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Imagens em Movimento: Vinte minutos de pura poesia

SYLVIO ROCHA Sombras que se tocam e caminham de mãos dadas. Close de dedos que acarinham. A pele. Imagens subjetivas. Delicadamente, a câmera sai detrás da cabeça de Vera, exibe seu perfil e mostra um beijo. E outro beijo. É o prenúncio da narrativa. Vamos entrar no universo desse casal e conhecer uma história de […]

SYLVIO ROCHA

Sombras que se tocam e caminham de mãos dadas. Close de dedos que acarinham. A pele. Imagens subjetivas. Delicadamente, a câmera sai detrás da cabeça de Vera, exibe seu perfil e mostra um beijo. E outro beijo. É o prenúncio da narrativa. Vamos entrar no universo desse casal e conhecer uma história de cumplicidade. O documentário é sobre o amor, sobre duas vidas que se entrelaçam e que não podem mais separar-se (ou nunca puderam). A diretora do filme, Petra Costa, filma seus avós, Vera e Gabriel Andrade, juntos há mais de seis décadas.

Apimentando a calorosa discussão da relação entre documentário e ficção, Olhos de Ressaca conta como foi a construção deste casamento que deu certo – uma raridade nos tempos modernos. O filme permite entrar numa intimidade onde conversas eram ditas em código pelo rádio para não soprar para o mundo seu real significado, um olhar expressa mais sentimentos do que uma novela inteira e a saudade de um abraço fala tão alto quanto a palavra que pede para sair e não tem força para deixar a boca. Com a maturidade também vem uma percepção maior da vida e das pessoas, e os momentos de cumplicidade com o parceiro são ainda mais especiais.

O filme é construído com a voz do casal lendo poesia e contando a sua história. Em nenhum momento vemos a entrevista. A relação entre o entrevistador e o entrevistado é camuflada. As imagens são montadas a partir de um garimpo no acervo da família, de cenas posadas e de figuras poéticas abstratas. O resultado é uma fusão do mundo real com o dos sonhos. A mistura nos leva, de maneira não explícita, ao caminho da memória. As imagens se juntam com a narração e o que vemos é o sentimento. Sentimento de uma neta que admira e respeita os avós e que escolhe dividir um olhar sobre um pedaço de suas vidas. Um filme pessoal e poderoso.

São vinte minutos de pura poesia. Um documentário plástico e autoral que caminha no melhor sentido do cinema de linguagem e de sensação. A direção de fotografia é assinada por Eryk Rocha e a montagem por sua irmã, Ava Gaitán Rocha, que seguramente influenciaram a obra. Na trilha sonora vale destacar a peça de Vitor Araujo, Valsa para Lua, que também será usada no primeiro longa da diretora, Elena.

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  1. Comentado por:

    Luzia

    Lindo filme! Emocionante, mesmo. O que conta na vida são os afetos verdadeiros.

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  2. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Filme maravilhoso, deixa a alma da gente com água na boca. As fotos olhando para o agora numa sobreposição de tempos com ecos do futuro, os filmes dentro do filme e os trechos com as vozes em off, portadoras de hálito e calor, misturam ficção e documentário, mas sem os confundir. Talvez documentários, criando e ensejando sentidos a partir das escolhas narrativas, não sejam imunes a bolhas de ficção; talvez a vida seja uma verdade ficcional ou uma ficção realista, não sei. Mas sei que há o amor. Ainda que não fosse tão curta a vida para tão longo amor (como Camões canta o de Jacó por Raquel) ou ainda que eterno na brevidade que durar (como o poetinha de tantos amores nos ensinou), o amor é de tal modo fundamental que sermos capazes amar, ainda que não correspondidos ou ressentir-se da falta de um amor, já impede que caminhemos vazios. O vazio que deixa a vida aguada, pequena e tola. O amor é bom até como assunto, adoro falar dele, e melhora as pessoas: o que mais, além do seu amor por ela, tornaria adorável aquela criatura na sua frente segurando a xícara com o dedo mínimo levantado ou bagunçando todo o seu jornal antes de você o ler? Claro que nem todas uniões duram a vida toda, algumas não resistem ao fim do amor e alguns amores teimam em sobreviver a uniões desfeitas ou jamais concretizadas. Mas, creio, o drama verdadeiro é a incapacidade de amar. Parabéns aos realizadores e aos protagonistas do filme e obrigada à coluna e ao Sylvio por trazê-los a nós.

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  3. Comentado por:

    Antonio Marmo

    Sorry…there was an issue with playback…é o aviso que vem.
    Caro Antônio Marmo, aqui o link do vídeo está normal. Tente por este endereço: http://vimeo.com/48556629. Abraços, Branca Nunes

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  4. Comentado por:

    Live7Capoeira

    Lindo filme.

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