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Outro mundo

Kolinda e Dilma? A desvantagem fica feia, mesmo, quando se entra nas comparações de caráter, integridade e postura como servidora pública de cada uma delas

J.R. Guzzo (publicado na edição impressa de VEJA

Os últimos dias da Copa do Mundo levaram o mundo inteiro a descobrir a figura política mais interessante que já apareceu no noticiário há muitos e muitos anos. É essa graça de presidente da Croácia, um espetáculo de simpatia, bom humor e exuberância em estado puro que tem o nome muito feliz de Kolinda  e veio torcer pela equipe do seu país nos jogos da semi-final e final do torneio. Até que enfim. Numa paisagem rudemente castigada, até onde a memória alcança, pelas Merkel, as Kirchner ou as Thatcher, somos premiados de repente com a visão de uma tremenda bonitona de 50 anos, uma louraça fervendo de alegria e de charme na tribuna de honra, vestida com a camiseta quadriculada em vermelho e branco do seu time. Ali, dançando na torcida, lembrou a todos nós que ainda é possível haver na chefia de um governo alguém que seja, ao mesmo tempo, uma mulher e um ser humano atraente. Para os brasileiros, então, Kolinda Grabar Kitarovic foi uma festa. É claro. A nós coube, em matéria de mulher-presidente, nada menos que Dilma Rousseff  esse fenômeno de antipatia, mau humor e cara feia diante da vida, dada a falar o tempo todo coisas incompreensíveis, ditas com impaciência e um permanente ar de ameaça, sempre irritada, sempre infeliz. Kolinda e Dilma? Nada a ver.

Mas a diferença entre a sorte dos croatas e a dos brasileiros vai muito além. A desvantagem fica feia, mesmo, quando se entra nas comparações de caráter, integridade e postura como servidora pública de cada uma delas. Kolinda foi para a copa da Rússia pagando todas as despesas do seu próprio bolso. Viajou junto com a torcida, num voo de baixo custo e num assento comum. Mandou que fossem descontados do seu salário os dias em que esteve fora do seu local de trabalho. Desceu aos vestiários, depois dos jogos, para se misturar com os jogadores  festejando junto a eles a semifinal, consolando a todos na derrota para a França na final. Chega assim? Da soma entre Dilma, presidência e futebol o que sobrou, na vida real, é a imagem de uma mulher aterrorizada na final da Copa do Mundo de 2014, em pleno Maracanã  a presidente simplesmente se escondia da torcida, em seu próprio país, com medo das vaias. (Seu criador, o ex-presidente Lula, que passou anos a fio se vangloriando de ser o grande responsável por “trazer a Copa” para o Brasil, não teve coragem de ir à uma única partida durante todo o torneio.) Quanto à soma entre Dilma, presidência e aviões, a comparação com Kolinda é outro desastre. Nossa ex-presidente torrou sabe-se lá quantos milhões de dólares viajando num ritmo alucinado para baixo e para cima por este mundo afora, no jato da Presidência da República, com cada tostão pago integralmente por você. Chegou a desviar a rota do avião oficial numa viagem de volta ao Brasil, porque queria jantar em Lisboa e passar uma noite no Hotel Ritz, onde as diárias podem superar os 25.000 reais. Quer dizer: há simplesmente um abismo entre uma mulher e outra.

Não se trata de má vontade, nem de probleminhas secundários. O que existe realmente aí, quando se quer dizer as coisas como elas são, e não empulhar o público com cantoria ideológica de terceira classe, é a diferença entre duas maneiras de ver o papel da pessoa pública. Uma é honesta  na verdade, é exatamente aquela que o público tem o direito de esperar. A outra é desonesta. Fim de conversa. O estilo Dilma, e de praticamente todos os senhores de engenho que de uma forma ou de outra mandam no Brasil, mostra com muita clareza uma doença clássica do subdesenvolvimento: o descaso arrogante, audacioso e automático que todos eles têm pelo dinheiro público.

Presidentes da República, em especial, são uma prova viva desta deformação administrativa e moral. Conseguiram, ao longo do tempo, construir em volta de si um monstro chamado “presidência da República”  hoje com cerca de 20.000 funcionários, aviões, cartões de crédito e um custo anual de 650 milhões de reais, ou mais do que a Casa Real Britânica. Continuam gastando mesmo depois que deixam de ser presidentes  os cinco que estão vivos consomem entre 5 e 6 milhões de reais por ano em pensões, carros, assessores, o diabo. Quando vão para a cadeia, como acontece hoje com Lula, ficam ainda mais caros, pois é preciso pagar a sua manutenção no xadrez; uns 300.000 reais por mês, no caso do ex-presidente. Lá, por decisão da Justiça, ele mantém todos os seus benefícios  o que gera o prodígio de estar preso e, ao mesmo tempo, ter dois carros com chofer à sua disposição.

Isto aqui é outro mundo.

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  1. Valentina De Botas

    Excelente.

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  2. Dalton Bittencourt Ferreira

    A cada dia, a vontade que aumenta eh de sumir daqui.

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  3. Paulo Bandarra

    A diferença está no povo. Onde iríamos achar uma Kolinda no país?

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  4. Paulo Bandarra

    Na família do Temer ou do Gilmar Mendes?

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  5. Sonia Fausta Tavares Monteiro

    A Croácia, como outros países daquele lado da Europa, é um país que já passou por guerras, invasões e divisões, o que muito sofrimento causou ao seu povo! É , portanto, depois de tantos problemas, um país pequeno, em termos de dimensões territoriais, Parece que os povos que passaram por tantas tragédias, aprendem a ser unidos e solidários, colocando a pátria sempre em primeiro lugar em suas vidas! Jamais pensam em roubá-la e de tudo fazem para preservar a imagem do que sobrou do seu agora pequeno país! Kolinda é digna representante de um país assim, e, ainda por cima, simples, simpática e bonita. Como dizia Vinícius de Moraes , beleza é fundamental! Talvez não tão fundamental quanto afirmava o poeta, mas que ajuda, não restam dúvidas que sim! O melhor de tudo é que Kolinda é bem mais do que isso, e por esse motivo, foi eleita presidente do seu país, o que muito deve honrá-la! Compará-la com Dilma Rousseff, acho impossível; como também comparar a Croácia com o Brasil, mais impossível ainda! Mas… quem sabe um dia não seremos uma Croácia tamanho GG?

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