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O silêncio que endossa é tão vergonhoso quanto o grito de apoio

O apresentador do sarau na sala da residência carioca de Gilberto Gil, então compondo e cantando no cargo de ministro da Cultura, foi o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto.  “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência”, começou. “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios”. Ligeira pausa e […]

O apresentador do sarau na sala da residência carioca de Gilberto Gil, então compondo e cantando no cargo de ministro da Cultura, foi o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto.  “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência”, começou. “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios”. Ligeira pausa e a ressalva que ilumina o porão: “O que eu acho inaceitável é roubar. Mentir é do jogo político. Não é roubo”.

O convidado de honra sentiu-se em casa. Naquele agosto de 2006, em campanha pela reeleição, Lula era ainda assombrado por reaparições do fantasma do mensalão, que havia mais de um ano vagava pela Praça dos Três Poderes. A fala de Barretão avisou que estava entre amigos. Estava entre comparsas, corrigiu o ator Paulo Betti, encarregado de saudar o presidente em nome dos artistas que se acham intelectuais e dos intelectuais que se acham artistas.

“Não vamos ser hipócritas: política se faz com mãos sujas”, abriu o jogo Paulo Betti. Foi a senha para a estreia do músico Wagner Tiso, sempre o segundo em qualquer parceria, como coadjuvante especializado em comédias de maus costumes. “Não estou preocupado com a ética do PT”, solfejou. “Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”. Tradução da partitura: para o compositor que se esvaía em lágrimas com clubes da esquina ou corações de estudantes, a bandalheira institucionalizada é uma forma de arte política.

Capturados por jornalistas, o argumento, o roteiro e as falas de cada participante do espetáculo do cinismo chegaram aos brasileiros decentes. A reação aconselhou o elenco a agir com cautela. Se possível, sem palavras. A mudança de tática, ocorrida há três anos, explica o sumiço dos artistas e intelectuais neste inverno da infâmia. Os que absolveram ostensivamente os mensaleiros agora absolvem por omissão a bandidagem federal.

Onde anda aquela gente que, antes da Era Lula, vivia de caneta na mão para não perder nenhum abaixo-assinado? O Congresso está sob o comando de uma quadrilha monitorada pelo Executivo. Nada têm a dizer atores e músicos que protestavam contra os maus modos do guarda de trânsito. Um juiz subordinado a José Sarney ressuscita a censura à imprensa. Permanecem calados escritores e catedráticos que se manifestavam até contra a impontualidade do entregador de pizza. Há sete meses são ouvidos os estrondos dos escândalos. Há sete meses nenhum deles dá um pio.

No fim de julho, no meio da guerra suja promovida para manter Sarney longe do cadafalso, a turma perdeu uma boa chance de começar o resgate da honra em frangalhos. Para assinar o projeto que institui o vale-cultura, Lula marcou um encontro com a sucursal paulista dos operários da arte. Coerentemente, a delegação carioca presente à reunião no teatro foi liderada por Luiz Carlos Barreto. O apresentador do sarau na casa de Gil é o produtor do longa-metragem Lula, o filho do Brasil. Mas o chefe não ouviu nenhuma cobrança. Até cobrou mais ação da platéia no meio de outro show.

Com Dilma Rousseff ao lado, Lula definiu-se generosamente como “pouco letrado”. Aplausos. Embora não tenha visto sequer uma vírgula desenhada pelo crítico literário Antônio Candido, risonho na platéia, definiu-o como “o melhor intelectual brasileiro”. Aplausos intensos. E avisou que o projeto só será aprovado sem demora se os parlamentares forem devidamente pressionados. Ovação.

“A aprovação depende de vocês irem lá, porque, se a televisão for contra, não aprova”, ensinou o professor de Congresso. “Portanto, depende de fazer um jogo de forças entre os que acham que é preciso inovar e os que acham que já está bom”. Que tal perguntar a Lula se aquele abraço em Palmeiras dos Índios era mesmo necessário? Por que não aproveitar a viagem a Brasília para um ato de protesto contra a decomposição moral do Senado, o assassinato da ética e a revogação do Código Penal? Essas coisas podem esperar, respondeu a mudez coletiva.

Não há diferenças relevantes entre o sarau no Rio e o encontro em São Paulo. Os que contemplam calados o avanço dos fora-da-lei são tão velhacos quanto os que absolveram ostensivamente o bando do mensalão. A cumplicidade ativa não é mais grave que a omissão que endossa. O apoio explícito e o silêncio que consente são igualmente vergonhosos.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Robert

    Na verdade, não me incomodo nem um pouco com o silêncio desses sujeitos.
    Cheguei a conclusão, muito pessoal, que a bronca do Lulla com a “zelite” é porque ele jamais recebeu apoio dela nem pertence a ela.
    É um politico de quinta categoria cercado de apoios de quinta categoria. Reune o que há de pior no Brasil e no mundo em torno se si.
    Vai passar.

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  2. Comentado por:

    Veridiano

    Augusto, esta semana o Lucio Mauro filho escreveu no site do jornal O Globo um artigo criticando Lula e o PT e dizendo ter sido enganado quando em outubro de 2002 os artistas foram reunidos no Canecão para expressar apoio a Lula. Mas pelo que sei é o único que acordou. Lula tem 805 de aprovação, mas Hitler também tinha e a história hoje mostra que ele só fez cagada. Eu queria saber a opinião de Ziraldo sobre o governo Lula. Será que acha que está tudo bem? Ziraldo vive falando mal de Fernando Henrique, mas para o Lula não sobra nada? Para o Ziraldo o peido de Lula deve ser cheiroso.

