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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Grandes Textos: ‘Com a mão na massa (cerebral)’, de Dorrit Harazim

Publicado na edição 58 da revista Piauí DORRIT HARAZIM Existe um quadro do holandês Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri, chamado A Extração da Pedra da Loucura, que foi pintado no fim do século XV. Quatro personagens compõem a cena campestre. De pé, um cirurgião, retratado como charlatão, porta um funil invertido à […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 04h48 - Publicado em 16 dez 2013, 12h01

Publicado na edição 58 da revista Piauí

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DORRIT HARAZIM

Existe um quadro do holandês Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri, chamado A Extração da Pedra da Loucura, que foi pintado no fim do século XV. Quatro personagens compõem a cena campestre. De pé, um cirurgião, retratado como charlatão, porta um funil invertido à guisa de chapéu. A seu lado, há um ajudante e uma anciã pensativa, com um livro na cabeça, talvez simbolizando a verdadeira ciência. Sentado, um doente incauto e assustado é submetido a uma trepanação, a perfuração do crânio por um trépano, instrumento cirúrgico com a função de uma furadeira.

Referências a esse procedimento, usado no tratamento de doenças mentais ou epilepsia, remontam à era neolítica, quando foi desenhado em pinturas rupestres. Na Idade Média, curandeiros garantiam ter extraído de dentro da cabeça do demente as pedras que estariam causando sua loucura. E se guardava o pedaço de crânio retirado, como amuleto contra o mau-olhado. Essa operação de emergência primitiva, talvez a mais antiga de que se tem registro forense, consta do Livro da Cirurgia de 1497, de Hieronymus Braunschweig.

Nas primeiras horas da madrugada de uma terça-feira de fevereiro, Thiago deBellis optou por fazer algo parecido num paciente depositado na emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, na Zona Sul do Rio. Foi uma decisão de alta proficiência, destreza e autoconfiança para um carioca de apenas 29 anos.

Entre os seus companheiros de geração, Thiago de Bellis é tido pelo chefe do Serviço de Neurocirurgia do Miguel Couto, o doutor Ruy Monteiro, como mais do que hábil na realização da craniotomia descompressiva – a retirada parcial do crânio de uma pessoa com trauma e lesão cerebral provocados por acidente.

Embora o procedimento esteja a cinco séculos de distância da trepanação retratada no quadro de Bosch, ele continua a ser feito com instrumentos iguais, estruturalmente, às ferramentas medievais: uma broca e uma serra, só que com materiais e tecnologia contemporâneos.

O osso do crânio é retirado para abrir espaço aos edemas cerebrais provocados pelo trauma, e para que se possa estancar eventuais hemorragias internas. O osso é guardado, não mais como amuleto contra o mau-olhado, mas, para um leigo, de maneira talvez mais surpreendente. A equipe composta naquela madrugada por Thiago de Bellis implantou o osso craniano de 13 centímetros de diâmetro no abdômen do próprio paciente.

Como são excelentes a vascularização e a taxa de gordura do abdômen, o pedaço de osso fica bem conservado ali, sem risco de se deteriorar, até vir a ser reimplantado na cabeça do operado, quando os efeitos do trauma tiverem diminuído e seu quadro geral tiver estabilizado.

O Miguel Couto faz cerca de 800 atendimentos de pronto-socorro por dia. Quem chega andando deve preencher uma ficha de atendimento e passar por uma sala de triagem, onde se decide o que fazer com ele. Se o risco for baixo, o paciente é atendido numa sala do térreo, medicado, observado ali mesmo e despachado. Em caso de risco médio, ele é encaminhado ao 2º andar, onde funciona a emergência clínica. Pessoas com crise hipertensiva, asma aguda ou cólica nefrítica devem seguir o traçado de uma linha amarela pintada no chão até chegar ao setor de emergências não cirúrgicas.

Para o paciente que chega de ambulância, quem carrega a sua maca deve seguir a linha vermelha. Ela o levará ao elevador, ao 2º piso e a um corredor que desemboca numa porta dupla. “Sala de Reanimação”, informa o adesivo afixado na madeira. “Sala de Ressuscitação”, diz um painel mais visível, afixado na parede do corredor. Atrás dela há uma sala com espaço para quatro macas.

