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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Nhoque da fortuna

Minhas “meninas” da Serra Fluminense não precisavam buscar fartura, fortuna, sorte e que tais, pois já tinham isso de sobra

Por Heraldo Palmeira Atualizado em 30 jul 2020, 20h22 - Publicado em 4 ago 2018, 17h19

Heraldo Palmeira

De passagem por Nova Friburgo, encontrei a cidade em plena temporada de inverno, com turistas misturados à cena cotidiana. Surpreso, dei de cara até com uma velha e surrada Romi Isetta, aquele carrinho ítalo-brasileiro que fez sucesso nos anos cinquenta em razão do design para lá de esquisito, com sua porta única frontal. Estacionada sob uma árvore frondosa diante da casa do seu dono, ainda mantinha a fantasia que usou no último Carnaval, denunciando uma ressaca por certo descomunal.

A noite na Serra Fluminense estava agradabilíssima, com estranhos vinte e dois graus para uma época do ano onde os termômetros costumam registrar, sem grande esforço, até temperaturas rondando o zero. Entrei no táxi na porta do hotel e desci a pequena colina.

Fui jantar num lugar chamado Quinta Rica, ao largo da Praça Getúlio Vargas. Comida farta, honesta e barata num reduto sem grandes luxos e muito tradicional no centro da cidade. O cardápio apontava rodízio de sopas, bufê ou rodízio completo. Pelo menos naquela noite, não percebi turistas. Havia casais aconchegados e famílias em grandes mesas, dando a entender que o endereço faz parte da vida dos locais.

Na hora de pagar a conta, peguei a comanda e segui direto para o caixa. Pequena fila formada, eis que uma senhora de bengala, cabelo branquinho, fez cara de desânimo e se encaminhou para o final.

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Abriu um largo sorriso quando estendi o braço em convite para que entrasse na minha frente – acho que fui o primeiro a perceber sua aproximação e ela fatalmente mereceria essa deferência de qualquer uma daquelas pessoas que aguardavam o atendimento da moça do caixa.

Aquela criaturinha começou a me cobrir de palavras delicadas, apesar de minha atitude não ser digna de qualquer registro. De súbito, externando uma ordem do coração, eu disse que ela era minha convidada – e peguei sua comanda, deixando-a docemente constrangida. Ganhei um beijo afetuoso e ela seguiu o rumo da saída, enquanto fui cheio de vida tomar o cafezinho oferecido pela casa, mais adiante do caixa.

Quando me dei conta, havia um verdadeiro frisson de várias senhoras ao redor da minha novíssima amiga. Todas na faixa dos oitenta anos, ouviam, em grande animação, os detalhes da “aventura” no caixa. Quando ela me viu novamente, começou a apontar e fui cercado por aquela delicada nuvem de cabelos brancos e rostos maternais, com direito a afagos e todas as atenções.

Entrei na conversa e na algazarra delas, estendi novamente o braço, percorremos juntos o grande corredor e terminamos na calçada, chamando a atenção de quem passava pela rua, tal a nossa algazarra. Até explodirmos numa gargalhada depois que minha novíssima amiga contou, com grande graça, uma piada daquelas cabeludas.

Nos despedimos com alegria e combinamos que minha próxima visita a Friburgo deverá ser obrigatoriamente num dia vinte e nove qualquer. Assim, poderei reencontrá-las no mesmo lugar, para comermos juntos o nhoque da fartura – que leva aquelas senhoras ao Quinta Rica no dia vinte e nove de todos os meses, desde mil novecentos e noventa e cinco.

Na verdade, minhas “meninas” da Serra Fluminense nem precisavam mais buscar fartura, fortuna, sorte e que tais, pois já tinham isso de sobra naquele prazer inigualável da convivência despreocupada. Tão despreocupada que fomos embora de compromisso assumidíssimo para um reencontro num futuro qualquer, e nem dissemos nossos nomes. Apenas seguimos cheios de certezas!

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