Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Dilma esquece a contagem dos mortos para contar vantagem e troca a carranca de luto pelo sorriso de aeromoça de Tupolev

Quem ensinou a Dilma Rousseff que sisudez não rima com política precisa explicar-lhe urgentemente que, em certas ocasiões, a mostra de todos os dentes pode ser mais perturbadora que a carranca de bedel da escolinha de ministros. Foi assim na visita ao túmulo de Tancredo Neves, quando a candidata em campanha resolveu estrear num cemitério […]

Quem ensinou a Dilma Rousseff que sisudez não rima com política precisa explicar-lhe urgentemente que, em certas ocasiões, a mostra de todos os dentes pode ser mais perturbadora que a carranca de bedel da escolinha de ministros. Foi assim na visita ao túmulo de Tancredo Neves, quando a candidata em campanha resolveu estrear num cemitério o sorriso de aeromoça de Tupolev. Foi assim na quinta-feira, quando reprisou a alegria fora de hora na visita ao Centro de Operações do Rio.

Enquanto prossegue a contagem dos mortos na Região Serrana, a presidente, escoltada pelo também sorridente Sérgio Cabral, gastou o dia contando vantagem em parceria com Eduardo Paes. Teve de conter a euforia ao ouvir do prefeito que a cidade será monitorada 24 horas por dia pelo centro, concebido para identificar a tempo quaisquer perigos que possam resultar em situações de crise e exigir medidas de emergência. Desastres naturais semelhantes ao que devastou a Região Serrana, por exemplo, serão  detectados com dois dias de antecedência.

“Aqui estamos vendo o futuro: vocês estão um passo à frente do Brasil”, festejou Dilma Rousseff. É outro palavrório cretino, mas não deixa de fazer sentido. Por estarem um passo à frente do resto do país, os cariocas terão 48 horas para tentar salvar-se por conta própria, simultaneamente, do dilúvio e da incompetência dos pais-da-pátria — uma associação letal cujo poder de destruição os habitantes da Região Serrana descobriram tarde demais.

Agora o país inteiro sabe que é inútil pedir socorro ao governo. Melhor rezar para não chover. O Sistema Nacional de Defesa Civil inventado por Lula só existe na papelada registrada em cartório que descreve um país do faz-de-conta. O Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais prometido há dias por Dilma vai demorar pelo menos quatro anos. Se o Centro de Operações do Rio localizar uma tragédia em gestação, o governo federal não fará mais que antecipar os votos de solidariedade às famílias atingidas pela inclemência da natureza. O massacre ocorrido na Região Serrana foi anunciado não com dois dias de antecedência, mas quase mil. Nenhum dos governantes fez algo além de promessas.

Na quinta-feira, Dilma, Cabral e Paes estavam sem tempo para os mortos deste  janeiro. (Eram 847 no fim da tarde de sexta-feira. Logo passarão de mil). A festinha no Centro de Operações foi armada para mostrar aos cartolas muito vivos da Fifa e do Comitê Olímpico que a cidade mais bela do mundo é também a mais segura. Está pronta para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Com chuva ou sem chuva.

O espetáculo do cinismo e da ganância não pode parar. O sorriso da turma ajuda a compor a expressão beatífica de quem sonha com verdes campos de dólares ou descansa à sombra das licitações em flor.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    djalma luiz f de almeida

    Augusto nunes, não sei quem o sre é …
    Também não sei quem você é. Empatou.

    Curtir

  2. Comentado por:

    ozorio de aquino

    SOBRE O QUADRO POLITICO ATUAL. RESUME-SE A FRASE DO REVOLUCIONARIO SICILIANO: ” QUANDO SE BUSCA LIBERDADE, SE LUTA. QUANDO SE BUSCA PODER, SE TRAI E SE ALIA”.VIVEMOS INFELIZMENTE, CONSTATADO QUE JUDAS NAO SERIA TRAIDOR POIS NUNCA FOI DISCIPULO. AS VEZES EU ME PERGUNTO! SE O SAUDOSO JOAO AMAZONAS. VIVENCIA-SE ESSE OITO ANOS E UM MES DE GOVERNO. COM CERTEZA ELE DIRIA QUE CONTRA INIMIGO SE LUTA. AOS TRAIDORES SE REFUGIA-SE. ALIAIS NAO E TRAIDORA!

    Curtir

  3. Comentado por:

    Valentina de Botas

    Seu texto, Augusto querido, cuida de duas tragédias: a da natureza, previsível e, por isso, ainda que não inevitável, certamente poderia ter tido consequências menos dramáticas; porém a ampliar-lhes a gravidade há a segunda tragédia – um governo criminosamente inepto e espantosamente frio com o sofrimento humano que, então, aprofunda. O assunto não tem lugar para piadas, nem você, digno que é, faria graça com coisas assim, pois a seriedade do profissional está presente mesmo nos seus textos mais cômicos. Profissionalismo, eis o nome da coisa. Mas preciso dizer que, em meio ao monturo moral e administrativo que o texto ilumina, reluz a definição ‘aeromoça de Tupolev’. Sensacional. Quem nunca viu ou ouviu falar de Dilma a reconheceria instantaneamente a partir dessa definição verbal-imagética. Sabemos quem é o comandante biriteiro, o gênio do mal que encanta até mesmo as plateias vítimas das tragédias. Quem pode entender? Além dessas imagens perfeitas que você cria, como ‘áspero colosso’ para a nossa querida Sampa, adoro os títulos dos seus posts. São eles mesmos já um texto e plenos de uma força vital que quanto mais um Augusto Nunes vibrante a verte neles, mais vibrante é o Augusto Nunes do texto seguinte. Uma fome plenamente insaciável, um vício benigno, um nunca se esgotar. Um gênio do bem admirado até pelas plateias do gênio do mal. Quem pode entender? Não sei, só sei que todos queremos mais e sempre. Você também. Um beijo
    Guardei, Valentina. Um beijo

    Curtir

  4. Comentado por:

    vicente,

    Estão mais para os três patetas?

    Curtir

  5. Comentado por:

    aline

    É preciso amar as pessoas
    Como se não houvesse amanhã
    Por que se você parar
    Pra pensar
    Na verdade não há.

    Curtir