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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

José Casado: A fraude de Aécio Neves

Autor da Lei das Estatais foi o primeiro a fraudá-la. Recebeu R$ 2 milhões, prometeram-lhe mais R$ 8 milhões ao ano e a negociação de um dúplex no Rio

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 20h52 - Publicado em 24 Maio 2017, 07h38

Publicado no Globo

O encontro aconteceu num salão de hotel, em São Paulo, no início da noite de sexta-feira 24 de março.

— Dois assuntos, rapidinho — disse Joesley Batista, acionista-controlador do grupo JBS. — Sua irmã teve lá…

— Obrigado por ter recebido ela — agradeceu Aécio Neves, senador do PSDB de Minas.

— Ela me falou de fazer dois milhões para troca de advogado (…) Eu consigo, das minhas lojinhas… Quinhentos por semana…

Acertam detalhes do pagamento. Joesley avança na conversa:

— Segunda coisa: coincidentemente… Fica super à vontade, porque Andrea [Neves, irmã de Aécio] tinha me falado de um negócio de um apartamento lá da sua mãe [avaliado em R$ 40 milhões]. Ontem, o Dida…

O empresário relata uma conversa com Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras no governo Dilma. Acusado pela Odebrecht de extorsão de R$ 17 milhões, Bendine pedira que Joesley intercedesse junto a Aécio para ser nomeado presidente da Vale, controlada pelo governo e sócios privados, entre eles o grupo Bradesco.

Por ironia, o senador mineiro fora autor do projeto (nº 343/2015) que resultou na Lei das Estatais. O objetivo, escreveu na época, era evitar “desvios e desmandos na gestão” das empresas nas quais o Estado é acionista. A lei tinha menos de três meses de vigência, e o próprio autor já estava empenhado em fraudá-la, como confessou na conversa gravada.

Joesley seguiu contando a conversa com Bendine:

— Então, eu falei assim: “Ô Dida, vamos ser pragmáticos (…) Você arruma um jeito de conseguir oito ‘milhão’ por ano?” Hoje ele mandou a mensagem: “Sim, arrumo”.

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O senador interrompeu:

— Deixa eu te falar: olho no olho (…) Você me ajudou pra caralho. Vou falar pra você, não falei pra ninguém: eu nomeei o presidente da Vale. Nomeei hoje… Eu tô cuidando disso. Ninguém pode saber. Mas como eu tenho liberdade com o cara… A Vale tem um quadro enorme, uma puta diretoria.

— O Dida é bom executivo — disse Joesley.

Aécio retomou:

— Eu faço pra te atender, porque, no negócio da minha mãe… A minha mãe tem um apartamento no Rio de Janeiro que vale um aluguel de 50 pratas, é uma cobertura dúplex, com piscina e o caralho… Mas vamos deixar de stand-by, mais pra frente.

Continuou:

— Presidência [da Vale] não dá. Eu consegui fazer um negócio raro pra caralho: botei um cara de dentro, do head hunter. Vai ser anunciado segunda-feira… O Temer não sabe nem o nome dele. Confiou em mim essa porra. O Trabuco e o Caffarelli estão sabendo. Fechamos hoje… Tem que ver se encaixo ele [Bendine] em alguma coisa. Pra não parecer que eu tô nomeando um cara pra ganhar uma grana, viu?

Joesley concordou. Aécio sugeriu-lhe uma resposta:

— Pensa um pouco, porque ele tá disposto a voltar a conversar comigo. Esquece aquele negócio daquele valor, ele não quer nem ouvir falar nisso, entendeu?

O senador complementou:

— Faz isso pra gente que eu vou ficar feliz. A outra agenda é pra gente falar daqui um mês. A gente fala dessa agenda do apartamento, do aluguel, não é?… Espera um pouco que nós vamos dar uma limpa lá [na Vale]. Minha coisa é com você. Se conseguir botar [Bendine], vou botar por você.

O senador mineiro se colocou no topo da lista de cassações por corrupção.

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