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J.R. Guzzo: Falta combinar

Os comunicadores estão cada vez mais convencidos de que a sua maneira de ver o mundo é a melhor

Publicado na edição impressa de VEJA

Os meios de comunicação, no Brasil e numa porção de países do Primeiro Mundo, muito civilizados, prósperos e democráticos, estão com uma doença que pelo jeito não tem cura. Publicam notícias, comentários e “conteúdo” segundo uma tábua de mandamentos que não deixa nenhuma dúvida sobre o que está certo e o que está errado, o que é bom e o que é ruim, o que é permitido e o que deveria ser proibido – só que não combinam com o público se ele próprio, o público, está de acordo com isso tudo. Os comunicadores estão cada vez mais convencidos de que a sua maneira de ver o mundo é a melhor, não apenas para o mundo, mas para leitores, espectadores e ouvintes; não parecem ter nenhuma dúvida a respeito.

O resultado é que estão sendo cada vez menos representativos do público que imaginam representar. Dão informações que esse público não está interessado em receber e opiniões que não está disposto a compartilhar. Ensinam coisas que ele não quer aprender. Falam de valores que não são os seus – ou não necessariamente os seus. Torcem por causas que não são obrigatoriamente as suas. Elogiam uma série de comportamentos, condenam outros tantos, e em ambos os casos deixam uma advertência clara: é assim que nós, órgãos de comunicação, esperamos que vocês, público, se comportem. Só existem duas maneiras de avaliar as coisas neste mundo. Uma é a maneira errada. A outra é a nossa. Qual é a surpresa, então, em que a mídia esteja com tantos problemas?

Não é preciso, para ver o tamanho do problema, recorrer a casos extremos como a eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos. Depois de atacar a sua candidatura como o pior momento da humanidade desde a ­vinda da peste negra, a imprensa americana e a internacional têm certeza, agora, de que sua vitória nos levará de volta à Idade da Pedra. Deveria estar mais do que óbvio, se fosse assim mesmo, que só um débil mental votaria nesse homem. Mas é claro que não foi isso que aconteceu, como é claro que ninguém está em pânico só porque a imprensa diz que todo mundo deveria estar em pânico.

No Brasil de hoje, então, o descolamento entre meios de comunicação e público parece caminhar para o modo mais extremo. O que dizer quando nas últimas eleições para prefeito os vencedores nas duas maiores cidades do Brasil foram justo os dois candidatos mais detestados pela mídia? Estão operando lado a lado, aí, duas linguagens opostas – a dos jornalistas e a de dezenas de milhões de cidadãos comuns.

Os exemplos se aplicam a um mundo de coisas. Os comunicadores, em sua maioria, são a favor da ocupação de escolas por grupos de organizações de estudantes, ou a veem com compreensão quase ilimitada; fazem um voto de confiança sem restrições no idealismo dos jovens e sua vontade de reformar o nosso ensino. São a favor da ocupação dos espaços públicos por marginais de todo tipo – acham que seu direito é maior que o direito do restante da população de utilizar em paz o mesmo espaço. São a favor de praticamente todo tipo de invasão (que chamam de “ocupação”), de lugar público ou privado; são contra a liberação desses locais pela polícia, mesmo com ordem judicial, e sua devolução aos legítimos donos; estão convencidos de que a polícia, sem exceção, age “com brutalidade”.

Há um critério rigoroso na escolha das palavras. A imprensa fala sempre em “manifestantes”, “militantes”, “estudantes”, “desabrigados” e até em “camponeses” – nunca, em nenhum caso, são “invasores”. Não fala mais “favela”, palavra hoje condenada como preconceituosa, elitizante e fascista; tem de ser “comunidade”. A imprensa brasileira continua falando do golpe militar de 1964 como se fosse algo que aconteceu ontem, e alerta para os “perigos” de se voltar, a qualquer momento, à mesma situação; esquece que só tinham chegado à maioridade, em 1964, pessoas que têm hoje pelo menos 70 anos de idade.

Nossa mídia dá a entender, cada vez mais, que ter um automóvel é uma falha moral – e que o importante, hoje, não é a propriedade, e sim o uso do veículo. Jamais lhe ocorre que para milhões de brasileiros o carro é um instrumento de liberdade, e sua propriedade um sonho individual importante. Ao contrário da imprensa, a população não acha que o problema do Brasil é ter gente de mais na cadeia; acha que é ter gente de menos. Não acha que o principal problema da segurança pública seja a polícia – acha que são os bandidos. Não acha que a fé evangélica seja uma ameaça.

Dá para escrever um “Manual de Redação” inteirinho com essas regras. Só que não são as regras do público.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Robson Pierè

    Por isso que eu digo sempre e explico aos meus colegas, não me fale da ditadura, estamos sempre a nível de ditadura.Quando temos que aceitar ridículas e safadas posições políticas e nada acontece, o que é? Ditadura…Quando todo mundo vira escravo do politicamente correto imposto pelas minorias o que é? Ditadura….

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  2. Comentado por:

    JRG-1

    Caro CLAUDIO
    Respondendo sua dúvida: vivo em São Paulo, SP. De fato, não sinto diretamente, no meu dia-a-dia, nenhum efeito da eleição americana. O leitor, morando nos Estados Unidos, com certeza está em condições de avaliar muito bem essa questão.

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  3. Comentado por:

    JRG-2

    Caro L.A.TINOCO DE AZEVEDO
    Não tenho comparecido às conversas com Augusto Nunes na “TV Veja” por estar em convalescença após problemas de saúde. Espero me recuperar, no devido tempo, para participar de novo. Grato !

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  4. Comentado por:

    Luciene

    Nunca comentei qualquer publicação da Veja, mas esta merece! Parabéns pelo excelente texto, Guzzo! Estamos vivendo uma situação realmente preocupante e parecem não entender a linguagem da sociedade que está cansada de ser manipulada. Hoje ouvi um comentário do Caio Blinder sobre as eleições na Europa que me deu vergonha alheia. RIP imprensa!

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  5. Comentado por:

    Mauro

    Excelente, texto impecável.

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  6. Comentado por:

    David Oliveira

    Belo texto! Parece que a grande mídia vive numa bolha, eles realmente não conhecem o mundo real.

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  7. Comentado por:

    Paulão

    Senhor Guzzo,
    Muito obrigado pelo seu texto, que, embora pareça refletir a obviedade, é um tema pouco falado e escrito na imprensa atual.
    Até as empresas jornalísticas consideradas golpistas pelos sectários esquerdopatas apresentam esse mesmo comportamento covarde e estupidamente correto, de tratar invasões como ocupações, de chamar assassinos confessos de suspeitos, etc, etc.
    Tenho certeza que seu excelente texto servirá para abrir os olhos e as mentes de muitas pessoas, embora eu não tenha esperanças de que os comunicadores barbudinhos, de cabeça-feita nas escolas esquerdopatas de jornalismo, venham a mudar de comportamento no curto prazo.
    Um dia, quem sabe…

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  8. Comentado por:

    Alan

    Artigo lúcido, equilibrado, que só livres pensadores são capazes de redigir.

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  9. Comentado por:

    sergio

    Até que enfim alguém escreve alguma coisa verdadeira.Gota no oceano.Estamos fritos.

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