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O custo da alfabetização

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA Fernando Reinach A leitura e a escrita são invenções recentes na história do Homo sapiens. Faz menos de 7 mil anos que a escrita foi inventada. Parece muito, mas 7 mil anos é nada do ponto de vista evolutivo. Significa que provavelmente a atividade de ler e escrever utiliza […]

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Fernando Reinach

A leitura e a escrita são invenções recentes na história do Homo sapiens. Faz menos de 7 mil anos que a escrita foi inventada. Parece muito, mas 7 mil anos é nada do ponto de vista evolutivo. Significa que provavelmente a atividade de ler e escrever utiliza habilidades que já existiam em nosso cérebro muito antes de a inventarmos. O mesmo ocorre com o ato de tocar piano, uma atividade relativamente recente, mas que somos capazes de aprender porque, muito antes de o primeiro piano ser construído, nosso cérebro já era capaz de controlar com precisão o movimento dos dedos e integrar esse movimento com nossa capacidade auditiva.

Quando uma nova atividade utiliza parte de nossa capacidade cerebral, duas coisas podem ocorrer. A primeira é que essa nova atividade integra diversas áreas do cérebro, melhorando outras atividades. Isso foi demonstrado em ratos treinados para se localizarem em labirintos. Eles melhoram sua capacidade de orientação quando soltos em ambientes complexos. Outra possibilidade é que a nova atividade, ao desviar para uma nova função parte de nossa capacidade cerebral, prejudica outras atividades. É o que ocorre com os grandes pianistas, nos quais a área do cérebro responsável pelo controle dos dedos aumenta e invade áreas vizinhas, que controlam outros músculos.

Um grupo de cientistas, que inclui dois brasileiros da Universidade de Brasília, resolveu estudar as consequências da alfabetização no funcionamento do cérebro. Sessenta e três pessoas, dividas em três grupos, foram estudadas: adultos analfabetos (10), que aprenderam a ler na idade adulta (22) e alfabetizados na infância (31). Cada grupo foi submetido a testes de leitura. Como esperado, os analfabetos acertaram 0% das palavras, os alfabetizados na idade adulta, entre 60 e 90%, e os alfabetizados quando crianças, mais de 95%.

Cada uma dessas 63 pessoas foi colocada em uma máquina de ressonância magnética, capaz de medir a atividade de diferentes áreas do cérebro. Enquanto estavam na máquina, os cientistas pediam que a pessoa executasse diferentes tarefas. A máquina determinava que áreas do cérebro eram ativadas durante a execução. A primeira classe de tarefas incluía responder a frases escritas. Como esperado, a imagem de perguntas escritas não causava grande ativação em nenhuma área do cérebro dos analfabetos. Nos alfabetizados, diversas áreas eram ativadas quando essas pessoas eram submetidas a perguntas escritas.

De maneira geral, o cérebro dos alfabetizados era ativado em um número maior de áreas e com mais intensidade quando elas eram submetidas a testes de reconhecimento de imagens. Quando diversos tipos de formas geométricas ou sequências de objetos foram apresentados aos voluntários, os cérebros dos alfabetizados sempre eram mais ativos que os dos analfabetos, o que sugere que o aprendizado da leitura e da escrita permite que o cérebro processe de maneira mais eficiente imagens não relacionadas à escrita. De certa forma isso era esperado, pois os mecanismos cerebrais utilizados na leitura são os mesmos que utilizamos quando processamos outros estímulos visuais.

A grande surpresa foi o resultado obtido nos testes em que se media a capacidade de distinguir faces semelhantes em fotografias. Neles, o cérebro dos analfabetos reagia de modo mais intenso e em uma área maior que o dos alfabetizados. Esse resultado sugere que a parte de nosso cérebro responsável pelo reconhecimento de faces (característica presente em diversos macacos) é em parte desviada para a atividade de reconhecimento dos caracteres escritos. Se isto for verdade, é de se esperar que pessoas analfabetas sejam capazes de distinguir melhor os detalhes visuais presentes nas faces do que pessoas que foram alfabetizadas.

