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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Grandiloquência e hidrantes vazios

Acima da fumaça palavrosa dos calhordas de ocasião, vemos que os brasileiros são um agrupamento humano que não se cultiva como nação

Por Valentina de Botas - Atualizado em 30 jul 2020, 20h20 - Publicado em 6 set 2018, 07h24

Valentina de Botas

A desolação é tão grande que nem consigo me alongar na discurseira pós-museu-incendiado tão grandiloquente quanto estéril diante dessa obra em aberto que é nosso atraso construído com o empenho cotidiano das elites, das autoridades e da população. Sim, da população, pois, se “o governo não se importa”, é porque a sociedade não se importa: governos, qualquer um, só se importam (quando o fazem) se a sociedade se importar. Nesses três dias, o Brasil da gambiarra reunido em torno do fogo se vê em partes que se estranham e se acusam como se não formassem um todo em chamas. Dilma Rousseff, ainda solta, aquela cuja parvoíce nos impôs um Aloizio Mercadante como ministro da Educação que nos ensinou que museu nada tem a ver com educação, aquela que preferiu superfaturar estádios a impedir que a linda morada da nossa ilustre Luzia se incendiasse com a própria dentro, veio culpar o “golpe”, Meirelles e o PSDB (!?). Esquerdistas e antigovernistas culpam a PEC do Teto que mal completou um ano enquanto sobrevive ao tempo o abandono do Museu Nacional do Rio, de outros museus e aparelhos para a cultura e, consequentemente, daquilo que uma nação é simbólica e concretamente.

Artistas de esquerda estão inconsoláveis diante “do retrato deste Brasil assaltado pela direita” depois de terem se manifestado durante os governos do PT apenas quando viram ameaçada a era da mediocridade instalada pelo petismo que consumava um assalto inédito à nossa grana, às instituições, à decência e também à cultura. Enquanto era avermelhada a fachada do botequim inaugurado por Lula e sucateado por Dilma, tais artistas não se dignaram a uma passeata, uma faixa ou um mísero tuíte em favor da arte, da cultura, da memória. Estes mesmos militantes desmemoriados do atraso cult, empalhados pela ideologia caquética que só deu errado onde foi tentada e que coloniza a cabeça dos dirigentes da UFRJ.

Não sei se o incêndio do Museu é retrato de alguma coisa, o que sei é que, acima da fumaça palavrosa dos calhordas de ocasião, vemos que os brasileiros são um agrupamento humano que não se cultiva como nação. Foi no Rio, poderia ter sido em São Paulo, Piauí, Mato Grosso ou Paraná. Da falta de saneamento básico em 51% das residências aos privilégios das corporações, passando pela roubalheira e pelo Estado que sobra onde é desnecessário e falta onde é essencial, o Museu Nacional do Rio ardeu na parede da memória que não temos. Um país sem memória não se cultiva como nação e será sempre este work in progress do atraso. Receio que não sairemos desse lugar enquanto não celebrarmos nossos símbolos (bandeiras, hinos, monumentos); preservarmos nosso patrimônio natural (rios, ecossistemas) e arquitetônico; nossa língua quanto ao seu ensino e uso; e nossa gente ─ nós mesmos, aqui e agora, nossos ancestrais, que habitam nossa história como indivíduos, e as gerações que virão. Não se trata de ufanismo bravateiro, mas de exercitar um patriotismo que traduza ou crie um sentimento de pertencimento, que só floresce saneadas divisões radicalizadas num país que, atado ao atraso, faz do novo um fetiche e da história uma ruína.

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No rescaldo, soubemos que o governo federal repassou verba para a UFRJ e que a Universidade não destinou ao Museu a quantia de que ele precisava, autoridades e palpiteiros querem rediscutir a lei Rouanet (que não é ruim, se bem utilizada), criar fundações para administrar todos os museus, privatizar tudo, montar esta e não aquela exposição, fazer e acontecer ─ sem, claro, apontar como fazer e quanto vai custar a racionalidade tardia. Olha, sou uma mulher comum, viu?, não sou ninguém na fila do pão, como fez questão de me lembrar outro dia, num debate, alguém tentando me intimidar. Ele não viu, mas eu ri da tolice inútil tentando ser uma malvadeza. No Brasil, ultimamente rir dói, vamos perdendo um certo jeito de sorrir que tínhamos, não é, meu poeta? Só que é inútil me contarem o que já sei e, nesta fila de pão e circo, na santa paz da minha cultivada irrelevância, me satisfaço se a arquibancada não despencar e se eu puder levar uns pãezinhos para pôr na mesa (os mais torradinhos, moço, com a casquinha saliente para eu ir lambiscando na volta para a casa), como cidadã anônima que produz para pagar o próprio pão e o de quem organiza a fila, faço um lembrete: que tal, para a anunciada revolução de cabo a rabo na postura do país frente a si mesmo e à sua memória, começar verificando a fiação dos museus e abastecendo os hidrantes?

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