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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O presunçoso gerente de apagão veste a fantasia de comandante de programa nuclear

Os Estados Unidos, a Alemanha, a França e o próprio Japão já começaram a rever seus programas nucleares, para aperfeiçoá-los com as lições da tragédia ainda em curso. Nos próximos dias, o exemplo será certamente seguido por todos os países que lidam com energia atômica. Ou quase todos: segundo o ministro de Minas e Energia, […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 12h34 - Publicado em 16 mar 2011, 20h04

Os Estados Unidos, a Alemanha, a França e o próprio Japão já começaram a rever seus programas nucleares, para aperfeiçoá-los com as lições da tragédia ainda em curso. Nos próximos dias, o exemplo será certamente seguido por todos os países que lidam com energia atômica. Ou quase todos: segundo o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, aqui não há revisões a fazer. “Nós não temos razão nenhuma para preocupação maior”, gabou-se de novo nesta quarta-feira. “As dificuldades que as usinas do Japão tiveram as nossas não terão. As nossas têm uma proteção maior. Vamos prosseguir com o nosso programa”.

É assim o Brasil Maravilha em que vive Lobão. Em novembro de 2009, confrontado com o apagão que deixou no escuro 18 Estados e 60 milhões de brasileiros, o alquimista maranhense conseguiu enxergar no naufrágio administrativo um milagre da tecnologia ultramoderna. “Foi a excelência do sistema que se autoprotegeu, desligando-se”, recitou a frase soprada por algum vigarista. Neste fevereiro, reprisou o palavrório para festejar o triunfo da potência emergente sobre o blecaute que atormentou 53 milhões de habitantes de oito Estados nordestinos: “O sistema entendeu que havia alguma coisa de anormalidade, como sobrecarga, e ele se autoprotegeu, desligando-se”.

Dois apagões bastaram para deixar claro que Lobão entende tanto de sistema elétrico quanto pode um bebê de colo entender de física quântica. As bravatas irresponsáveis sobre o desastre nuclear no Japão informam que o presunçoso gerente de apagões decidiu fantasiar-se de comandante de programa nuclear. Quem acha o que o País do Carnaval está mais preparado que os países mais preparados do mundo no campo da prevenção de acidentes naturais é uma bomba administrativa de efeito retardado ─ instalada num gabinete que só deveria abrigar especialistas no assunto.

A biografia oficial de Dilma Rousseff faz o possível para incluí-la nessa categoria. Outra fraude. Nomeado por vontade de José Sarney, a quem chama de “Madre Superiora” quando o chefe não está ouvindo, Lobão (que mesmo quando está ouvindo é chamado de “Magro Velho” pelo chefe) é uma prova contundente de que a pose de mestra em minas e energia merece tanta credibilidade quanto o doutorado em economia pela Unicamp.

Se fosse do ramo, Dilma teria discordado da escolha engolida pelo antecessor. Em vez disso, não só avalizou a indicação como manteve no posto um monumento à inépcia. Transformou-se em cúmplice por ação e omissão. Enquanto os países sérios pensam na salvação de vidas, os governantes brasileiros tratam de salvar o próprio emprego, com a solidariedade militante dos subordinados. Previsivelmente, os responsáveis pelas usinas de Angra 1 e Angra 2 endossaram as gabolices do chefe.

No Globo desta quarta-feira, a coluna do jornalista Zuenir Ventura ecoou três vozes que desafinam do coro dos contentes: O professor José Goldemberg resume: “A energia nuclear é um eterno perigo, ela não vale o risco”. O secretário de Ambiente do Rio, Carlos Minc, depois de lembrar que já houve 16 acidentes leves e médios em Angra 1, adverte: “Não existe risco zero. O Brasil não tem cultura de prevenção”.  Também o físico Luiz Pinguelli Rosa aconselha a se ter “muito cuidado”.

Edison Lobão não é o único político de quinta a instalar-se num cargo que deveria ser preenchido com base em critérios exclusivamente técnicos. Mas é neste momento o mais inquietante. E talvez seja, em qualquer circunstância, o mais repulsivo.

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