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Roberto Pompeu de Toledo: Machadianas

O país real revela os melhores instintos; mas o país oficial é caricato e burlesco

Publicado na edição impressa de VEJA

A Constituição dizia que, ocorrendo vaga na Presidência nos dois primeiros anos do mandato, seriam realizadas novas eleições. Mas, por ocasião da renúncia do marechal Deodoro da Fonseca, em novembro de 1891, antes de transcorridos os tais dois anos, o vice-presidente Floriano Peixoto aboletou-se no poder e lá ficou. Foi golpe? Não foi golpe? Os florianistas alegavam que, tendo sido a chapa Deodoro-Floriano eleita para um “governo provisório”, o mandamento constitucional não lhe dizia respeito, e sim a governos subsequentes. Os ânimos estavam tensos. E mais ficariam nos anos seguintes, com a Revolta da Armada, a desencadear em plena Baía de Guanabara uma troca de canhonaços entre navios e fortes, e a chamada Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Machado de Assis, sempre ele, encontrou o jeito exato de descrever o reflexo da situação nas relações pessoais:

“Graças às culturas sucessivas, podemos hoje chamar de bandido a um adversário e, às vezes, a um velho amigo, com quem tenhamos alguma pequena desinteligência. Está assentado que bandido é um divergente. Corja de bandidos é um grupo de pessoas que entende diversamente de outra um artigo da Constituição. Quando os bandidos são também infames, é que venceram as eleições, ou legalmente ou aproximativamente”. (Crônica de 9/12/1894)

Em novembro de 1864, a “questão Kelly” agitava a imprensa carioca. Um doutor Kelly fora hostilizado em Niterói por vender bíblias protestantes. O jornal católico O Cruzeiro, lembrando que a Constituição consagrava o catolicismo como religião oficial, pediu ao governo providências contra o doutor Kelly. Mas a Constituição também garantia a liberdade religiosa, lembrou Machado, “e não há liberdade religiosa sem proselitismo”. Prosseguiu:

“No dia em que se tiver saído da tolerância para a liberdade, teremos dado o último passo neste sentido. Que os leitores me permitam a figura – a tolerância assemelha-se a uma gaiola de papagaio, aberta por todos os lados, sem aparência mesmo de gaiola, mas onde a ave fica presa por uma corrente que lhe vem do pé ao poleiro. Quebre-se a corrente, de uma vez por todas, e -se liberdade ao pobre animal!”. (Crônica de 22/11/1864)

Em meados dos anos 1860, a invasão do México pelas tropas francesas e a entronização do governo títere do imperador Maximiliano causavam polêmica no Brasil. Machado criticou o deputado sergipano Lopes Neto, que teria elogiado a ação francesa em discurso na Câmara. O deputado foi criticado em seguida também por seus pares, e respondeu que não, deforma alguma o tinha feito. Machado foi aos autos e verificou que, sem dúvida, o sergipano tinha, sim, elogiado a invasão francesa. Prosseguiu:

“Há, porém, na ordem política, umas tais retortas e alambiques onde se apuram as palavras e as ideias, de tal modo que as tornam inteiramente diversas daquilo que significam na ordem comum”. (Crônica de 10/7/1864)

Em 1861, Machado investe contra um decreto sobre concessão de congratulações que julga “abusivo e ridículo”. Chama o ministro responsável pelo decreto, José Ildefonso de Sousa Ramos, de medíocre e vulgar. Termina por extrair do episódio um retrato do Brasil:

“O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política, nada temos a invejar no reino de Lilipute”. (Crônica de 29/12/1861)

Em março de 1867, com 27 anos, Machado, sempre tão reservado, permite-se a ousadia de um autorretrato. Começa por afirmar que, “se a velhice quer dizer cabelos brancos, e a mocidade quer dizer ilusões frescas, não sou moço nem velho”. Diz ser uma exceção entre os homens que passam a primeira metade da vida desejando a segunda e a segunda a ter saudade da primeira. Conclui:

“Quanto às minhas opiniões políticas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a República de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião; e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou”. (Crônica de 5/3/1867)

Comentários
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  1. Comentado por:

    PÉRICLES

    Sempre é ótimo,e necessário para o Brasil atual,relembrar Machado de Assis!

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  2. Comentado por:

    “podemos hoje chamar de bandido a um adversário”

    Quando eu era menino Caio P. T. de A. M., me ensinou que qualquer um pode chamar qualquer coisa do que quiser. Mas o diabo é que bandido é bandido, mesmo se alguns o chamarem de estadista. E quem muda o significado das palavras é safado.

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  3. Comentado por:

    Pedro

    Quando Lula For Questionado, Sobre A Bagatela De R$ 8 Milhões
    Disponível Em Sua Conta Bancária, Burlescamente Dirá Que Deve Ser
    Obra, De Algum Bancário Distraído, Que Creditou Sua Conta Por Engano…
    E Lula Só Se Deu Conta Do Equívoco, Quando Fez Um Empréstimo De R$ 100,00
    Para Comprar Mortadela, Rapadura E Jerimum…

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  4. Comentado por:

    silva

    O pessoal está espontaneamente se organizando para ir para as ruas no feriado de terça-feira, horários e lugares de sempre, para apoiar Sérgio Moro e as dez medidas em face da cúpula de partidos aliados no Congresso. Não vamos deixar Moro e a República de Curitiba sozinhos nessa!

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  5. Comentado por:

    sandra

    https://veja.abril.com.br/politica/enterrando-a-lava-jato-o-congresso-contra-ataca/
    Vamos deixar Sérgio Moro sozinho nessa?
    Dia da proclamação da República, rua.

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  6. Comentado por:

    Rey Cintra

    A república dos incautos, populistas e corruptos…

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  7. Comentado por:

    criatura nojenta

    a república do mais insolente aristocrata sindical que o sol,por testemunha,alumiou,e a mais insolente ainda aristocrata guerrilheira que o sol,contra a vontade,alumiou!

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  8. Comentado por:

    Paulão

    Prezado Augusto,
    Obrigado por reproduzir essa crônica do Pompeu de Toledo e, especialmente, pelas palavras do grande brasileiro JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS.
    Ele demonstrou ser um inteligentíssimo analista político, e fazer jus ao epíteto de “Bruxo do Cosme Velho”, ao afirmar, em 1867, o que representaria a República no Brasil, desde a sua proclamação até os dias atuais.
    Se os brasileiros de hoje tivessem um pingo de noção histórica, o dia 15 de novembro deveria ser considerado DIA DE LUTO NACIONAL,

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  9. Comentado por:

    covarde sei que me podem chamar

    atualíssimo o machado afiado do bruxo do cosme velho!como diriam os cariocas:hiper mais que demais!

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  10. Comentado por:

    Tiago Cortez

    Machado, o gênio.

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