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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O Brasil já foi mais exigente

#ValeAPenaLerDeNovo: No Brasil real, o governo não concluiu uma única obra física relevante. No Brasil que Lula inventou, inaugura um deslumbramento por dia

Por Augusto Nunes - 23 Maio 2018, 07h23

Publicado em 24 de junho de 2010

No meio da entrevista à rádio Bandeirantes de Campinas, entre um palavrório indecifrável e outro sem pé nem cabeça, Dilma Rousseff surpreendeu os ouvintes com dois espantos numa frase só: “O terceiro aeroporto ser em Viracopos é absolutamente adequado, porque Viracopos tem área, Viracopos é perto de Campinas, dista apenas 100 km no máximo de Campinas”.

Primeiro espanto: como Viracopos fica a 14 quilômetros do centro de Campinas, a distância de 100 quilômetros só seria alcançada se o aeroporto inteiro ─ incluídos os portões de embarque, as pistas, o saguão, o estacionamento, o bar, a banca de jornais, os funcionários das empresas aéreas e os passageiros ─ fosse transferido para capital paulista, a 94 quilômetros dali. Quem faz o PAC é capaz até de embarcar um aeroporto num caminhão de mudanças, mas o entrevistador achou melhor conferir. Só então Dilma descobriu onde estava. Quem já confundiu Governador Valadares com Juiz de Fora pode confundir São Paulo com Campinas.

Desfeita a confusão geográfica, segue à espera de elucidação o segundo espanto: se transformar Viracopos no colosso do transporte aéreo, conforme prometeu, Dilma terá presenteado São Paulo com um quarto aeroporto. Embora ninguém saiba onde fica, o terceiro aeroporto foi concluído em 2009, conforme o cronograma divulgado em 20 de julho de 2007, quando a chefe da Casa Civil resolveu mostrar do que é capaz uma gerente de país.

“Determinamos a construção de um novo aeroporto e os estudos ficarão prontos em 90 dias”, pisou fundo já na largada da entrevista coletiva, caprichando no plural majestático. “Estamos determinando que a vocação de Congonhas seja de voos diretos, ponto a ponto”. Depois de conceder-se um prazo de 60 dias para dar um jeito em Congonhas, a superexecutiva a serviço da pátria deixou claro que pensara em tudo. “Tivemos de tomar precauções sobre a área de segurança ao redor do aeroporto”, exemplificou.

Onde seria construído o mais confortável e mais seguro aeroporto do planeta?, excitaram-se os jornalistas. “Não sabemos onde será e, se soubéssemos, não diríamos”, ensinou a ministra. “Jamais iríamos dizer isso para não sermos fontes de especulação imobiliária”. Os jornalistas compreenderam que a ideia de modernizar Viracopos fora sepultada pelo governo. Só ressuscitou nesta quarta-feira porque Dilma Rousseff sempre tira da bolsa um canteiro de obras que logo será plantado no lugar em que está.

Além do aeroporto, Campinas ganhou de novo o trem-bala que, dias antes, apitou numa curva de Uberlândia e anda fincando uma estação ferroviária a cada escala eleitoral. No Brasil real, o governo não concluiu uma única obra física relevante. No Brasil que Lula inventou, inaugura um deslumbramento por dia. Ou dois: enquanto Dilma inaugurava o quarto aeroporto de São Paulo, o presidente visitou um terreno baldio no Pará para inaugurar “o início da terraplanagem para a construção de uma usina siderúrgica”.

Nesse país do faz-de-conta a vida é uma beleza. Aqui, segundo o IBGE, 35% dos brasileiros não conseguem alimentar-se suficientemente. Lá todos têm direito a três refeições por dia, os ex-miseráveis vivem como ricos e os que já tinham fortuna agora levam vida de rei. Aqui as multidões carentes de transporte se penduram em trens de subúrbio. Lá há trem-bala para todos. Aqui há pedintes nas esquinas. Lá a pobreza é uma lembrança tão longínqua que os pobres já nem se lembram dos tempos em que faltava dinheiro para viajar de avião. Lá há aeroportos de sobra, só São Paulo já tem três. E Dilma Rousseff, parceira de Lula na edificação desse universo fantasioso, acaba de embarcar no quarto.

O Brasil já foi mais exigente, menos subalterno, mais sensato, menos crédulo.  É compreensível que o País do Carnaval passe alguns anos enxergando um gênio da raça num monumento ao primitivismo. Mais difícil é entender o que leva tanta gente a topar o salto no escuro com Dilma Rousseff. O que parece uma opção por uma candidatura é só a sujeição voluntária da vítima ao autor da vigarice.

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