Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Os oposicionistas dispostos a engolir o prontuário de Renan merecem ganhar a carteirinha de sócio do clube dos cafajestes que controla a Casa do Espanto

Em fevereiro de 2011, depois de uma semana de investigações, os repórteres Bruno Abbud e Branca Nunes conseguiram identificar só oito dos 11 senadores que votaram contra a permanência de José Sarney na presidência da Casa do Espanto. Três, sabe Deus por quê, jamais assumiram publicamente a opção pela decência. Se tornou incompleta a reportagem […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 07h02 - Publicado em 19 jan 2013, 00h35

Em fevereiro de 2011, depois de uma semana de investigações, os repórteres Bruno Abbud e Branca Nunes conseguiram identificar só oito dos 11 senadores que votaram contra a permanência de José Sarney na presidência da Casa do Espanto. Três, sabe Deus por quê, jamais assumiram publicamente a opção pela decência. Se tornou incompleta a reportagem agora republicada na seção O País quer Sabertal esquisitice ─ uma entra tantas ─ permitiu que se produzisse um retrato perturbador da bancada oposicionista no Senado. É o tipo de oposição com que sonham todos os governos.

Na sessão que elegeu Sarney, os quatro partidos da oposição oficial foram representados por 18 senadores. Quatro ─ dois do PSOL e dois do PSDB ─ completaram o grupo que se negou a reverenciar Madre Superiora. Como votaram os 14 restantes? Alguns confessaram o crime, um alegou que o voto é secreto, outros se refugiaram  falatórios ininteligíveis. Para justificar o injustificável, todos evocaram a necessidade de respeitar o que chamam de “tradições da Casa”. Como não aparecem em nenhum código, manual, regulamento ou coisa parecida, não existem oficialmente. São normas não escritas que não têm força de lei. Como as vacinas, podem pegar ou não.

Uma das “tradições da Casa” recomenda que a formação da Mesa Diretora se baseie no critério da proporcionalidade, que confere à maior bancada partidária o direito de indicar o candidato à presidência. Nenhum senador é obrigado a votar no indicado. Se a escolha atropelar normas éticas e morais, se agredir o bom senso, se não atender às expectativas dos eleitores, a maioria está à vontade para mandar às favas o critério da proporcionalidade e eleger qualquer um. O dono da capitania hereditária do Maranhão livrou-se desse risco no momento em que o PSDB, o DEM e o PPS se dispuseram a engolir sem engasgos um símbolo do Brasil primitivo.

Passados dois anos, a oposição oficial ameaça reprisar o tapa na cara dos milhões de brasileiros agrupados na resistência democrática: de novo invocando o critério da proporcionalidade, o PSDB está pronto para encampar a candidatura de Renan Calheiros, orgulho do PMDB alagoano e líder da bancada do cangaço. Ao ajoelhar-se diante de Sarney, os oposicionistas que não se opõem mostraram que haviam perdido a vergonha. Caso se curve a Renan, a oposição oficial deixará claro que perdeu também o juízo, o instinto de sobrevivência e a última chance de conectar-se com a imensidão de brasileiros honestos decididos a encerrar a era lulopetista.

Sem chances de vitória, os eleitos pela oposição real terão de escolher entre a capitulação ultrajante e o combate desigual que engrandece o vencido. Os que engolirem o prontuário de Renan ganharão uma carteirinha de sócio do clube dos cafajestes que controla o Senado. Daqui a alguns anos, estarão todos amontoados num asterisco do capítulo brasileiro da história universal da infâmia.

Continua após a publicidade
Publicidade