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  3. Comentado por:

    Hugo Werneck

    Meu caro Veridiano,
    Pedindo perdão por pegar carona no seu comentário, posso dizer, sem medo de errar: só pode dar opinião quem a tem! E este não é o caso de Ziraldo, grande amigo de Ribamar, o que desqulifica qualquer caráter.

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  4. Comentado por:

    Karlão

    Augusto: Mais uma vez vc consegue sintetizar minha silenciosa indignação.
    Contra essa gente, desde a reunião, devoto meu desprezo solitário e insigni-
    ficante, mas, apareceu PB no vídeo zap, outro canal. Peça dele nem que me
    paguem para assistir (fico enojado com o cheiro de suas mãos). Filme do Bar-
    reto, então, nem com cópia pirata a R$ 0,50.
    Parabéns. Mantenha tua caneta aí, afiada, justiceira.
    PS – Estivesse em um estádio de futebol gritaria para o SUPLA o que costumamos dirigir aos árbitros: “Ei.Juiz ……”

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  5. Comentado por:

    Murilo Menon

    Ivan Peluso,(14:44) concordo em gênero, numero e grau. A solução é simples : PASSAPORTE ! para entrar em São Paulo. Nós pagamos a conta deste governo e de suas mordomias, e não se cansam de malhar o povo paulista. Para esse velhacos, o mal do Brasil mora aqui em São Paulo.

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  6. Comentado por:

    RONI

    PARABENS AUGUSTO, VOCE E O REINALDO AZEVEDO, NOS FAZEM ACREDITAR, QUE AINDA RESTA ALGUMA DIGNIDADE NESTE PAIS, POR FAVOR NÃO SE DEIXEM COMPRAR, ABRAÇOS.

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  7. Comentado por:

    louise

    ESSES CARAS SÃO TODOS COMUNISTAS DE BEIRA DE PISCINA. SOCIALISMO SÓ PARA OS TROUXAS.

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  8. Comentado por:

    ROGERIO MELLO

    PREZADO AUGUSTO,
    MAIS UMA VEZ, PERDOE-ME POR ABORDAR ASSUNTO QUE DIFERE DE SUA MATÉRIA.
    NESSE EPISÓDIO XUXA/SASHA/TWITTER, O QUE AS PESSOAS QUE CAIRAM DE PAU NA XUXA ( ops!) NÃO PERCEBERAM É QUE SASHA, AO ESCREVER QUE GRAVARA UMA “SENA” AO INVÉS DE CENA, SÓ ESTAVA QUERENDO PRESTAR UMA HOMENAGEM AO SENNA (piloto ) QUE, COMO TODO MUNDO SABE, BRINCOU MUITO NO PLAY GROUND DA XUXA. MATOU A SEDE NAQUELA FONTE, ENTENDE?

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  9. Comentado por:

    Luciano Moojen Chaves

    Que o nobre jornalista faça uma milícia boa… Cultural!
    O baiano Caetano pegou um milhão de “REAL”, com o atual “ministro da curtura”, indicado pelo Gil. Para fazer sua turnê…
    Já o Gil, abocanhará quase quatrocentos e cinqüenta mil contos (com trema, senhor redator)… Para gravar um DVD! Dindim do mesmo ministério… Onde ele ficou bem, financeiramente.
    Mistério…
    Com esta porrada, meu querido e saudoso tio Fausto Wolff deve estar se revirando no túmulo

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  10. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Claro que entendo e concordo com o que você disse neste post magnífico – outro top ten, como você sabe, a cada dez textos, refaço a lita – sobre o silêncio da irmandade de intelectuais e artistas rebaixados a lulopetistas. Mas, à certa altura da vida, aprendemos que o silêncio também tem seus tons. Não acho que quem cala, consente sempre. Será? Depende, eu diria. O silêncio mais me confunde do que me dá certeza disso ou daquilo. Na confusão, tento perceber seus tons. É desgastante, não é fácil e tem que ser por algo que valha muito a pena. Legendas são bem-vindas, facilitam um pouco. Na ditadura militar, a força que calava bocas não silenciava corações democratas, tanto que estes a extinguiram. No lulopetismo, é ele a força totalitária com a qual a irmandade voluntariamente enche a boca para não falar. Com a boca cheia e a mente fossilizada, falar o quê? Que, conforme o Barretão, “A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência” e “Se o fim é nobre, os fins justificam os meios”? Não, meu senhor, a trajetória de um Tancredo Neves ou de um Itamar Franco nega a primeira afirmação. Quanto à segunda, trata-se de miséria moral traduzida em retórica miserável: a eventual nobreza de um fim se finda no meio espúrio. Paulo Betti decreta que “Não vamos ser hipócritas: política se faz com mãos sujas”, mas só para os companheiros, pois não? Somente homens purificados pela causa lulopetista podem sujar as mãos. José Genoíno pôde, então, sujar as mãos assinando empréstimos fraudulentos. Ora, homens de bem e seus objetivos elevam-se mutuamente. Wagner Tiso, afirmando não estar “preocupado com a ética do PT”, providenciou a legenda definitiva e definidora do silêncio da irmandade. Um silêncio com todos os tons da sordidez. Um beijo
    Um beijo, Valentina.

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