básico de os brasileiros não morrermos enquanto tentamos sobreviver. Em 12 anos, mais de 600 mil assassinatos e até 2018 outros 252 mil acontecerão se nada for feito e nada será feito porque a corja não pensa o país.

Violências que se juntam e se misturam na mesma depravação na qual a vida e os direitos humanos deixaram de ter valor para ter lado. Maduro prende opositores e, antes de autorizar o Exército a abater manifestantes, já matara 45 pessoas; jeca e Dilma o enaltecem; e Sharon foi assassinada. O que mais tem de acontecer para os sobreviventes acusarmos nos liberticidas os homicidas que são? Um beijo, Sharon, sua partida é uma tristeza sem fim. Sharon era minha jovem assistente.

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  1. Comentado por:

    Bruno Sampaio

    Tristemente excelente texto. Parabéns.

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  2. Comentado por:

    Bruno Sampaio

    Ataíde – 26/2/2015 às 12:22, fui conferir seu post, tão comentado e, na boa, você disse tudo. Já vi amigas perderem dez anos de suas vidas ao lado de trastes cuja má índole detectei em dez segundos! Felizmente não terminou em assassinato, mas poderia. E tem a ver com isso tudo mesmo, como dirige, como se comporta á mesa e fora dela, etc, etc.
    .
    E ainda tem um monte de mulher que não pode ver uma arma que entra imediatamente em modo de acasalamento. Nos bailes funks da vida tá cheio! Sad but true…

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  3. Comentado por:

    bereta

    Antonio Carlos – MT – Gentileza sua, sr. Antonio Carlos. Sou apenas discípulo de Augusto Nunes, que nos brinda com os comentários de VALENTINA DE BOTAS, que não deixo de ler. E desta vez, ao nos brindar com seus textos brilhantes, ergueu a taça da amargura que nos consome, como disse o poeta. Solidarizei-me com ela e com todos aqueles que sorveram desse absinto que nos sufoca. Enquant janots e ministros justiceiros confabulam e o grande líder excita seus mastins, o povo aplaude. PAÍS MISERÁVEL É PAÍS COBERTO DE MISÉRIA MORAL. A miséria material tem conserto.

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  4. Comentado por:

    Marquês de Casca Fina

    Eis o país do futuro.
    Mas país? Que país? Por enquanto mais parece um grotesco arremedo de país, cujo futuro, longínquo, ainda deverá superar eons de tempo, através de manwantaras incontáveis.
    Aqui, um desgraçado morto de fome que furta uma banana no mercado experimenta a mão pesada de seguranças, é algemado pela polícia e atirado dentro do camburão da lei, enquanto criminosos, recém-egressos das furnas do terrorismo, tais o Colina e a Var-Palmares, roubam descaradamente, apropriando-se do dinheiro público, passam por um período exíguo de tempo em cela especial para, em seguida, ganhar a liberdade, ao passo que seus cúmplices, despidos dos privilégios políticos, permanecem encarcerados. Refiro-me, claro, aos mensaleiros.
    Agora, a tibieza do procurador Janot, incentivada pelo senhor ministro da Justiça, este que anda a fazer reuniões com advogados dos empreiteiros, encaminha ao STF cândida propositura de interpelação de inquérito, ao invés de robusta denúncia contra os intangíveis políticos e seus partidos, que é o que deveria ser feito, haja vista a abundância de provas consistentes e fundamentadas, sem as quais os delatores não teriam direito às prerrogativas da delação premiada.
    Tudo tão transparente, não é mesmo? Oh, sim, transparente como o petróleo da Petrobras.
    Vem aí a pizza petrolão. Afinal, estamos num arremedo de país.
    A impunidade é cartão de apresentação do Brasil.
    São e permanecerão impunes esses repulsivos chacais famulentos travestidos de políticos; são e permanecerão impunes juízes que elegem a chicana e a venalidade por baliza da falta de consciência; são e permanecerão impunes autoridades que, escoradas pelo bastão da lei, abusam das prerrogativas de seus cargos e tomam por norma de conduta a truculência covarde e desmedida.
    Na mesma metria, os estupradores, os homicidas de todas as categorias (parricidas, matricidas, filicidas, latrocidas, etc., etc…) que, quando apenados, o são de forma branda, por curta estada atrás das grades, logo postos em liberdade. Soltos, não tardam em reincidir nos mesmos crimes.
    É o Brasil.
    Junte-se a essa imunda latrina coalhada de bárbaros dementados os gorilões de peito hirsuto que se acham donos e senhores da mulher, e sobre ela tripudiam, com requintada crueldade, não raro assassinando-as, depois de aniquilarem suas esperanças e destruírem seus sonhos.
    Esses escrotos, covardes, jamais conseguiriam entender que a alma feminina não é para ser compreendida, mas para ser amada.
    Sei da sua dor, caríssima Valentina. Sei da sua nobre e justa repulsa. Não tenho como não compartilhar de seu horror. Entanto, lamento que minha solidariedade seja impotente para amenizar o amargor de sua alma pela perda da Sharon. Somos muitos os que perdemos as nossas Sharons.
    Mas, a despeito dos chacais de todos os tempos, não nos perderemos de nós mesmos.
    Paz e Amor.