O paciente que aporta ali pode estar todo sujo, sangrando, estropiado, com as roupas rasgadas, nu, mas antes de qualquer coisa é entubado, ventilado, oxigenado e monitorado até ser considerado estabilizado – tudo em menos de dez minutos. Feita a primeira avaliação por um cirurgião geral, ou por um residente, é chamada uma equipe (neuro, vascular, ortopedia, a que for mais adequada ao caso) e é aberto um prontuário médico.

Fernando Vasconcelos está no 3º ano de residência em neurocirurgia. Aquela era a sua primeira semana do plantão na equipe de Thiago de Bellis e Paulo Roberto Lobato, neurocirurgião veterano com trinta anos de emergência no Miguel Couto. Por mais que se aprume no jaleco de doutor, Vasconcelos parece um garoto imberbe: tem 25 anos.

“Quando entrei na sala de ressuscitação, vi na maca um senhor agitado, com lesão na face, que não mobilizava de um lado; pensei logo que fosse atropelamento”, contou o residente, tentando relembrar a primeira impressão que lhe causou um dos muitos pacientes anônimos que atendeu naquela semana.

O paciente agitado que foi submetido a uma craniotomia descompressiva por um neurocirurgião de 29 anos, um residente de 25 e um veterano que se aposenta no ano que vem era o jornalista Marcos Sá Correa, editor de Piauí. O trio só soube a identidade do paciente quando ele já havia sido transferido para a Clínica São Vicente e entregue aos cuidados do neurocirurgião mais conceituado do Rio, Paulo Niemeyer Filho.

Hospitais públicos de emergência costumam funcionar bem em qualquer lugar do mundo quando conseguem ignorar ao máximo a notoriedade do paciente. Foi o que ocorreu na capital americana na tarde de 30 de março de 1981. Com apenas 69 dias desde a sua posse na Casa Branca, o presidente Ronald Reagan sofrera um atentado na saída do Hotel Hilton. Seis minutos depois, dava entrada na sala de emergência do Hospital Universitário George Washington com uma bala num dos pulmões, três intravenosas nos braços e a pressão em queda.

Ao ser chamado, o residente William O’Neill, de 30 anos, desceu correndo para a emergência, mas foi agarrado por dois agentes de segurança. “Quem é você?”, rosnaram. “Sou o dr. O’Neill, da equipe de trauma”, respondeu ele, e foi literalmente projetado para dentro da sala, onde deu de cara com um idoso com os lábios cobertos de sangue e a pele acinzentada.

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Um segundo residente ainda jovem, que acompanhava uma emergência na baia ao lado, foi convocado. Ele pôs a máscara de oxigênio no rosto do novo paciente, que o olhou e indagou: “Estou morrendo?” Sem ter ideia de quem se tratava, respondeu que não. Por fim, o cirurgião-chefe do plantão, Wesley Price, também ele um residente, ouviu sirenes, algum tumulto e correu para o setor de emergência. Tinha passado a noite em claro.

“Quem é o paciente?”, perguntou.

“O presidente”, respondeu-lhe alguém.

Topou então com Ronald Reagan na baia 5, nu, com bolsas de fluidos por todos os lados e um urologista tentando inserir um cateter para a retirada de urina.

“Quem está no comando?”, perguntou Price à enfermeira-chefe.

A resposta veio cortante: “Você.”

Segundo o relato eletrizante de Del Quentin Wilber no livro Rawhide Down: The Near Assassination of Ronald Reagan, publicado há três meses nos Estados Unidos, o diretor-geral do Departamento de Cirurgia chegou sete minutos depois. Empunhou um bisturi número 10, no qual não tocava havia tempos, e assumiu a responsabilidade e o risco.

