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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O RETORNO ARRASADOR DE CELSO ARNALDO (fim): Quer deixar Dilma feliz? Ao vê-la na rua, diga apenas: ‘Ói ela’

CELSO ARNALDO ARAÚJO Lá pelo final dos anos 60, Dilma estava ocupada demais lutando pelo proletariado para prestar atenção no tal de movimento feminista – que, quase 50 anos mais tarde, culminaria com sua ascensão à Presidência. Por não ter acompanhado o assunto na época, até hoje ela tem enorme dificuldade em discorrer sobre a […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h44 - Publicado em 5 mar 2013, 17h45

CELSO ARNALDO ARAÚJO

Lá pelo final dos anos 60, Dilma estava ocupada demais lutando pelo proletariado para prestar atenção no tal de movimento feminista – que, quase 50 anos mais tarde, culminaria com sua ascensão à Presidência. Por não ter acompanhado o assunto na época, até hoje ela tem enorme dificuldade em discorrer sobre a condição feminina. O máximo que conseguiu elaborar sobre o tema é a fábula recorrente da menina que um dia teria se aproximado dela para perguntar, candidamente:

─ Pode?

Dilma, evidentemente, não podia – mas o fato é que se tornou presidente. A presidente que, com sua dificuldade agônica de expressar ideias e conceitos, ainda está tentando explicar, em João Pessoa, por que cabe às mulheres receber a Bolsa Família e as chaves do Minha Casa.

“Porque a mulher representa a família. E não é eu (sic) que estou dizendo”

Atenção, esse pensamento tão complexo não é de autoria dela, mas de…Lula.

─ Até conto para vocês um comentário do presidente Lula. No início, quando a gente estava fazendo o Bolsa Família e, vocês sabem que quase 90% das pessoas, das famílias que recebem o Bolsa Família, é a mulher que tem o cadastro. Por que é a mulher? Porque o presidente Lula disse o seguinte, foi um homem que disse, hein, disse o seguinte para mim: “Olha, se não for assim vai aumentar o consumo de cerveja. A mulher vai pegar o dinheiro e vai dar para o filho, não tem dúvida que vai fazer isso.”

Segundo Lula – e Dilma parece endossar isso – faz parte da natureza do homem brasileiro ser um bebum irresponsável, que liquefaz o Bolsa Família em Bolsa Cerveja. Já a mulher é a emulação terrena de Nossa Senhora: tudo em nome do filho, inclusive o dinheiro. Eis uma cena que valeria a pena documentar: um bebê de três meses, filho único da casa, conferindo no berço os 70 reais do donativo que exterminou a miséria no Brasil. É ao pequeno contador que a mãe irá recorrer sempre que precisar comprar leite e mistura.

A imagem parece surreal ─ mas para Dilma é ótima e justifica o repeteco da conclusão que abalou o Projeto Genoma:

“E eu sempre lembro: cês não esqueçam que uma metade é filha da outra metade”.

De novo? É que Dilma acha a frase tão boa que já a assumiu como um bordão para reforçar o papel vital da mulher na sociedade. Ok, mas por que crianças e jovens até 15 anos são os balizadores do direito aos 70 reais?

“Por que criança e jovem? Porque no Brasil tinha uma coisa muito errada, muito errada mesmo. A cara da pobreza aqui no Brasil era basicamente, mais da metade ou quase a metade, de crianças e jovens. Então nós resolvemos olhar sobretudo para criança e jovem, porque é o futuro do país, porque é o único jeito que nós temos pra virar um país desenvolvido são as nossas crianças e os nossos jovens. Então como a criança e o jovem não dão conta das coisas sozinhos, eles precisam do apoio da família”.

Essa cara precoce da miséria no Brasil segue uma lógica perversa: pais pobres, filhos pobres. Para Dilma, descobrir isso foi um choque. E ela também saiu do sério ao descobrir que as crianças brasileiras não conseguem se virar sozinhas e precisam do apoio da família – com a exceção dos bebês a quem a mãe entrega o Bolsa Família.

