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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Sarney sobrevive ao ataque de jornalistas armados de microfones e circula por Nova York a bordo de uma limusine branca

Publicado em 22 de dezembro de 2009 Às sete e meia da madrugada, sentado numa poltrona no saguão do Palácio da Alvorada, aguardo a inauguração de outro café-da-manhã lutando contra o sono. O presidente da República se aproxima furtivamente pela retaguarda e levo um susto com o bom-dia, que me chega deformado pela dicção de quem acabou de fazer uma escala no dentista ou […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 03h31 - Publicado em 10 jul 2014, 20h58

Publicado em 22 de dezembro de 2009

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Às sete e meia da madrugada, sentado numa poltrona no saguão do Palácio da Alvorada, aguardo a inauguração de outro café-da-manhã lutando contra o sono. O presidente da República se aproxima furtivamente pela retaguarda e levo um susto com o bom-dia, que me chega deformado pela dicção de quem acabou de fazer uma escala no dentista ou tem hora marcada com o fonoaudiólogo. Algum problema com a voz?, pergunto depois do cumprimento.

─ Levei uma microfonada de um colega teu ─ informa José Sarney, apontando com o indicador o lado direito do lábio inferior.

A coloração do sangue coagulado avisa que a colisão frontal entre a boca e o microfone ocorrera havia poucas horas. Não mais que um dia, calculo. A aparência do ferimento acrescenta que fora de bom tamanho: mais um pouco e dentes presidenciais seriam removidos sem anestesia. Ele conta que o desastre se consumara durante uma genuína entrevista coletiva à brasileira.

Embora se tenha tornado menos frequente, a cena inverossímil continua a repetir-se. No meio de jornalistas armados de microfones, decididos a mostrar à nação a logomarca da emissora e apoiados pela cavalaria de câmeras, o alvo da infantaria da imprensa tem de estar preparado para falar sobre qualquer tema ou personagem. A maioria dos entrevistadores faz perguntas sobre tudo, especialmente sobre assuntos sobre os quais não sabe rigorosamente nada.

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O entrevistado não diz nada sobre tudo, sempre com o rosto imóvel, para escapar dos objetos cortantes ou contundentes que flutuam em torno da cabeça sitiada. Veterano de combates do gênero, o presidente eleito pelos micróbios do Hospital de Base de Brasília jura que obedeceu às instruções do manual de sobrevivência no Planalto Central. Acha que foi vítima de algum novato atormentado pela suspeita de que a logomarca da empresa estava fora do ângulo das câmeras.

É o Brasil, espanto-me de  novo. No resto do mundo, atentados contra a vida de chefes de governo exigem bastante imaginação, requintes de audácia e muito planejamento. Aqui, bastaria a um aprendiz de terrorista fantasiar-se de repórter e embutir no microfone um revólver calibre 38 para virar verbete de almanaque: pela primeira vez na História, alguém terá assassinado um presidente da República com um tiro no céu da boca.

Em nações civilizadas, imagens de um presidente engolfado por atacantes brandindo microfones resultariam na demissão dos responsáveis pelo esquema de segurança ou na interdição, por irresponsabilidade, do entrevistado. Nos trêfegos trópicos, o pai-da-pátria e os jornalistas não discutem a relação sequer depois de ferimentos na boca. Tom Jobim tinha razão: o Brasil não é para amadores.

Nem para profissionais estrangeiros, souberam os jornalistas americanos já em 1985, quando Sarney baixou em Nova York para o discurso de abertura da assembléia-geral da Organização das Nações Unidas e reencenou na porta da sede da entidade o  espetáculo da entrevista coletiva. Passaram da perplexidade ao assombro no segundo ato, protagonizado na tribuna pelo artista que sobrevivera ao perigo na porta do prédio.

O plenário estava quase deserto, mas a comitiva brasileira lotou a fila do garjarejo. Excitado pelos gestos de aprovação dos compatriotas, eloquente como palanqueiro de vilarejo, Sarney resolveu apresentar ao mundo, no meio do falatório, o poeta maranhense Bandeira Tribuzzi. Intrigados com os versos que o chefe declamava, os compatriotas  quiseram saber quem era o bardo. Um amigo de juventude do imortal José Sarney, alguém murmurou.

Impressionada com o currículo, a plateia aplaudiu. O deputado Milton Reis, do PMDB mineiro, achou pouco. E saudou o orador com o berro que animava os comícios de antigamente: “Apoiado!” Ninguém me contou. Eu estava lá. Nenhum intérprete soube traduzir o grito para outros idiomas. Nenhum estrangeiro entendeu. Só os brasileiros.

Sarney desceu da tribuna transpirando felicidade. No dia seguinte, o morubixaba maranhense resolveu festejar a própria performance passeando por Nova York de limusine branca. Foi a primeira vez que os novaiorquinos viram passar uma limusine assim — muito apreciada por casais do interiorzão do Michigan em lua-de-mel na cidade grande — com um presidente da República a bordo.

Presidente do Brasil, naturalmente.

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