O plantão de Thiago de Bellis no Miguel Couto, às segundas e sextas-feiras, vai das oito horas da noite às oito da manhã. Ele acorda às 5h30, toma banho, faz a barba, toma café e vai no seu Ford Focus de Copacabana até o Hospital Municipal do Andaraí, na Zona Norte, onde faz o 4º ano de residência. Chega antes das sete da manhã e sai na hora que dá. “Pode ser às duas da tarde ou à meia-noite, você acostuma”, explicou.

Nas quartas-feiras, dá outro plantão de 24 horas, também em Andaraí. Aos sábados, ajuda colegas que operam no hospital público de Saracuruna, em Duque de Caxias. E como domingo é dia da namorada, anestesiologista, estar de plantão, ele estuda e prepara as cirurgias eletivas marcadas sempre para as segundas-feiras, no Andaraí.

É uma rotina extenuante, mas corriqueira para quem faz neurocirurgia, a única área da medicina que exige cinco anos de residência – as demais se liquidam em três anos.

Quando dá tempo de passar em casa, entre um plantão e outro, Thiago traça um bife à parmegiana com batata palha, esquentados no micro-ondas do apartamento de dois quartos onde mora com a mãe e o irmão. Quando não dá, funciona à base de copos de Nescau, pão careca com manteiga e queijo de minas.

De Bellis acredita ter batido algum recorde, numa sexta-feira recente, quando fez uma cirurgia das nove da manhã às cinco da tarde, outras duas no seu plantão noturno no Miguel Couto, e dali seguiu direto para Saracuruna, onde operou três pacientes na parte da tarde. “Aí mandei colocar air bags no meu carro, por precaução”, contou.

Também tem tomado mais cuidado consigo mesmo. “Até o ano passado eu ainda fazia wakeboard na Lagoa Rodrigo de Freitas com meu irmão”, admitiu, meio constrangido. (O wakeboard é uma espécie de jet ski, só que sobre uma prancha.) “Fui dar um salto, me arrebentei todo e percebi que não posso quebrar o braço, e muito menos a mão”, acrescentou. Como no ofício é indispensável trabalhar com as duas mãos, e ser quase ambidestro, ele faz exercícios diários com os dedos. Um pouco como o pianista que, para encarar algumas sonatas de Beethoven, precisa cruzar as mãos no teclado para não interromper a fluidez da melodia e do acompanhamento.

Thiago, aliás, na tradição da avó que fizera conservatório, tocou piano até o estágio em que se aprende a Marcha Turca, de Mozart. Aí abandonou o instrumento, assim como abandonou o sonho de ser piloto de avião.

Neto, filho e sobrinho de anestesiologistas (a mãe é advogada), não se lembra de quando nem como caiu na neurocirurgia. “Você já se apaixonou por alguém?”, perguntou, para explicar a opção. “Pois a sensação foi a mesma. Foi de um dia para o outro. É com ela que vou casar.”

Ruy Monteiro, que trabalhou quinze anos na emergência neurocirúrgica do Miguel Couto antes de assumir a chefia do departamento, teve olho clínico quando viu De Bellis pela primeira vez. Disse-lhe, de cara: “Quero alguém para ensinar e para me ajudar. Se for essa sua intenção, bem-vindo. Mas se você for um curioso, que quer passar no hospital de vez em quando para ver coisas interessantes, não me interessa. Se estudar, vai entrar na cirurgia comigo. Se não estudar, dançou.”

Isso foi dito em 28 de setembro de 2002, data que Thiago lembra mais rápido do que o próprio aniversário. É capaz de descrever sensorialmente a euforia de vestir o avental cirúrgico, aprender a escovar unha, mão e braço, e adentrar o centro onde Ruy Monteiro operou um hematoma cerebral e depois um baleado na cabeça.

Dali em diante, toda a sua vida acadêmica, à parte o curso regular de seis anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi no Miguel Couto. Fez ali os seis meses obrigatórios de emergência e a prova do Centro de Terapia Intensiva, que à época não era obrigatória, mas quis fazer assim mesmo. “Não adianta nada fazer um trabalho brilhante na sala de cirurgia e mandar o paciente para um CTI ruim”, explicou. “Não há boa cirurgia sem um bom pós-operatório, e achei que devia conhecer melhor o outro lado.”

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