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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Estamos em 2019? Talvez, sim

Dezembro veio do Latim december, o décimo mês. Janeiro e fevereiro foram acrescentados na reforma do calendário feita por Numa Pompílio

Por Deonísio da Silva - Atualizado em 13 Jan 2019, 11h25 - Publicado em 13 Jan 2019, 11h23

Deonísio da Silva

Para dar minha conta feita a tempo,/ O tempo me foi dado e não fiz conta,/ Não quis, sobrando tempo, fazer conta,/ Hoje, quero acertar conta, e não há tempo”.

O autor destes versos foi um capitão do exército português que deixou a vida militar para tornar-se padre letrado e viveu na Bahia já com o novo nome de Frei António das Chagas. Ele conclui assim o seu soneto: “Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,/ Quando o tempo chegar, de prestar conta,/ Chorarão, como eu, o não ter tempo” (você pode ouvir o poema aqui).

Estamos em janeiro, do Latim januarius, de Janus, deus das portas na Roma Antiga. Ele tinha duas caras: uma na frente, como todos nós; outra na nuca, como nenhum de nós.

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Para proteger o futuro, Jano olhava também para o passado e via o que tinha acontecido em dezembro, o último mês do ano. Uma porta se fechava, como se cantasse “Adeus, Ano Velho”, e outra se abria, como se saudasse “Feliz Ano Novo”.

Por meio desta metáfora com o deus Jano, os antigos romanos viam as coisas como se o passado anunciasse o futuro. Esta é também a ideia de fazer o cadastro de pessoas e de instituições, pois foram eles também que criaram o binômio pessoa física e pessoa jurídica, uma vez que as pessoas e as instituições costumam pautar suas existências por repetições e até por instabilidades semelhantes às dos astros, que fazem a mesma rota aparentemente estável todos os dias e nos indicam com sua viagem a nossa própria viagem.

Dezembro também tem sua história. Veio do Latim december, o décimo mês. Janeiro e fevereiro foram acrescentados na reforma do calendário feita por Numa Pompílio, o segundo rei de Roma, em 713 a.C., portanto quarenta anos ab urbe condita, expressão do Latim para dizer “desde a fundação da cidade”, também abreviada em AUC ou a.u.c.

Até então, o ano começava em março. Além de dezembro, os étimos dos meses de setembro, outubro e novembro atestam que o ano teve originalmente dez meses e que eles eram o sétimo, o oitavo e o nono mês: september, october, november. Portanto, contamos o tempo a partir do nascimento de Jesus, origem da expressão abreviada em a.C., antes de Cristo.

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Esta inovação foi introduzida no século VI por um monge chamado Dionísio, que viveu onde hoje fica a Romênia. Muito bom em matemática e em astronomia, por encomenda do Vaticano, fixou a data do nascimento de Jesus no ano 753 da fundação de Roma, criando a expressão Anno Domini, Ano do Senhor.

O novo calendário, que dominaria o mundo a partir do século IV, foi baixado no ano 284 da Era de Dioclesiano, dali por diante designado 532 A.D., isto é, 532 anos depois de Cristo. Com o tempo, tirou-se a expressão A.D. e foram mantidas apenas as iniciais a.C. para os eventos ocorridos antes de Cristo.

O novo calendário tornou-se hegemônico porque o imperador Constantino, depois da batalha em que viu no céu um feixe de luz cercando a cruz com a frase In hoc signo vinces (com este sinal vencerás), tinha baixado um decreto de tolerância religiosa para o cristianismo, a seguir tornado religião exclusiva do império por Teodósio I ainda no mesmo século.

Em 1582, o papa Gregório XIII percebeu que as alterações feitas no ano 46 a.C. por Júlio César, chefe militar e estadista da Roma antiga, estavam com uma defasagem de dez dias. Assessorado por astrônomos, tal como havia feito o autor de De Bello Gallico (A Guerra Gaulesa), o Sumo Pontífice baixou a bula Inter gravissimas, retirando dez dias do novo calendário.

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Assim, o dia seguinte a 4 de outubro não foi o dia 5, mas, sim, o dia 15. Esta reforma teve, entre outros, os objetivos de fixar corretamente a data da Páscoa e o começo das estações, pois a diferença vinha causando desordens nas festas religiosas e na agricultura.

É por isso que estamos em 2019 e é por isso também que nosso calendário é chamado gregoriano.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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