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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Um horizonte sem teto

Branca Nunes Na quinta-feira, 17 de fevereiro, o governo federal anunciou, num texto publicado com destaque no Blog do Planalto, ter dado “um passo importante para o começo da construção de seis mil moradias em cidades da região Serrana do Rio”. Mais de um mês depois da tragédia que devastou as cidades atingidas pelas enchentes […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 12h40 - Publicado em 2 mar 2011, 17h11

Regiane Correia Peres, na frente da casa que ficou destruída depois da tragédia

Branca Nunes

Na quinta-feira, 17 de fevereiro, o governo federal anunciou, num texto publicado com destaque no Blog do Planalto, ter dado “um passo importante para o começo da construção de seis mil moradias em cidades da região Serrana do Rio”. Mais de um mês depois da tragédia que devastou as cidades atingidas pelas enchentes de janeiro, a portaria nº 59, do Ministério das Cidades, decretou que cada imóvel custará até 48 mil reais.

Nesta quinta-feira, uma semana depois da notícia, Regiane Correia Peres, uma das 15.837 pessoas que continuam desabrigadas ou desalojadas em Teresópolis, saiu mais uma vez a procura de uma casa para alugar. Aquela em que namorava há semanas foi ocupada para outra família. Outra, com menos de 50 metros quadrados, custava inacreditáveis mil reais por mês. Ainda sem endereço fixo, Regiane voltou para o abrigo onde está há 42 dias com o marido e quatro filhos.

Mais de um mês depois da tragédia, Regiane não sabe dizer se o mais difícil é conseguir uma casa ou ter acesso ao dinheiro do aluguel social. Na semana passada, foi pela quarta vez ao posto da Caixa Econômica Federal montado em Teresópolis em busca do benefício prometido. Na primeira, o local ainda não tinha começado a funcionar. Na segunda, seu nome não estava na lista. Na terceira, faltavam alguns documentos. Na última deu tudo certo. Ou quase tudo. Regiane foi avisada de que deveria voltar dali a 10 dias para pegar o dinheiro. Faltam quatro.

Vivendo à base de remédios desde a madrugada de 12 de janeiro, as lembranças do drama deixam marejados os olhos de Regiane. Quando a água chegou à altura da cama do segundo andar da beliche, ela puxou os filhos para junto do peito e disse para todos se abraçarem e começarem a rezar. Morreriam juntos. “Você consegue imaginar o que é uma mãe falar para os próprios filhos que eles vão morrer?”, pergunta. Ao vislumbrar, entre um relâmpago e outro, um vizinho arrastando-se rente à parede do lado de fora, Regiane percebeu que havia uma saída: se o seguisse, conseguiria alcançar a casa do pai, vizinha à sua, e alçar as crianças até a laje onde estavam abrigadas mais de uma dezena de pessoas. Foi o que fez. A tragédia vivida pelo marido foi maior: sete parentes dele estão desaparecidos. “Mortos”, resigna-se Regiane.

Hoje, tem dois grandes medos. O primeiro é ter de deixar o abrigo antes de conseguir uma casa. O segundo é que a luz acabe – o que aconteceu duas vezes no último mês. Além da casa, cultiva um sonho singelo: um videogame para a filha de seis anos. O que a menina havia ganhado na semana da tempestade foi-se com a casa, as roupas, as panelas, a cama, a geladeira. “Sei que é um desejo meio bobo na nossa situação, mas ia fazer minha filha muito feliz”, desculpa-se Regiane.

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Irineu Souza Santos mostra o buraco no telhado onde ficou preso e o estrado da cama usado para salvá-lo

Como a maioria dos sobreviventes, Regiane acredita que continua viva graças à intervenção divina. Foi Deus quem a fez escalar sozinha a parede da casa do pai e unir-se às crianças já abrigadas no segundo andar. Também foi Deus quem fez o estrado de uma cama desviar-se da correnteza e aproximar-se do mecânico Irineu Souza Santos, dando o apoio necessário para que um vizinho o ajudasse a desprender-se do buraco no telhado, onde havia prendido a perna ao pular da sacada de casa tentando fugir da inundação. O socorro chegou quando a água estava na altura do peito. Irineu perdeu tudo.

O pedreiro Juaci da Ponte Rabello também. Sua casa foi levada pela correnteza e ele ocupou a do irmão, que foi com a mulher para a casa de outro parente. Como nove em cada dez casas do bairro de Campo Grande, em Teresópolis, a de Juaci ostenta o número pintado em vermelho das moradias interditadas pela defesa civil sob risco de desabarem a qualquer segundo. Mas ele se recusa a sair. “Para onde eu vou?”, pergunta. Por falta de água para lavar o chão, o barro que invadiu a casa naquela noite ainda tinge de marrom o colchão onde Juaci dorme, os azulejos e as paredes.

Juaci da Ponte Rabello continua morando na casa interditada pela defesa civil

Solitário empedernido, ele se recusa a ir para um abrigo. Desde a noite da tragédia, deu entrevistas para mais de dez jornais e emissoras de televisão. É difícil não reparar no homem de cabelos brancos, pele queimada de sol e olhos intensamente azuis fumando um cigarro em frente da única casa que permaneceu em pé naquele trecho da estrada. Não quer conversa com gente da prefeitura. “Só se me pagarem”, diz, irritado com a falta de informação e ajuda dos órgãos públicos. “Eles entregam a cesta básica, mas eu não tenho água para cozinhar”, reclama. “Eles me deram o cartão do aluguel social, mas não disseram quando o dinheiro será liberado”.

Mortos continuam a ser encontrados mais de um mês depois da catásfrofe

Juaci reluta algum tempo antes de dizer, com duas palavras, o que sente desde aquela noite: “É desesperador”. A casa que ocupa tem cinco cômodos minúsculos: uma sala, dois quartos, uma cozinha e um banheiro. As roupas, o colchão e os alimentos da cesta básica estão espalhados pelo chão enlameado de barro, os móveis sumiram com a enxurrada, não há água na torneira, o número pintado pela defesa civil lembra a Juaci que mais cedo ou mais ele terá de sair e os documentos que restaram são guardados como ouro numa pasta de papelão preta. É mesmo desesperador.

Nesta quinta-feira, a contagem oficial indicava 903 mortos – 428 em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, quatro em São José do Vale do Rio Preto e um em Bom Jardim. Ainda há 369 desaparecidos. São 13.638 desalojados e 10.523 desabrigados em Teresópolis e Nova Friburgo, cidade que até agora registrou 80 casos de leptospirose. Como mostram os números, existem coisas mais importantes do que saber que as casas prometidas pelo governo federal custarão, quando ficarem prontas, até 48 mil reais.

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