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Onda conservadora

Que o nado seja livre e o naufrágio de um pensamento rançoso seja completo sem resgate possível

Valentina de Botas

“Qual a diferença entre esses peixinhos e os do aquário de casa, mamãe?”. Na curta viagem de barco, enquanto eu ganhava tempo fazendo cara de ué para responder à minha filha de 4 anos, pensei no Santiago do belíssimo O velho e o mar, do Hemingway, não sei por quê. O último romance do escritor publicado em vida é centrado na história de um velho pescador cubano. Depois de 3 meses sem conseguir pescar nada, ele fisga um marlim colossal de quase 700 quilos. Ao fim de uma batalha de horas, Santiago consegue prendê-lo ao barco e volta para a costa cubana. Chegando a terra firme, constata que o peixe fora devorado no trajeto, sobrando apenas a carcaça. É rica a simbologia das interpretações e análises da história, desde o processo de criação literária até como metáfora da vida. Hemingway rejeitava todas as interpretações alegóricas. O mar é o mar. O velho é um velho. Todo simbolismo do qual as pessoas falam é besteira, afirmou numa carta a Bernard Berenson, crítico literário. Quando eu finalmente elaborara (quem ainda usa a forma sintética do pretérito-mais-que-perfeito?) a insossa resposta de que peixe era tudo igual, minha filha se adiantou e reordenou a realidade: os do mar têm mais mundo, mamãe.

Que a “perigosa onda conservadora” da ministra Cármem Lúcia, de cujas frases de autoajuda de balcão de papelaria jamais gostei, inunde o Brasil! Rompa os diques populistas de direita e de esquerda! Jogue contra os rochedos a ladainha autoritária que impõe só um estilo para nadar! Que o nado seja livre e o naufrágio de um pensamento rançoso seja completo sem resgate possível! Livrem-se dos coletes salva-vidas, brasileiros fartos do aquário, não procurem terra firme na discurseira alarmista, pois só se afogará quem enxergar fascistas ao meio-dia ou confundir conservadorismo com delação nas escolas ─ atitude tão perversa quanto a pregação ideológica aos nossos estudantes adoentados de materialismo niilista (que os levará à gravidez indesejada porém inevitável de Deleuze e Foucault), combinação que nos tem feito mergulhar nas consequências sem lembrar causas importantes: o professor é, antes de doutrinador, um doutrinado sem eira nem beira numa escola sem giz, papel higiênico e ensino. Me refiro à escola pública, mas doutrinação ─ como exercício intelectual que é ─, em qualquer ambiente escolar ou acadêmico, se combate com argumento, patrulhar o professor é coisa de quem se transforma no que quer combater. A única terra firme são as instituições, homens e mulheres falantes ou não daquele dialeto do inacreditável Enem passam.

Sério que você, gay, pobre, preto, índio, escarola, mulher, está com medo? Também estava preocupada há até alguns meses, não pela onda conservadora, e sim pelo reacionarismo que se vê na sua crista. Por um lado, ele é normal numa transição e pode ser combatido. Além disso, ouvindo marinheiros experientes e especialmente certo almirante que tornou seus tantos mares e me mostrou como o que se tem aí é uma versão intelectualmente banguela do integralismo de Plínio Salgado, tenho a expectativa de que a onda terá como diques nas nossas instituições democráticas. Por outro lado, o que o tsunami que se ergueu e nos devastou entre 2003 e 2016 deu a vocês, ditas minorias, além de um enxerto panfletário de bandeiras identitárias na sua consciência de indivíduo fazendo desta uma extensão daquelas, enquanto os donos dos guetos ideológicos a que vocês foram confinadas ganhavam cargos e verbas para garantir seus votos ao senhor dos mares de lama, aquele Poseidon degenerado, de egolatria mergulhada no uísque? Sim, ele tirou 36 milhões de pobres da pobreza. Pena que os colocou num país sem educação, sem saúde, sem segurança, sem emprego ─ sem país.

Molhe os pés devagar, ninguém tem o direito de forçá-lo a nada. Está boa a temperatura da água? Não? Sem problemas, fazemos ajustes porque conservadores democratas (tipo com o qual se pode navegar o marzão besta) conversam, acomodam diferenças e abrigam minorias sob a proteção da maioria ─ é civilização que chama ─, que não vê sentido em priorizar o banheiro transgênero enquanto 51% dos domicílios não têm nem privada; ou tratar de dialeto gay ou nagô antes de, vejamos, resgatar a forma sintética do pretérito-mais-que-perfeito do português falado no Brasil também por quem fala dialetos. Pronto? Vá devagar, conhecendo nosso ambiente liberal, que não libera geral porque a coisa é limitada pela lei ─ bússola e âncora do conservador. Vá liberar geral, depois de ser capaz ao menos pagar seus próprios boletos, da porta do seu quarto para dentro, conservador verdadeiro nenhum se mete na sua vida íntima, não assalta sua individualidade. Isso é coisa de reacionário, mas também dos libertários-revolucionários-de-panfleto que arrastam os próprios grilhões atados ao bolso de quem produz e à metafísica do oprimido inventado para que ela ─ essa metafísica patife que gruda na pele e no cabelo; mete-se embaixo das unhas; irrita as mucosas; alcança os ossos; confunde o juízo; ampla como a farsa que a consubstancia ─ justificasse a roubalheira do também inventado libertador que hoje está na cadeia contemplando seu marlim devorado.

Talvez essa imagem seja injusta, pois Lula não alcança a dimensão de um Santiago. Então, não sei o que fazer com a história do velho pescador neste texto, mas ela é um dos mais sublimes registros de derrota e solidão, por isso vou mantê-la. Bem, já que a misturei com Lula e petismo, penso que a luta para capturar o marlim e prendê-lo ao barco foi do Brasil que deu ao ex-presidente e à pornográfica corte lulopetista mais do que mereceriam em sucessivas encarnações e que esse marlim arrancado do nosso lombo e do nosso futuro foi devorado pela própria ética petista – equação impossível com a parte ética sendo petista e a parte petista sendo petista mesmo. Voragem que exibe o centro da era nefasta de 14 anos cujos efeitos perduram mesmo cessada a causa: a submissão dos oportunistas a ela, o refúgio dos cretinos nela, a cumplicidade de muitos bem-pensantes com ela, o gozo dos medíocres dentro dela. Disso resultou esse Enem que amputa do ensino o saber, trocando-o por um adestramento ideológico da ignorância premeditada em nossos jovens, mas também disso aí se ergueu a tal onda conservadora. Que venha e leve a desgraça que a trouxe.

Molhou os pés, habituou-se à água? Agora deixe os inventores de fascista-racista que surfaram na onda de lama lulopetista se afogarem no pensamento raso e vem pegar onda conservadora porque, acredite e respire fundo, ela vai pegar você. Então, arrisque sair do aquário, na onda tem mais mundo.

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