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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O espantoso encontro no Planalto entre o Senhor Presidente e o Senhor Cloaca

Caprichando na pose de moderador de um encontro entre o presidente da República e entrevistadores criteriosamente selecionados, o jornalista Nelson Breve, da assessoria de imprensa do Planalto, limpa a garganta com um pigarro imaginário e emposta a voz para anunciar a identidade do escalado para a próxima pergunta e a instituição que representa: ─  Senhor […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 21 fev 2017, 08h53 - Publicado em 25 nov 2010, 19h58

Caprichando na pose de moderador de um encontro entre o presidente da República e entrevistadores criteriosamente selecionados, o jornalista Nelson Breve, da assessoria de imprensa do Planalto, limpa a garganta com um pigarro imaginário e emposta a voz para anunciar a identidade do escalado para a próxima pergunta e a instituição que representa:

─  Senhor Cloaca, do Cloaca News.

Assim começa, como atesta o vídeo, o melhor dos piores momentos do espantoso sarau que juntou, nesta quarta-feira, o chefe de governo e o time formado por 11 blogueiros “progressistas” ─ ou estatizados, em língua de gente. O resumo da ópera do absurdo está nos blogs de Ricardo Setti e Reinaldo Azevedo. Esta coluna limita-se a registrar a troca de ideias e afagos entre Lula e a o convidado cujo codinome significa “cano ou fossa destinada a receber dejeções e outras imundícies” ou “aquilo que é imundo, que cheira mal”.

Ao som de risos abafados, a câmera que mostra a turma aglomerada nos dois lados da mesa comprida se aproxima da figura cujo codinome significa “órgão por onde aves e alguns outros animais excretam seus resíduos orgânicos: fezes e urina”. A imagem ampliada pelo close exibe  alguém que acabou de chegar dos anos 60 e só teve tempo para deixar a mala no quarto-e-sala do amigo. Os pelos da barba aparada na véspera tentam compensar o sumiço dos fios de cabelo no topo. Enquanto trava uma briga de foice no escuro com os tons sombrios da gravata estampada, o terno preto emprestado de algum parente mais gordo e mais alto engole as mangas e a gola da camisa social branca.

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O Senhor Cloaca quer saber se o Senhor Presidente tem boas notícias para os partidários da censura à imprensa. Conta que ficou entusiasmado com a ofensiva liberticida planejada em 2009 pelos participantes da Conferência Nacional de Comunicação. Mas está ansioso pela materialização do sonho que começa pelo controle social da mídia. Nem toda, concede: o que o incomoda é “certa imprensa” que não sabe ser gentil com o governo em geral e, em particular, com o chefe da nação.

Dilatada por pontapés na gramática e cotoveladas na fluência, a pergunta chega ao fim quando o homem na cabeceira da mesa já esqueceu a apresentação recitada pelo moderador. Alertado pelo ponto final, Lula faz cara de quem ouviu um sábio do Sião, aproxima-se do microfone, consulta um papel à sua esquerda e solta a saudação inacreditável:

─ Meu caro senhor Cloaca.

A plateia estaciona nas risadinha esparsas. Por saber que gargalhadas devem ser guardadas para as piadinhas de Lula, o bando de áulicos e chapas-brancas restaurou em segundos a paisagem solene. Até o encerramento da discurseira, Cloaca sentiu-se em casa. Foi tratado respeitosamente por gente que há oito anos desrespeita o Brasil.

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