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Dirceu sacou a lágrima do coldre

Numa entrevista concedida há dois anos, a relações públicas Evanise Santos, mulher de José Dirceu desde 2003, contou que resolvera dedicar-se ao que chamou de  “gerenciamento de imagem de políticos e empresas”. Eva, como é conhecida entre os amigos, revelou que já tinha um cliente: o marido. Foi ela quem o convencera a fazer um […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 10h17 - Publicado em 4 nov 2011, 09h01

Numa entrevista concedida há dois anos, a relações públicas Evanise Santos, mulher de José Dirceu desde 2003, contou que resolvera dedicar-se ao que chamou de  “gerenciamento de imagem de políticos e empresas”. Eva, como é conhecida entre os amigos, revelou que já tinha um cliente: o marido. Foi ela quem o convencera a fazer um implante de cabelo, interromper a rotina sedentária com exercícios físicos e até aparecer numa festa organizada no mês anterior por Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho. Tudo era parte da luta para melhorar a imagem do político com quem vivia.

A luta continua, comprovam duas notas publicadas na Folha desta quinta-feira pela colunista Mônica Bergamo. Ambas sopradas pela gerente de marketing, ambas tentam deixar o freguês melhor no retrato. A primeira, sob o título SOL, diz o seguinte:

José Dirceu e sua namorada, Eva, passaram o Dia das Bruxas na pousada Triboju, em Fernando de Noronha, fechada para eles e outros 25 amigos. O grupo, na verdade, comemorou o aniversário dela, que pesquisa a mudança do ciclo lunar para escolher o local da celebração. Os donos da pousada, Ricardo e Durval Lelys, do Asa de Águia, deram as diárias de presente aos convidados de Eva.

São vários recados embutidos em 15 linhas de jornal. Dirceu é marido amantíssimo. Dirceu é bom companheiro.  Dirceu tem milhões de amigos (e pelo menos 25 do peito). Dirceu é tão sensível que, para derreter a patroa, é capaz de subordinar a agenda ao ciclo lunar. O dono da pousada gosta tanto do casal que patrocina as festas de aniversário de Eva e hospeda de graça os convidados. Não é pouca coisa. Mas não é tudo: a primeira nota é sobretudo uma preparação para a segunda, intitulada LÁGRIMA e separada em duas partes por uma estrelinha que acentua a dramaticidade da pausa. Confira:

Foi lá que souberam do câncer de Lula.

(espaço com a estrelinha)

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Eva disse aos amigos que, pela primeira vez em quase uma década, viu Dirceu chorar.

Reparem no “disse aos amigos”. Pegaria mal a única testemunha da cena raríssima, ainda por cima casada com o protagonista, sair espalhando pelos jornais como foi esse instante tão doloroso. Melhor camuflar a fonte primária, concordaram a informante e a colunista. E o texto fez de conta que a leal parceira do guerrilheiro durão revelou apenas aos muito amigos a história da lágrima ─ um monumento líquido aos laços estreitíssimos de afeto que unem Dirceu e Lula. Os amigos de Eva é que não souberam guardar segredo, certo?

Errado, berra o prontuário do réu à espera de julgamento no Supremo Tribunal Federal. Oportunismo de quinta é incurável, grita o resultado de uma consulta ligeira  à coleção da mesma Folha de S. Paulo. Na edição de 28 de setembro de 2003, por exemplo, o jornalista que acompanhou a viagem de Lula e Dirceu a Havana descreve a cena ocorrida na véspera, no Palácio da Revolução, durante o encontro da dupla com Fidel Castro:

O ministro José Dirceu (Casa Civil) chegou a chorar quando se encontrou com o ditador cubano, Fidel Castro. Dirceu tentou até evitar que os presentes notassem o que estava acontecendo. Ele se virou de costas para os jornalistas na hora de enxugar as lágrimas com um lenço. Em seguida, respirou de forma profunda e pausada durante cerca de cinco minutos. O ministro considera Cuba sua segunda pátria e diz publicamente que deve a vida a Fidel Castro, que o acolheu no exílio.

É sempre assim quando encontra Fidel. “Para mim ele é como um pai”, explicou depois de recuperar-se do vendaval de emoções. Em junho deste ano, agora formando uma trinca com Lula e o companheiro Franklin Martins, Dirceu voltou a encontrar o ditador-de-Adidas em Havana. Se não mentiu em 2003, deve-se deduzir que chorou há apenas quatro meses. Ou não contou para a mulher ou a gerente de imagem achou melhor poupar o ex-presidente de mais abalos.

Até agora, o comandante do bando de mensaleiros só sacava a lágrima do coldre para homenagear o pai honorário. Se Eva disse a verdade, então o chorão seletivo enxerga em Lula uma espécie de irmão. Ou mãe. A acusação é gravíssima. Não pode ser feita sem provas, sobretudo quando endereçada a alguém que precisa cuidar da saúde.

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