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Um mito de papel

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA Demétrio Magnoli “Não me importo de ganhar presente atrasado. Eu quero que o Brasil me dê de presente a Dilma presidente do Brasil”, conclamou Lula, do alto de um palanque, dias atrás. Não foi um gesto fortuito. Antes, a Executiva do PT definira a campanha “Dê a vitória de […]

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Demétrio Magnoli

“Não me importo de ganhar presente atrasado. Eu quero que o Brasil me dê de presente a Dilma presidente do Brasil”, conclamou Lula, do alto de um palanque, dias atrás. Não foi um gesto fortuito. Antes, a Executiva do PT definira a campanha “Dê a vitória de Dilma de presente a Lula”. Aos 65 anos, a figura que deixa o Planalto cumpre uma antiga profecia do general Golbery do Couto e Silva. O “mago” da ditadura militar enxergara no sindicalista em ascensão o “homem que destruirá a esquerda no Brasil”. Quando o PT trata a Presidência da República como uma oferenda pessoal, nada resta de aproveitável no maior partido de esquerda do País.

Lula vive a sua quarta encarnação. Ele foi o expoente do novo movimento sindical aos 30, o líder de um partido de massas aos 40, o presidente salvacionista aos 60. Agora, aos 65, virou mito. O mito, contudo, é feito de papel. Ele vive nos ensaios dos intelectuais que se rebaixam voluntariamente à condição de áulicos e nos artigos de jornalistas seduzidos pelas aparências ou atraídos pelas luzes do poder. Todavia ele só existe na consciência dos brasileiros como fenômeno marginal. Daqui a três dias, Lula pode até mesmo ficar sem seu almejado carrinho de rolimã. A mera existência da hipótese improvável de derrota de Dilma evidencia a natureza fraudulenta da mitificação que está em curso.

“É a economia, estúpido!”, escreveu James Carville, o estrategista eleitoral de Bill Clinton, num cartaz pendurado na sede da campanha, em 1992. George H. Bush, o pai, disputava a reeleição cercado pela auréola do triunfo na primeira Guerra do Golfo, mas o país submergia na recessão. Clinton venceu, insistindo na tecla da economia. Por que Dilma não venceu no primeiro turno, se a economia avança em desabalada carreira, num ritmo alucinante propiciado pelo crédito farto e pelos fluxos especulativos de investimentos estrangeiros?

A pergunta deve ser esclarecida. Lula abordou a sua sucessão como uma campanha de reeleição. No Brasil, como na América Latina em geral, o instituto da reeleição tende a converter o Estado numa máquina partidária. A Presidência, os Ministérios, as empresas estatais e as centrais sindicais neopelegas foram mobilizadas para assegurar o triunfo da candidata oficial. Nessas condições, por que a “mulher de Lula”, o pseudônimo do mito vivo, não conseguiu reproduzir as performances de Eduardo Campos, em Pernambuco, Jaques Wagner, na Bahia, Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, Antonio Anastasia, em Minas Gerais, ou Geraldo Alckmin, em São Paulo?

“Há três tipos de mentiras – mentiras, mentiras abomináveis e estatísticas”, teria dito certa vez Benjamin Disraeli. Os institutos de pesquisa registram uma taxa de aprovação de Lula em torno de 80%. Cerca de dois terços da aprovação recordista se originam de indivíduos que conferem ao presidente a avaliação “bom”, não “ótimo”. Nesse grupo, uma maioria não votou na “mulher de Lula” no primeiro turno. Mas a produção intelectual do mito, a fim de fabricar uma “mentira abominável”, opera exclusivamente com a taxa agregada. Há muito mais que ingenuidade no curioso procedimento.

As águas que confluem para o rio da mitificação de Lula partem de dois tributários principais, além de pequenas nascentes poluídas pelos patrocínios oriundos do Ministério da Verdade Oficial, de Franklin Martins. O primeiro tributário escorre pela vertente dos intelectuais de esquerda, que renunciaram às suas convicções básicas, abdicaram da meta de reformas estruturantes e desistiram de reivindicar a universalização efetiva dos direitos sociais. Eles retrocederam à trincheira de um antiamericanismo primitivo e, ecoando uma melodia tão antiga quanto anacrônica, celebram a imagem de um líder salvacionista que fala ao povo por cima das instituições da democracia. Nesse conjunto, uma corrente mais nostálgica, que se pretende realista, enxerga em Lula a derradeira boia de salvação para a ditadura castrista em Cuba. A Marilena Chaui pós-mensalão, transfigurada em porta-estandarte do “controle social da mídia”, é a síntese possível do lulismo dos intelectuais.

“As pessoas ricas foram as que mais ganharam dinheiro no meu governo”, urrou Lula num comício eleitoral em Belo Horizonte, pronunciando um diagnóstico inquestionável. O segundo tributário da mitificação desce da vertente de uma elite empresarial avessa à concorrência, que prospera no ecossistema de negócios configurado pelo BNDES e pelos fundos de pensão. Essa corrente identifica no lulismo o impulso de restauração de um modelo econômico fundado na aliança entre o Estado e o grande capital. Os empresários da Abimaq divulgaram um manifesto em defesa do BNDES, enquanto Eike Batista, um sócio do banco estatal, o cobria de elogios. Na noite do primeiro turno, os analistas financeiros quase vestiram luto fechado. Tais figuras, tanto quanto os controladores da Oi e os proprietários da Odebrecht, representam o lulismo da elite econômica.

