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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Imagens em Movimento: A voz e a cara do morro

SYLVIO DO AMARAL ROCHA Quem não gosta do samba bom sujeito não é / Ou é ruim da cabeça ou doente do pé, cantou Dorival Caymmi pela primeira vez em 1940, quando compôs Samba da Minha Terra e criou o que se tornaria um dos mais repetidos refrãos da música popular brasileira. É com essas palavras na […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 04h23 - Publicado em 22 fev 2014, 21h14

NELSON

SYLVIO DO AMARAL ROCHA

Quem não gosta do samba bom sujeito não é / Ou é ruim da cabeça ou doente do pé, cantou Dorival Caymmi pela primeira vez em 1940, quando compôs Samba da Minha Terra e criou o que se tornaria um dos mais repetidos refrãos da música popular brasileira. É com essas palavras na cabeça que se deve assistir ao quase desconhecido Nelson Cavaquinho, de 1969, dirigido por Leon Hirszman, um dos expoentes do Cinema Novo. O intuito do documentário era retratar, por meio do samba, a cultura e as histórias daqueles que vivem à margem da sociedade e servir de contraponto a Garota de Ipanema — que tem o roteiro assinado por Eduardo Coutinho, Glauber Rocha, Vinicius de Moraes e pelo próprio Hirszman. Filmado dois anos antes, o longa de ficção mostrava a vida de uma garota da Zona Sul carioca.

Hirszman, que aos 32 anos já reunia oito filmes no currículo, exibe em Nelson Cavaquinho, de maneira crua e direta, o sambista no bar, no terreiro, em casa. A presença da câmera causa nos outros personagens reações ora de curiosidade ora de incômodo. O protagonista, entretanto, parece não se incomodar com a equipe de filmagem. Nelson aparece o tempo todo com um cigarro aceso, dedilhando o violão e, embora conceda apenas um pequeno depoimento, enriquece as imagens com seus olhos cheios de álcool e a voz desafinada, rouca e inesquecível. Entre os versos cantarolados no filme pelo filósofo do samba estão aqueles que foram considerados por Manuel Bandeira os mais belos já escritos na língua portuguesa: “Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”, da música A flor e o espinho, composta por Nelson Cavaquinho, em parceria com Guilherme de Brito e Alcides Caminha.

Filmado em preto e branco, Nelson Cavaquinho tem a exemplar fotografia de Mario Carneiro, que trabalhara em Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade, e a montagem de Eduardo Escorel, que fez o corte de Terra em Transe, de Glauber Rocha. São 13 minutos que unem o samba e o cinema. O curto episódio na vida de Nelson Antônio da Silva, um dos maiores sambistas de todos os tempos, é muito mais do que um documento histórico. É uma preciosidade da cultura brasileira.

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