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Quem são os manifestantes que pedem o fim da corrupção

Fernanda Nascimento e Aiuri Rebello “Não é mole não, eu trabalho para pagar o mensalão”. Foi com frases como essa, os rostos pintados de verde e amarelo, empunhando bandeiras do Brasil e cartazes que manifestantes foram às ruas para exigir, neste feriado de 7 de setembro, o fim da corrupção e da impunidade em meio […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 10h50 - Publicado em 8 set 2011, 15h55

Fernanda Nascimento e Aiuri Rebello

“Não é mole não, eu trabalho para pagar o mensalão”. Foi com frases como essa, os rostos pintados de verde e amarelo, empunhando bandeiras do Brasil e cartazes que manifestantes foram às ruas para exigir, neste feriado de 7 de setembro, o fim da corrupção e da impunidade em meio à enxurrada de escândalos envolvendo o governo Dilma Rousseff. Em São Paulo, um dos protestos ocorreu na Avenida Paulista e reuniu cerca de 4 mil pessoas segundo estimativa da Polícia Militar. O ato foi parte de uma mobilização que surgiu na internet, ganhou força pelas redes sociais e chegou a pelo menos trinta cidades do Brasil.

No vão livre do Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), o protesto suprapartidário reuniu jovens, famílias e idosos diante do prédio do Masp. Estudantes eram maioria entre os manifestantes, mas não houve nem sinal da União Nacional dos Estudantes (UNE). Sem uma liderança organizada, pelo menos três grupos promoveram o evento no Facebook e se uniram no movimento batizado de “Unidos contra a corrupção”.

Uma máscara do personagem V, do filme V de Vingança, identificava os Anonymous, grupo formado na internet que protestou ao lado dos estudantes do “Dia do Basta” e dos participantes do NASRUAS. “A única bandeira comum entre todos os participantes é o combate à corrupção. É tudo muito heterogêneo e caótico, tem gente de todos os tipos aqui”, diz um dos organizadores do Anonymous, que não se identificam em entrevistas.

Pela manhã, outro grupo se reuniu na avenida Paulista para um protesto que seguiu pela calçada com pelo menos 500 pessoas. A mobilização organizada pelo grupo Caras Pintadas saiu do Masp por volta das 10 horas e marchou por cerca de dois quilômetros carregando bexigas brancas e cantando o hino nacional. O grupo foi acompanhado por um grupo de quarenta motociclistas, que seguiram os manifestantes buzinando. “Marcamos pela internet e viemos para cá para chamar a atenção”, contou o marceneiro Wilson Martins, que veio de Guarulhos a bordo de sua moto.

No meio da tarde, por volta das 16 horas, uma carreata, com mais de vinte veículos, organizada na Assembleia Legislativa de São Paulo também fez companhia aos manifestantes. A manifestação só se dispersou por volta das 17 horas, depois de percorrer quatro quilômetros.

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A dimensão atingida pelo movimento trouxe lembranças a quem participou de campanhas vitoriosas na história do país. “Isso é um começo”, afirmou o aposentado Luis Vergueiro, de 67 anos. “Participei de todos os protestos contra a ditadura e estava lá gritando nas Diretas Já”. Sua mulher, Lucinda Souza Pinto, sentiu pela primeira vez a emoção em participar de um movimento. “Nessa época eu morava em Minas Gerais, nem sabia das coisas”, diz. “Agora precisamos fazer pelo Brasil todo”, completou.

JOVEM LIDERANÇA
Na linha de frente da manifestação estava o estudante do Ensino Médio Fernando Del Pozzo. De cabelos compridos, vestido com camiseta de uma banda de rock, cinto de couro, botas e um chapéu côco, ele é, aos 17 anos, um dos coordenadores do “Dia do basta” em São Paulo. “O grupo já existia em outras cidades do Brasil”, conta o jovem. “Em julho, organizamos o primeiro protesto sob essa bandeira aqui em São Paulo.” O estudante explica que o movimento é espontâneo e não possui vínculo com nenhum partido político ou sindicato. “A organização é toda feita pelas redes sociais. Qualquer um pode acessar os grupos de discussão e participar”, diz Pozzo.

Apesar da maioria dos participantes ser jovem, havia gente de todas as idades e até famílias inteiras. O engenheiro Marco Aurélio de Lima, de 51 anos, fez questão de aparecer na concentração no vão livre do MASP, junto com a mulher, a filha de cinco anos e outros quatro familiares. “Não adianta ficar reclamando em casa e não fazer nada. Está na hora do povo ir para a rua”, afirmou. Também levou todos os amigos a advogada Cidinha Marcondes, que viajou mais de 200 quilômetros para participar da passeata. “Viemos protestar por Analândia (no interior de São Paulo), que sofre com a corrupção”, conta. “Fretamos uma van e viemos em catorze pessoas, com muitas faixas”.

Nenhuma bandeira de partido político foi tolerada. Ainda na concentração da passeata da tarde, por volta das 13 horas, integrantes da Juventude do PSDB chegaram para participar da manifestação com uma enorme faixa do partido. Debaixo de uma retumbante vaia, os jovens foram obrigados por alguns organizadores a recolher a faixa. “Não é porque é do PSDB. Qualquer bandeira de partido não é aceita, é um movimento espontâneo da sociedade civil. Mais cedo tentaram levantar uma bandeira do PSTU e também não deixamos”, diz um dos integrantes do Anonymous. No meio da marcha, por volta das 16 horas, bandeiras do PT foram queimadas em protesto contra o partido por um pequeno grupo.

PELO BRASIL
Em Brasília, onde a presidente Dilma Rousseff participou dos festejos de Sete de Setembro, cerca de 25 000 pessoas se reuniram para um protesto próximo ao local do desfile militar oficial. Os manifestantes chegaram a lavar a rampa do Congresso Nacional. A segurança da Presidência tomou providências para que Dilma não visse nem ouvisse a manifestação.

A corrupção tem ocupado a agenda política desde o início do governo Dilma Rousseff. Três ministros já caíram por desvios éticos. No Congresso, a situação não é melhor: mesmo flagrada recebendo dinheiro sujo, a deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF) escapou da cassação graças à conivência dos colegas.

NÃO ACABOU
O sucesso dos protestos em São Paulo foi tamanho que outra mobilização contra a corrupção já está sendo organizada para o feriado do dia 12 de outubro. Um dos manifestantes à frente do grupo que saiu do Masp pela manhã, Felipe Mello, diz que a mobilização das pessoas pela internet está só começando. “Vou fazer minha parte para isso continuar”, afirma. No próximo protesto, o objetivo é unificar os movimentos. “Desta vez vamos tentar nos organizar para os protestos ocorrerem na mesma hora e juntar mais gente”, afirmou Fernando Pozzo, do Dia do Basta.

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