Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Deonísio da Silva: Vai catar coquinho!

O brasileiro anda muito raivoso. A causa principal pode ser a aliança nefasta entre políticos e empresários

 (reprodução/Reprodução)

O presidente Michel Temer reiterou que “precisamos pacificar o país” e lamentou “uma certa raivosidade que permeia a consciência nacional”, lembrando que somos conhecidos por nossa cordialidade.

A palavra é nova, mas, como tantas outras ainda por vir, jazia em estado virtual ou latente. Raiva e raivoso já eram conhecidas e usadas, mas raivosidade…

Por ínvios caminhos, o presidente acertou em cheio: o brasileiro anda muito raivoso. Provavelmente nunca sentiu tanta raiva quanto hoje. E a causa principal pode ser a aliança nefasta entre políticos e empresários, cujas trapaças a mídia e o judiciário nunca deixaram tão claras quanto hoje.

A tecnologia deu — ou melhor, vendeu — meios e modos para o povo inteirar-se do que antes ocorria “no escurinho do cinema”, quando eles “chupando dropes de anis” ficavam “longe de qualquer problema” e “perto de um final feliz”, que, aliás, para eles sempre veio. Para o povo, não!

Continuando com Rita Lee e Roberto de Carvalho, “mas de repente o filme pifou/ e a turma toda logo vaiou/ acenderam as luzes, cruzes!/ que flagra, que flagra, que flagra!”.

A língua portuguesa falada e escrita no Brasil tem várias frases ou locuções para expressar a raiva, como abaixo transcritas para deleite dos nossos leitores. Expliquemos uma, pelo menos, a do título.

VAI CATAR COQUINHO é mais antiga do que parece. Provavelmente nasceu da ordem maluca de Calígula, o insensato imperador romano, assassinado aos 28 anos de idade, no século I de nossa era.

Comandando o poderoso exército romano na campanha da Britânia, ele, num daqueles ataques de raiva que tanto o caracterizaram, ordenou que seus soldados catassem conchinhas na praia.

Conchinha é conchula em latim. Conchinha numa língua pouco afeita à escrita durante tantos séculos, vinda do Latim vulgar, mais falado do que escrito, foi substituída por coquinho na expressão.

Lendária a explicação? Lendário também o registro, pois ao cruel soberano foram atribuídas tantas coisas que se tornou difícil dizer quais são verdadeiras, quais são falsas. Mas o certo é que, em momentos de raiva, quando alguém enche nossa paciência, só nos resta, em vez de prosseguir com argumentos que a pessoa não quer entender, mandá-la catar coquinho, isto é, fazer algo inútil, mas, que tem o condão de parar de nos incomodar.

Abaixo, outras expressões em momentos de raiva: perder a esportiva, mandar pentear macacos, ficar de cara amarrada, subir nas tamancas ou nos tamancos, sair do sério, perder a linha, erguer uma tromba no nariz, ficar bicudo, tocar fogo no circo, cansar a beleza, chamar nas esporas, colocar o dedo na ferida, estrilar, ficar de cabeça quente, dar nos nervos, mandar às favas, perder as estribeiras, afogar as mágoas, pegar no pé, tornar-se uma pilha de nervos, ficar com os nervos à flor da pele, ficar puto da vida, ficar com cara de quem comeu e não gostou, ficar com cara de poucos amigos, ficar com a moléstia, ferver o sangue nas veias, cuspir ou soltar fogo pelas ventas, atravessar alguma coisa na garganta, mandar plantar (ou descascar) batatas e virar o bicho, entre muitas outras.

Só não registro aqui também as obscenas porque estas são um capítulo à parte, uma vez que recorrer às funções excretoras e sexuais é estratégica universal nestas horas, em todas as línguas. E, neste particular, o Português é goleado por línguas como o Alemão, o Francês e o Inglês. Cada uma delas tem muito mais palavrões do que a nossa.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. A Bondade e a Maldade está em todo lugar, vez que carregamos dentro de nós essas ”duas Senhoras abstratas e antagônicas¨¨
    Fica a responsabilidade de nossos Espíritos (Intelecto), separa-las; e nossos corpos são usados como o instrumento..
    Obs:
    A Intolerância é derivada da Maldade e sempre existiu..Mas, convenhamos; aumentou muito na era petista, justamente por quem deveria dar o exemplo de Tolerância derivada da Bondade, que foi o ”nosso guia” lula da silva ao disseminar o Ódio de Classes entre; Brancos x Negros, Ricos x Pobres, patrões e empregados; como se no nosso BRASIL não tivéssemos o D.N.A UNIVERSAL. Somos um País de Imigrantes, descendentes de todos os Credos, Raças e Etnias..E cá prá nós; Como somos um povo miscigenado (misturado), em todas as famílias, sempre tem ‘seus ricos e pobres; seus negros e brancos..
    O povo brasileiro não é belicoso..
    Então que lula vá catar coquinho, junto com seus asseclas; já estão catando,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,……..

    Curtir

  2. Adilson Nagamine

    Raivosidade? Então tá. Não faça do microondas uma arma. Adilson Nagamine

    Curtir

  3. Gostaria de saber como esses políticos se sentiriam estando do lado de cá. Milhões de brasileiros honestos trabalhando duro, pagando impostos, para, um belo dia, saber que boa parte foi parar sustentar mordomias de canalhas profissionais.

    Curtir