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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Muita milhagem e pouco serviço

Santa Catarina foi devastada por enchentes tão previsíveis quanto a mudança das estações.  O Nordeste é supliciado por chuvas que desde sempre, não importa a duração da seca, um dia acabam caindo, frequentemente em forma de dilúvio. Os pais da pátria brasileira fazem de conta que não sabem disso. Nunca previnem. Preferem remediar ─ com a demora exasperante que acentua a incompetência.  Isso é mais antigo que […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 22 fev 2017, 16h33 - Publicado em 7 maio 2009, 19h30

Santa Catarina foi devastada por enchentes tão previsíveis quanto a mudança das estações.  O Nordeste é supliciado por chuvas que desde sempre, não importa a duração da seca, um dia acabam caindo, frequentemente em forma de dilúvio. Os pais da pátria brasileira fazem de conta que não sabem disso. Nunca previnem. Preferem remediar ─ com a demora exasperante que acentua a incompetência.  Isso é mais antigo que a descoberta do Brasil, dirá o presidente Lula. Com uma diferença: a primeira-dama sumiu.

É crueldade comparar Marisa Letícia a Ruth Cardoso. Única primeira-dama da República com profissão definida e idéias próprias, a mulher de Fernando Henrique Cardoso foi uma dessas singularidades que aparecem de vez em quando nos trêfegos trópicos para lembrar, por contraste, o que poderíamos ter sido e não fomos. Confrontada com as demais, Marisa Letícia figura no fim da fila graças ao fiasco no quesito “desempenho em momentos de comoção nacional”.

Qualquer companheira de destino ─  até para justificar as pompas e fitas que ornamentam o emprego oficioso, até para tornar menos incômodo  o tamanho da milhagem aérea ou o brilho das jóias prodigalizadas por emires  perdulários ─ já teria dado o ar da graça na zona conflagrada, ou pelo menos murmurado palavras de conforto. É pouco, mas é sempre alguma coisa para quem não tem nada. Pois nem isso fez a primeira-dama.

A Marisa Letícia retraída, a paulista de origem modesta que não tem nada a dizer porque o marido tudo disse, diz ou dirá, a descendente de imigrantes italianos concentrada nas atividades de esposa, mãe e avó, essa Marisa Letícia é tão verdadeira quanto prestação de contas de deputado. Quem a viu em ação conheceu a mulher voluntariosa, loquaz, opiniática, ciumenta, sempre em guarda com repórteres desinibidas e granfinas insinuantes, capaz de interromper uma audiência no gabinete presidencial ou uma reunião política porque “já é muito tarde, hora de voltar para casa”, capaz também emitir em voz opiniões mais que audaciosas sobre companheiros ou desafetos de Lula ou, sobretudo, da Primeira Família. O voto de silêncio que vigora aos olhos da multidão é suspenso quando lhe convém.

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Talvez ache que para cuidar de inundações e gente sem comida é que existem ministros. Nesse caso, deve desocupar o gabinete em que passa o tempo no 4° andar do Palácio do Planalto desde o primeiro mês do primeiro governo. Quando não está viajando com o marido ─ e como gosta de voar de graça nossa campeã de milhagem ─ nunca deixa de aparecer por lá.

 Para quê? Para nada.

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