Esses resultados mostram que a alfabetização, tanto de crianças quanto de adultos, melhora o rendimento de muitas atividades do cérebro. Mas a alfabetização tem um custo: a capacidade diminuída de reconhecer faces. Isso sugere que a parte do cérebro que utilizamos para ler e escrever é, em parte, aquela que nossos ancestrais utilizavam para reconhecer sentimentos expressos nas faces dos membros de sua tribo. Se hoje não reconhecemos visualmente a angústia na face de um amigo, não temos dificuldade em ler o e-mail em que ele nos conta que está angustiado.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Siará Grande

    Alem de melhorar a capacidade do cérebro em reconhecer fisionomias, o analfabetismo tem outro grande benefício: melhora a capacidade de votar do PT. Pois os analfabetos reconhecem na fisionomia do ex-Presidente Lulla um homem honrado, ético, de palavra, de convicções firmes, trabalhador, respeitador da Lei, um batalhador incansável no combate à corrupção e ao nepotismo.
    E a conclusão final, um estudo como este certamente foi conduzido em Brasília, com mais certeza ainda na UnB. Ou terá sido na UniCamp?

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  2. Comentado por:

    Glorinha de Nantes

    Boa, Siará Grande! Talvez a educação seja consequente mais pelo que não faz! A alfabetização, a leitura e a escrita, ativam mais áreas do cérebro? E foi preciso ver por meio de ressonância magnética para constatar uma hipótese tão pífia!? Inacreditável! A educação dos “cientistas” foi tão inusitadamente insuficiente, que os leva ao dispêndio de recursos, raramente disponíveis, em qualquer lugar do planeta! Vamos pesquisar com mais responsabilidade, produzir conhecimento NOVO e consequente! Brincadeira tem hora e lugar! Certamente, nunca será num Instituto de Pesquisa sobre o desconhecido CÉREBRO! Aliás, que cérebros!

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  3. Comentado por:

    Charles A.

    Eis uma nova profissão para analfabetos além de deputado e presidente: a de psicanalisata do sus.É só olhar na cara e puft,tá curado…

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  4. Comentado por:

    Charles A.

    É só e-mails que o jornalista do Estadão acha que somos capazes de ler?Freud era analfabeto ou tirou tudo aquilo da sua “intuição”? Perdoe-me,Augusto,mas o seu colega do Estadão poderia escrever algo mais inteligente…”A alfabetização tem um custo”…ora,bolachas…

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  5. Comentado por:

    Charles A.

    O cérebro humano é capaz de coisas notáveis. Quanto mais usado mais funções desenvolve.Esse “estudo” é fruto de experimentos pseudo-científicos que querem provar o contrário da verdade e,partindo de pressupostos, chegam a conclusões absurdas.Por isso é que o jornalista cita como prova de confiabilidade do “estudo científico com ressonância magnética” “dois brasileiros da Universidade de Brasília”…

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  6. Comentado por:

    Sergio Maidana

    Excelente texto. Parabéns.

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  7. Comentado por:

    Elvis Trivelin

    Hahaahahahah muito boa, Siará Grande!
    Augusto, é de conhecimento antigo que os fluxos de informação no cérebro privilegiam uma área condicionada por uma atividade já consolidada. Isso, porém, não implica dizer que “amputei” minha capacidade de reconhecer rostos ou de controlar uma raquete de tênis de mesa, por exemplo. Em contrapartida, a busca de entender o que se passa no mundo por pessoas que não desenvolveram a leitura e escrita, pode ser por outras formas que privilegiem, por exemplo, o reconhecimento de faces. E daí? Também não quer dizer que amputaram sua capcidade de ler e escrever ou de sistematizar dados algum dia. A própria ex-candidata Marina Silva seria exemplo disso.
    Enfim, quanto mais determinista for a ciência, maiores poderão ser os erros que ela virá a cometer.

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  8. Comentado por:

    Elvis Trivelin

    Só um acréscimo ao comentário anterior: se essas pessoas analfabetas desenvolverem a leitura e escrita, perderão, então, a capacidade de reconhecer faces, segundo esses pesquisadores?

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