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Kátia Abreu vai descobrir que metamorfoses delirantes não escapam da punição nas urnas

A senadora do Tocantins que trocou a oposição pelo governo Dilma quer ver na prefeitura de Palmas o candidato que a acusou de ser 'a próxima Demóstenes Torres'

Por Branca Nunes - Atualizado em 8 Feb 2017, 09h36 - Publicado em 1 Oct 2016, 12h20

Atualizado às 11h20

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Kátia Abreu discursa em apoio à candidatura de Raul Filho (à esquerda)

BRANCA NUNES

Adversária inclemente do governo Lula, inimiga feroz do PT e dos “movimentos sociais”, a senadora Kátia Abreu protagoniza desde 2011 uma metamorfose delirante que a transformou em substituta de Erenice Guerra no posto de melhor amiga de Dilma Rousseff.

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A cacique da tribo que agrupava a direita do DEM não perdeu tempo com explicações ao tornar-se sacerdotisa do PSD (aquele que não é de direita, nem de esquerda e nem de centro), onde fez uma curta escala na sigla antes de desembarcar, sempre sem constrangimentos, na autoproclamada ala esquerda do PMDB.

Latifundiária do Centro-Oeste, líder da bancada ruralista no Congresso e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), bastaram-lhe algumas semanas no gabinete de ministra da Agricultura de Dilma para contemplar com outros olhos antigos antagonistas.

Hoje, por exemplo, ela vê até com simpatia as barracas de lona preta do MST que até recentemente sonhava varrer da face da Terra. Pois quem achava que, depois dessas guinadas de Kátia, não se surpreenderia com nenhuma outra alteração de rota reagiu com espanto à aliança eleitoral que fez da senadora uma aliada de Raul Filho, candidato do PR à prefeitura de Palmas.

Prefeito da capital do Tocantins de 2005 a 2012, Raul Lustosa Filho ficou conhecido nacionalmente depois de protagonizar um vídeo em que aparece negociando o apoio do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Gravado durante a campanha de 2004 e divulgado em 2012 em meio à Operação Monte Carlo, o vídeo mostra a dupla e alguns assessores conversando sobre “oportunidades a serem exploradas” na capital, cifras e formas de transportar o dinheiro negociado.

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Depois da posse de Raul eleito, a prefeitura fechou diversos contratos com a construtora Delta, do empreiteiro Fernando Cavendish, ligado ao esquema chefiado por Cachoeira. Segundo o site Conexão Tocantins, o Ministério Público Estadual acusa a existência de uma quadrilha que agiu ao longo dos dois mandatos de Raul Filho, “visando dar aparência de legalidade a contratos que favoreceram a Delta” em mais R$ 115 milhões.

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Inconformada com os pontapés no Código Penal, Kátia Abreu articulou a inclusão de Raul na lista de depoentes convocados pela CPI do Cachoeira instaurada no Congresso. Fustigado por Kátia, o adversário revidou: “Ela devia ter um pouco de preocupação é com o rabo de palha que ela tem. A senadora sempre fez as campanhas mais milionárias que o Estado pôde presenciar, seja para eleger ela ou para eleger o seu filho. Ela já consta em documentos aqui, como grileira de terras”.

O prefeito enxergou na acusadora uma versão feminina de Demóstenes Torres, ex-senador do DEM de Goiás, cassado em 2012 também por maracutaias envolvendo Carlinhos Cachoeira. “Não duvido que ela será uma das próximas Demóstenes do Brasil”, vaticinou Raul. “O Demóstenes chegou ao Congresso como o paladino da ética e da honra. A Kátia que tenha cuidado porque poderá ser uma das próximas Demóstenes”.

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Condenado em 2012 por construções feitas em área de preservação permanente, Raul Filho deveria estar inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Uma edificação sem licença ambiental numa chácara às margens do lago da usina Luiz Eduardo Magalhães, em Miracema do Tocantins, suprimiu a vegetação nativa, compactou e impermeabilizou o solo e influiu negativamente na fauna e na regeneração da flora nativa.

Ainda assim, uma liminar concedida pelo Tribunal Regional Federal validou o registro de sua candidatura e liberou o infrator para a disputa das eleições deste domingo. Tal permissão chegou a ser suspensa na noite desta quarta-feira pelo Superior Tribunal de Justiça, que na manhã seguinte voltou atrás.

Em agosto deste ano, ao formalizar o apoio ao ex-inimigo, Kátia Abreu reafirmou que a ética e a moral são valores em extinção no universo habitado por políticos brasileiros. Mas no Brasil da Lava Jato talvez estejam em plena expansão, informam pesquisas eleitorais recentes. Segundo o Ibope, Raul Filho caiu de 27% em agosto para 21% em setembro. Nesse mesmo período, o atual prefeito Carlos Amastha (PSB), um ex-aliado de Kátia Abreu em busca da reeleição, saltou de 28% para 41%

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Quando perdeu o emprego de ministra, a amiga de Dilma foi impedida de reassumir a presidência da Confederação da Agricultura e Pecuária pela diretoria da entidade. Irritada com o comportamento político da senadora, o comando do PMDB se movimenta para expulsá-la do partido. Pior ainda: vai crescendo o número de eleitores que pretendem vê-la pelas costas. Kátia não vai demorar a descobrir que metamorfoses delirantes são invariavelmente punidas pelas urnas.

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