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  5. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Obrigada, Bereta, mais uma vez. Peepee, sim, os assassinos foram presos, não sei por quanto tempo. Reforço que concordo que a escolha de Sharon não poderia ter sido mais infeliz, mas reforço também que relações afetivas não deveriam ensejar risco de vida e lembro aos amigos que Sandra Gomide foi assassinada pelo ex-namorado cujo perfil é muito diferente do perfil dos assassinos de Sharon. A questão mais importante é a impunidade não só nesse caso, mas nos 90% dos assassinatos da violência, digamos, mais ampla, que lambe a cara do brasileiro cada vez que ele sai de casa. E quanto a essas violências, os sucessivos governos do PT nada fizeram porque não pensam o país em nenhuma área. Os ministros da justiça do PT só se movem pelo e para o partido-seita-súcia, denotando o desprezo que têm pelos interesses do país, uma das características em comum com os governos bolivarianos: não têm projeto algum além de se perpetuar no poder. Um país com 63 mil assassinatos anuais e, dentro dele, esse feminicídio crônico, vive um déficit de cidadania. Uma lástima.

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  6. Comentado por:

    Oliver

    O GRITO
    Lamento sua perda, minha querida bailarina de botinas. E entendo seu grito. Ele é o grito dos injustiçados, dos abandonados, dos enganados e dos rapinados. É o grito que ecoa cada vez mais forte nesta nação de feitos de besta. É querer demais que o crápula de Garanhuns e seu bonecão de mamulengo instalado no Planalto entendam de uma vez por todas o que está em andamento. Como amor e ódio se equilibram na intrincada teia das relações humanas, o que os separa efetivamente é a nossa noção de civilidade. Coisa que vem faltando ostensivamente em nossa sociedade atual. Com um governo destes, então, a coisa já beira mesmo o barbarismo explícito. Estabelece-se aqui o “triângulo odioso”, onde os agentes se matam entre si enquanto o terceiro olho do Estado finge que não vê. Ou alimenta a barbárie, sob o pretexto de “cuidar dos pobres”, cuidando também para que fiquemos cada vez mais pobres para continuarmos a ser “cuidados”. É a mão que balança o berço, minha querida. Já desconfio de cara de presidentes que vêem inimigos por onde vão. Não são capazes de enxergar a própria ignorância e estupidez que os acompanha. Não são capazes da grandeza de entenderem que o problema é com eles. Não pedem o boné. Acabam impiedosamente caçados pelas forças insurgentes, são retirados à tapa do esgoto onde se escondem e terminam seus mandatos pateticamente, com a cabeça decepada do corpo. Saddam Hussein não foi lembrado à toa, pelo irmãozinho pilantra dele, que até agora só teve decepado o mindinho. Meus desejos de um excelente 2015 para a bonecona de mamulengo do Planalto e sua chefia vagabunda. Ela vai ter o que merece. Ele também.

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  7. Comentado por:

    Míriam

    Valentina de Botas, seu texto me deixou sem fôlego. A violência contra a mulher é sabida, mas a contabilidade é assustadora.
    A minha grande tristeza com este nosso país, assim em minúscula mesmo, é não ver uma solução. Porque enquanto as pessoas não forem responsabilizadas pelos seus atos, a lei não for aplicada com rigor da sanção merecida, não teremos saída. Todos os crimes impunes, de quaisquer espécies, geram mais violências contra todos.
    E dizer que a vida, nosso bem mais precioso, é o primeiro direito a ser protegido no texto do art. 5º da Constituição. Mas apesar do belo texto constitucional a Sharon não está mais aqui. E nós que ficamos, também não temos proteção.

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