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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Marielle, Juliane e as balas no meio do caminho

Em 2017, morreram 367 policiais civis e militares no Brasil, dois terços deles em períodos de folga

Por Cristyan Costa - Atualizado em 13 ago 2018, 17h49 - Publicado em 13 ago 2018, 11h08

Cristyan Costa

Na última quarta-feira, 1º de agosto, Juliane dos Santos Duarte, de 27 anos, aproveitou a folga para ir a um churrasco na casa de amigos em Paraisópolis, favela da Zona Sul de São Paulo. Na madrugada do dia seguinte, foi ao bar com uma amiga em busca de um engradado de cerveja. Ao voltar do banheiro, soube que um celular acabara de ser furtado. Juliane identificou-se como policial militar e exigiu, em vão, a devolução do aparelho. Continuou no local, dançando, bebendo e conversando. Cerca de 40 minutos mais tarde, quatro homens encapuzados entraram, levaram-na para fora e atingiram duas vezes em seu ventre. Quatro dias depois, o corpo foi encontrado no porta-malas de um carro em Jurubatuba. O laudo da perícia constatou que ela morreu com um tiro na cabeça. Antes da execução, ficou pelo menos 24 horas em poder dos algozes, submetida a um “tribunal” formado pelos bandidos.

O crime tem semelhanças com a morte de Marielle Franco, a hoje célebre vereadora do Psol do Rio de Janeiro, assassinada em março deste ano. Como Marielle, Juliane era negra, lésbica e integrava o aparelho do Estado. Ambas tinham um histórico de luta contra a criminalidade e estavam de folga no momento em que foram alvejadas. As similaridades acabam aí. Enquanto a morte de Marielle gerou comoção nacional, passeatas e manifestações indignadas de partidos políticos, movimentos sociais e entidades que se proclamam defensoras dos direitos humanos, a de Juliane não mereceu sequer meia dúzia de notas de protesto.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado nesta quinta-feira informa que São Paulo ocupa o segundo lugar no ranking de mortes de policiais civis e militares. Foram 60 em 2015, 80 em 2016 e 60 no ano passado. Desde 2001, de acordo com a corregedoria da PM de SP, houve 1.147 óbitos. Nos últimos 16 anos, portanto, um policial militar ou civil foi assassinado a cada cinco dias no estado. O Rio de Janeiro é o campeão com, respectivamente, 98, 87 e 104 mortes, e o Pará ocupa o terceiro lugar: 21 mortes em 2015, 21 em 2016 e 37 em 2017.

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Para José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM e ex-secretário nacional de Segurança Pública, um dos principais motivos desses índices perturbadores é a baixa remuneração da categoria (o salário de um soldado em São Paulo, por exemplo, gira em torno de R$ 3 mil por mês). “Para complementar a renda, o policial procura empregos alternativos e de maior risco”, argumenta José Vicente. “Ainda que ele seja bem treinado, pode vir à óbito ao reagir em condições desfavoráveis”.

Embora tão inaceitavel quanto a morte de policiais, a de políticos é infinitamente menor. Entre 2016 e 2018, 40 vereadores foram assassinados em 17 estados brasileiros. Só em 2017, morreram 367 policiais no Brasil, 70% em períodos de folga. Mais de 150 dias depois, tanto o poder público quanto os movimentos sociais e as entidades de defesa dos direitos humanos continuam empenhados em desvendar o homicídio de Marielle Franco. Em menos de uma semana, o de Juliane já virou estatística.

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