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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Uma viagem para longe e para dentro

A exposição De Ázia a Z, que começa nesta terça-feira, é o resultado de uma viagem de 385 dias por 15 países do continente asiático

Por Branca Nunes Atualizado em 27 jun 2017, 01h18 - Publicado em 27 jun 2017, 00h18

Durante 10 horas, o fotógrafo Eduardo Colesi aguardou na entrada de um mosteiro na Tailândia a saída de um homem que se tornaria monge naquele dia. A transição é marcada pelo hábito – branco na entrada e vermelho na saída. Ninguém sabe direito o que aconteceu lá dentro, mas Colesi conseguiu captar mais do que cores. É como se as imagens tivessem alma.

As fotos fazem parte da exposição De Ásia a Z, que será aberta nesta terça-feira na Galeria Andrea Rehder, em São Paulo. A mostra reúne 45 fotografias tiradas durante uma viagem de 385 dias por 15 países asiáticos, feita por Colesi em companhia da mulher Mariana Colesi, diretora artística do projeto. Com uma câmera na mão e várias ideias na cabeça, eles partiram rumo a uma aventura que tinha como objetivo principal submergir na cultura de cada povo.

Nome bastante conhecido no meio publicitário, Eduardo Colesi já trabalhou com fotógrafos como J.R. Duran, Andreas Heiniger, Fabio Bataglia, Luis Crispino e Maurício Nahas. Quase todas as fotos foram impressas em papel Hahnemühle. Uma das duas exceções é a imagem de um monge budista, impressa num papel sagrado feito por monges que vivem nas montanhas do Himalaia. A outra, gravada em uma madeira de demolição por meio de impressão UV, mostra uma casa construída sem um único prego na Floresta de Manggarai, na Indonésia. Confira os principais trechos da entrevista:

Como surgiu a ideia de fazer a viagem?

Surgiu da vontade de querer conhecer a fundo os lugares que visitávamos. Durante as férias tínhamos 20, 30 dias no máximo para viajar, o que nos limitava bastante. Quando fomos ao Quênia em 2011, por exemplo, sempre havia uma tribo mais distante, que tínhamos vontade de visitar, mas faltava tempo. Essa viagem foi planejada para evitar essa sensação. Além disso, nos encantava a possibilidade de conhecer lugares remotos, poucas vezes percorridos por estrangeiros. Ninguém sai do Brasil para ir até a Mongólia, andar 6,5 mil quilômetros para cruzar o país pelas estepes e voltar. Dois meses na China permitem chegar a lugares que não se pode conhecer em menos tempo. Só no Laos ficamos um mês, um país que não chega a ter 7 milhões de habitantes.

Por que a Ásia?

Decidimos conhecer o lugar mais remoto que podíamos alcançar. Já conhecíamos 20 países de praticamente todos os continentes, mas na Ásia só tínhamos visitado a Turquia. Foi o que mais pesou na decisão.

O que suas fotografias pretendem mostrar?

Minha vontade era retratar a Ásia de maneira poética. Não queria fazer fotojornalismo, no estilo do Sebastião Salgado – embora o admire muito. Busquei algo quase antropofágico, que conseguisse mostrar quem realmente é aquele povo, o que sentem, a religiosidade, a fé. Fotografar as pessoas nas suas diferentes personalidades e faces. Mostrar que a riqueza humana está nas suas idiossincrasias, nos detalhes.

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O que mais o encantou?

O mais marcante do continente asiático é a fé, tanto dos habitantes quanto da que emana dos próprios lugares. Os costumes também são muitos diferentes. Visitamos tribos nômades que nunca tinham tido contato com ocidentais. No norte da Mongólia, conhecemos domadores de rena que jamais haviam sido apresentados a brasileiros. Em alguns vilarejos éramos figuras tão exóticas que os moradores pediam para tirar uma foto, saíam correndo atrás da gente. Onde não tinha hotel, dormíamos em templos, cabanas, monastérios ou nas casas de moradores. Onde não havia estrada, viajávamos de camelo, cavalo, rena. Às vezes passávamos fome, porque não encontrávamos comida. Foi uma imersão completa.

O que sentiu ao voltar para o Brasil?

Uma das primeiras sensações foi perceber que há mais de um ano não sentia medo de gente. No caminho do aeroporto para casa, quando paramos num semáforo, notei que todo mundo olhava para os lados desconfiados, havia uma tensão. Foi chocante, triste.

Você e sua mulher pretendem pegar a estrada novamente?

Sempre. É algo que vicia. Nossa próxima viagem será para a Namíbia, ainda este ano, onde pretendemos ficar no mínimo um mês. Também estamos pensando em mudar para Portugal. Além de ser um país com uma localização estratégica para continuar viajando, o Brasil vive uma situação limite em todos os sentidos.

A viagem mudou você de alguma forma?

De várias. A mais palpável é que voltei vegetariano. Passei muito tempo ao lado dos animais, o que, embora possa soar piegas para alguns, fez com que eu me afeiçoasse a eles. Além disso, a carne é insalubre em vários países asiáticos. Ela fica exposta a moscas e outros insetos e invariavelmente os vendedores não sabem nem que pedaço é aquele nem de qual bicho. Quando você pergunta, respondem apenas: “É carne”. E há muito cachorro, muita ratazana, cobra, sapo. Outra mudança que sinto é no meu trabalho como fotografo publicitário. Desde que voltei, me procuram para trabalhos mais dinâmicos, mais artísticos, autorais. Pode ser apenas coincidência – uma boa coincidência.

Serviço:
De Ásia a Z – fotografias de Eduardo Colesi
Abertura: 27/6, a partir das 18h
Exposição: 28/6 a 10/8/2017
Horários: Seg. a Sex.: 12h às 18h
Endereço: Galeria Andrea Rehder – Avenida Brasil, 2079, Jardim América, São Paulo
Tel.: (11) 3081-0083

A exposição De Ázia a Z é o resultado de uma viagem de 385 dias pelo continente asiático Eduardo Colesi/Divulgação
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