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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Sylvio do Amaral Rocha Filho: ‘O Brasil tem de se levar a sério. Candidato que não cumpre o prometido deve perder o mandato’

SYLVIO DO AMARAL ROCHA FILHO Político em campanha fala o que acha compatível com aquela audiência naquela hora, promete o que agrada a maioria naquele instante. Depois de instalado no posto ao qual chegou graças ao apoio de quem acreditou no que ouviu, esquece nos palanques ortodoxos ou eletrônicos o que disse durante a campanha […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 02h42 - Publicado em 4 nov 2014, 18h12

SYLVIO DO AMARAL ROCHA FILHO

Político em campanha fala o que acha compatível com aquela audiência naquela hora, promete o que agrada a maioria naquele instante. Depois de instalado no posto ao qual chegou graças ao apoio de quem acreditou no que ouviu, esquece nos palanques ortodoxos ou eletrônicos o que disse durante a campanha , concentra-se nos próprios interesses e vai cuidar da sua vida ao sabor dos acasos momentâneos, sempre com a barriga no balcão.

A capacidade de fazer promessas se liga à capacidade de se lembrar do que se prometeu.  O processo civilizatório se funda também na impossibilidade da promessa seguida de esquecimento.

Prometer e não cumprir — ou, pior, prometer e fazer o contrário depois de eleito — é puro estelionato eleitoral! É um tipo de delito que não pode ficar impune. Para tanto, proponho sua inclusão entre os crimes que, segundo a Constituição, expõem seus autores a alguma forma de revogação do mandato. Há mais de uma fórmula para a aplicação do castigo, que pode ser consumado pela Justiça ou pelos próprios eleitores.

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Essa alteração no texto constitucional produziria efeitos instantâneos e pedagógicos sobre incontáveis estelionatários que plantam ilusões para colher votos. Se toda promessa tivesse de ser cumprida no prazo de um ano a contar da posse, por exemplo, políticos em campanha deixariam de prometer para agradar e não para cumprir. Logo aprenderiam que prometer é estabelecer uma relação contratual com o eleitorado. A palavra empenhada configura contrato verbal que, como o escrito, não pode ser descumprido. A ruptura da palavra empenhada é má e hostiliza a vida.

Quem esquece o prometido sem que o cenário se tenha alterado age de má fé; é essencial que toda atividade humana seja permeada pela boa fé. Como embarcar num avião sem acreditar que o piloto que lá está para conduzir o voo tem condições de fazê-lo e, assim, levar em segurança todos os passageiros até o destino final? Como entrar num restaurante suspeitando que cozinheiro pode envenenar os pratos?

Há muitos séculos a palavra empenhada se transformou num valor civilizatório. Promessa é contrato, insista-se. A ninguém é permitido voltar sobre seus próprios passos. Não se pode trair a confiança de quem acreditou no que foi contratado. Todo homem está obrigado a honrar as expectativas que criou. E os candidatos precisam ser proibidos de prometer o que não cumprirão.

A paisagem eleitoral brasileira se tornará bem menos cinzenta quando a Constituição tratar essa modalidade de estelionato com o merecido rigor. Puna-se o político que se voltar contra seus próprios passos!

Já é tempo de o Brasil se levar a sério.

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