No discurso que abalou João Pessoa, Dilma exortou os prefeitos a ajudá-la a localizar os últimos miseráveis rebeldes que se negam a entrar para a classe média ─ não só para ter acesso aos 70 reais como para receberem treinamento profissionalizante em virtualmente todas as áreas da atividade humana. Haverá professores de qualquer matéria em cada grotão do país:

“Aula de pedreiro, aula de eletricista, aula de tratador de doente…”

O que seria um tratador de doentes? Um médico de família sem diploma? Um doutor descalço? Imagino que Dilma quisesse ter dito “cuidador de doente”. Como nem o site do Planalto ousou questionar na transcrição integral do discurso, o tratador de doentes virou uma nova categoria da saúde brasileira.

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Mas a redentora do Brasil, cujo pedido é sempre uma ordem, de repente parece irritada. Anunciou seis mil creches há dois anos e até agora ninguém tomou qualquer providência. Não será por falta de outro aviso:

“Precisamos de ter (sic) creches, creches. É importante também, porque a raiz da desigualdade a gente atinge ao dar creche de alta qualidade para as nossas crianças mais pobres do país”.

A creche, segundo Dilma é o começo de tudo ─ mas falta ainda o primeiro tijolo.

O Brasil desenhado na Paraíba é o Brasil de Dilma. E de Ideli. Por causa dela ─ anuncia a presidente ─ o governo federal vai colaborar com a construção de um centro de convenções em João Pessoa:

“De fato o governo federal vai contribuir. Porque eu tenho certeza que João Pessoa e as praias aqui são grandes atrações turísticas. E acho… vocês nem precisam me dizer, porque a ministra Ideli esteve aqui e passa o tempo inteiro falando de como a praia que ela foi é maravilhosa”.

E tem gente que ainda pergunta o que faz a ministra da Secretaria de Relações Institucionais. Ou está na praia, com suas enxúndias, ou está falando maravilhas da última temporada.

O longo discurso está enfim terminando. Prova disso é a preparação para o clímax, em dilmês de grand finale:

“Para encerrar, eu queria dizer para vocês que eu tenho aqui muitas coisas para falar, eu queria falar só algumas delas”

Ainda não foi desta vez. É tomar fôlego e ir adiante. Dilma anuncia que dali vai visitar um lugar muito estranho. Que ela conhecia por um nome que ninguém ali conhece. Um mistério. Tem a ver com alguma obra contra a seca, mas esse problema do nome até pode atrapalhar a chegada da água.

“De fato eu não entendo. Porque a gente tem que inventar um nome para uma coisa que vocês chamam diferente. Mas aí o ministro depois vai me explicar por quê. Nós chamamos de Vertente Litorânea e vocês chamam de Acauã-Araçagi. Agora como é que vocês querem que eu saiba se eles chamam de Vertente Litorânea? Entendeu? É da vida isso, tem hora que acontece isso. Geralmente é melhor que os nomes, a gente dá nome para poder identificar, não é assim? A gente dá nome para poder identificar”

Ficou claro. A gente chama a presidente de Dilma para poder identificá-la. Ou não é bem assim?

─ Para finalizar, eu quero dizer para vocês uma coisa: eu estou muito feliz de estar aqui na Paraíba. Eu quero dizer para vocês que nós somos um povo muito especial. Muito especial. Por que é que nós somos um povo especial? Primeiro porque nós somos um povo alegre. Segundo, porque nós somos um povo que somos capazes imediatamente de ter uma grande intimidade. E eu quero dizer para vocês uma coisa: eu fico muito feliz quando eu passo na rua e o pessoal diz assim: “Ói ela!”.

Dilma então diz muito obrigada e sai de cena. A historinha foi o punchline perfeito do já célebre discurso, um desfecho à altura dos grande oradores.

Mas, para a presidente incapaz de formular ou sequer repetir uma frase medianamente inteligente sobre qualquer aspecto da vida humana, esse notável traço do brasileiro só não funciona no seu caso. Em vez de se aproximar festivamente para um abraço, um beijo, uma foto, uma conversinha de comadre, demonstrando essa intimidade atávica descrita por ela, o “pessoal” que cruza o caminho da presidente se limita a registrar sua presença e, em dilmês cívico, reconhecê-la pelo modo como um dia alguém apontará para uma foto de Dilma num livro de História:

─ Ói ela.

http://www.jornaldaparaiba.com.br/polemicapb/2013/03/04/podemos-fazer-o-diabo-na-hora-da-eleicao-diz-dilma/

 

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