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Terror do três

Rezam os Evangelhos que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, em complicada operação que me deu muita dor de cabeça nas aulas do Catecismo da Doutrina Cristã

Por Deonísio da Silva - Atualizado em 19 Aug 2018, 21h39 - Publicado em 19 Aug 2018, 12h38

Deonísio da Silva

Nas redes sociais, rolam narrativas lendárias. Uma delas dá conta de que o Legislativo só faz o que o Executivo quer, e outra diz que o Executivo, por medo do Judiciário, não faz nada.

O novo presidente da República terá problemas com o número três em 2019. Que farão o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, os três poderes? Faz tempo que também os três poderes exibem suas notórias e complexas sutilezas.

Mas por que o três dá tantos problemas, alguns dos quais insolúveis, a começar pela Santíssima Trindade? Os mais antigos registros dão conta de que a Humanidade sempre teve a preocupação de designar e quantificar o mundo em que vive com uma obsessão por alguns números: o fascínio do três, a magia do sete, o infinito do oito e o surgimento tardio do zero, que levou muitos séculos para chegar da Índia ao Ocidente, eis alguns números referenciais. Sem contar aquele dois que a professora desenhava no quadro para que dele o aluno fizesse um pato, como ocorreu à minha geração.

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Os homens sempre deram um ar mágico às contas, como fazem os governos nos orçamentos, talvez inspirados pela matemática, que fala em quadrado mágico, e, quem sabe, também em Roberto Carlos e em Chico Buarque, algozes dos biógrafos. Roberto garante que “dois e dois são cinco”. Chico assegura que “ele era mil/ tu és nenhum”. E nossa mãe sempre reiterou: “já te disse mil vezes que não pode”.

Voltemos, porém, ao três, que está na Santíssima Trindade, em terra, mar e ar, nos três lados do triângulo e, por falar nisso, em diversas relações amorosas refletidas na novela das oito, que é apresentada depois das nove, aliás, um múltiplo de três.

O número três, repleto de símbolos e magias, foi um avanço considerável na arte de contar. Até o surgimento do três, a Humanidade só expressava o singular, o par e o plural, sem esmiuçá-los.

E também não abstraía nada, ainda quando os conjuntos tivessem mais do que o par. Assim, as quatro patas de um animal, os cinco dedos da mão, os dez dedos que as duas formam, os vinte dedos do corpo humano, contados no total, todos esses conjuntos só valiam para o que designavam: as patas e os dedos.

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O conceito não migrava dali para designar dez pássaros, vinte peixes, cinco porcos-do-mato etc. Três veio do latim tres, de uma raiz indo-europea que forneceu o mesmo étimo para numerosas outras línguas, de que são exemplos tres, em espanhol; tre, em Italiano; trois, em Francês; three, em Inglês; drei, em Alemão.

A etimologia do três esclarece complexas sutilezas desses números em todas as línguas e ajuda-nos a entender o conceito que está na base dessa evolução, que começou com o um, o par e o plural, e, a partir do três, chegou ao googol, nome que o matemático Edward Kasner deu, em 1938, ao maior número que ele inventou, acolhendo sugestão de seu sobrinho Milton Sirotta, então um menino de oito anos.

O pessoal do Google, o mais conhecido sistema de buscas na internet, inspirou-se nesse número para criar a empresa. Mas o número três vai mais além e está no Francês très, designando intensidade máxima: très riche, para o ricaço; très mauvais, para o muito mau. Este très francês quer dizer muito, mas na origem muito era apenas uma quantia superior a dois…

Ligada ao três está também a raiz latina trans, muito presente em palavras do Português: trânsito, transação, transexual, transgredir, transgênico, transmissor, tresler etc. O Francês troupeau (tropa, rebanho) também tem a mesma raiz etimológica do três, como é também o caso do Italiano troppo (excessivo).

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Rezam os Evangelhos que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, em complicada operação que me deu muita dor de cabeça nas aulas do Catecismo da Doutrina Cristã.

Afinal, se o Mestre morreu na sexta, foi sepultado naquele entardecer e ressuscitou no Sábado de Aleluia, como é que esta conta dá três dias?

Esta é, porém, uma questão bem menos complicada do que a do déficit orçamentário de 2019. Quem ressuscitar das urnas em outubro verá ainda este ano, bem antes de tomar posse.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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