O mito ficou nu no primeiro turno. Todos os indícios sugerem que o aguardado triunfo de Dilma foi frustrado exatamente por Lula ─ que, na sequência do escândalo de Erenice Guerra, afrontou a opinião pública ao investir contra a imprensa independente. “Nem sempre é a economia, estúpido!”: os valores também contam. Naquele momento as curvas de tendências eleitorais se inverteram, expressando a resistência de mais de metade dos brasileiros ao lulismo. O jornalismo honesto deveria refletir sobre isso, antes de reproduzir as sentenças escritas pelos fabricantes de mitos.

Os mitos fundadores pertencem a um tempo anterior à História. No fundo, desde a difusão da escrita na Grécia do século 8.º a.C., só surgiram mitos de papel ─ isto é, frutos da obra política dos filósofos. Por definição, tais mitos estão sujeitos à desmitificação. Já é hora de submeter o mito de Lula a essa crítica esclarecedora.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Frederico Koplin

    Aditando o artigo do Demétrio cabe um outro ensinamento de D’Israeli (Grafia correta): Nenhum governo pode ser sólido por muito tempo se não tiver uma oposição temível (sic).
    Foi exatamente a ausência de uma oposição aguerrida, severa e atuante que permitiu a mitificação do líder da camarilha.
    Caso a sua representante se eleja amanhã (ainda guardo esperanças que não) cabe a sociedade pautar a oposição exigindo dela atitude real de oposição e ação afirmativa. Caso isso não ocorra nos transformaremos em uma nova Venezuela, literalmente.

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  2. Comentado por:

    Frederico Koplin

    Mais uma coisa, o mesmo D’Israeli diz qual deve ser o comportamento em um momento como esse:
    “O momento exige que os homens de bem tenham audácia dos canalhas”

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  3. Comentado por:

    Glorinha de Nantes

    ___Este título está chegando bem perto de descrever uma das caras mais parecidas com a da maioria dos que votam na rrousseff, sem ofensa nenhuma. É apenas o tal processo de identificação.
    ___Parece comigo. Ou com minha mãe. Ou com minha professora. O individual, o mais próximo e imediato, o mais igual a mim. É o melhor para os meus, é o mellhor para mim.___O conceito que permeia as decisões é o do provincianismo. Mais imediatista e utilitarista. Mais individualista, pois não ultrapassa os limites do nosso quintal.
    ___Os que votam em Serra, identificam-se com um coletivo: a ideia de Nação. O conceito que permeia as decisões é o do coletivo democrâtico, sem conotações ideológicas anacrônicas, por gentileza.
    ___O indivíduo é mais autônomo e independente, se estiver inserido num coletivo mais desenvolvido e abrangente. Exige visão de mundo mais além do nosso jardim. Sem ofensas, exige cortar o cordão umbelical. ___O que nunca significarâ negar origens, vínculos, afetos. Essa é uma confusão muito comum.
    ___Identificar-se com o universo maior nunca será negação do pequeno universo de cada um de nós. Vivemos e somos, na essência, provincianos. Contudo, há que se pensar, necessariamente, a partir de um quadro de referência abrangente, extenso e profundo, tanto quanto possível.     
    ___O viés do ponto de vista de uns e outros seria o tal processo de identificação.  Ou o universo de cidadão do mundo ou, prioritariamente, o universo particular, o nosso mundinho, sem conotação pejorativa.
    ___Conscientes e cientes de haver ainda crenças ou dogmas que nos enfumaçam a visão dos fatos e personagens, temos o dever de ultrapassar nossos limites e as barreiras à frente. Amadurecer é uma trilha árdua. No individual e no coletivo. Ao final dessa trilha, a história será a recompensa. E bela!      

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  4. Comentado por:

    Rosana

    Excelente artigo, Lula de mito nao tem nada, muito pelo contrário, desde sempre se sabia disso. Agora ele se desnudou completamente. Fim melancólico.

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  5. Comentado por:

    Rodrigo Cortes

    Assunto tão rico não deve e nem pode ser esgotado em um único artigo.
    A critica é mais que esclarecedora, é um reforço necessário para impedir a consolidação desta ficção intelectual.
    Os mitos são necessários para construção de qualquer sociedade, mas venhamos e convenhamos só os bons mitos devem receber alento o que não é o caso.
    J.P. Sartre ficou extasiado ao ver suas teorias tornarem realidade com a revoluçao cubana. Foi uns dos primeiros a ficar de quatro diante da população, na sua maioria de negros, que seguravam potentes fuzis e incandescentes charutos nas mãos.
    Marilena Chauí que trata em seus livros do mito fundador, quer vivenciar a comtemplação deste êxtase atraves de seu sindicalista desprovido de aureóla, embora muito popular e carismático.
    Diversas vezes Augusto Nunes em seus textos de grande quilate material nega que a fundação do Brasil tenha acontecido em 2002, impedindo assim que a história seja apagada como as pessoas das fotos sob o regime de Stalim ou coisa parecida.
    O ex-presidente Itamar Franco alertou outro dia da necessidade dos muros e mitos serem derrubados.
    A adoração do mito em questão é uma alucinação coletiva partidaria produzida individualmente pela mente desta mulher que pode estar atacada pela doença de Huntigton ou mesmo sofrer de um outro mal, tendo em vista a elaboração da construção de outro mito. Desta vez o forno dos estelionatários prepara “a escolhida”, “a predestinada”, “a mãe”, “a primeira mulher” para a continuação da saga dos cretinos.
    Dilma não passa de um peixe estragado presa num bonde estacionado em 1964.
    E por falar de coisa estragada no ar, Leonel Brizola uns dos ex-chefes da candidata do PT, viu que o mito era apenas um sapo barbudo.
    No que trata os afluente que formam o processo de mitificação, tenho um terceiro tributário que é crucial na manutenção do que aí está, sendo muito mais caudaloso e que infelismente não foi considerado pelo autor do artigo.
    Só resta pegar meu martelinho.

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