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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Deonísio da Silva: O beijo de Judas

Reprodução/Reprodução

Um beijo passou a designar a traição desde que os apóstolos tomaram o companheiro, caixa da campanha de Jesus, como bode expiatório.

Carlos Vereza, um dos mais notáveis e criativos atores brasileiros, acaba de estrear Iscariotes: A outra Face, tomando como referência solar de seu já memorável monólogo, não o beijo de Judas, nem o Judas que passou da Religião à História, mas um Judas de todo original, que relembra o vento nas oliveiras a embalar seus mais antigos sonos de menino que queria adormecer.

Seu personagem emblemático deu muito o que sentir e pensar à plateia que lotou o Teatro Pedro II, em Petrópolis, na serra fluminense, para a estreia nacional, no passado 21 de abril.

Nos terríveis eventos que teve Judas como personagem decisivo, a Última Ceia dá expressão a cada um dos treze e este número reforçou a mística de número do azar, que judeus tinham trazido das crendices da Babilônia, uma vez que o Código de Hamurábi, no século XVII a.C.,  já pulava do artigo 12 para 14.

Todos os apóstolos falharam, a partir de Pedro, aquele que seria o primeiro Papa, que antes que o galo cantasse  negou o líder por três vezes na noite da prisão, na quinta-feira, depois que o candidato tinha sido aclamado rei no domingo anterior, o de ramos.

Desde então, ninguém poupou o traidor, nem mesmo Leonardo Da Vinci, que representou o falso amigo agarrado ao caixa e ainda derrubando o saleiro sobre a mesa da Última Ceia.

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Assim, os símbolos da traição e do azar percorreram os séculos, até que em 2006 descobriu-se uma cópia do Evangelho de Judas, escrito em copta e logo transformado em estrela dos apócrifos.

É esta a versão abraçada por Carlos Vereza, não apenas como ator, mas também como autor do texto. Ele deslumbra os espectadores com um desempenho formidável, entre terno, arrebatador e trágico, preconizando, como fez questão de acrescentar depois da peça, que não quer fazer proselitismo nenhum, apenas dar a voz a Judas, a outro Judas, àquele Judas que pode ter sido o grande parceiro de Jesus na História da Salvação, pois que se dispôs a cumprir papel indispensável, que nenhum outro ser humano teve coragem de assumir.

Exegetas da Bíblia e da História já lidavam com a hipótese de que Judas tinha sido traído, ele nunca fora o traidor, daí seu desespero ao ver naufragar o projeto da tomada de poder.

Ao enforcar-se, abrindo o ventre sobre pedras quando se fez despencar do galho de uma árvore, Judas acrescentou um outro emblema à sua imagem de traidor, que é o de suicida.

Em nenhum momento no palco, Vereza faz qualquer vinculação explícita ao tema que toma conta do Brasil nos dias de hoje, mas, excelente ator que é, faz com que espectadores de todas as ideologias sintam e pensem sobre questões fundamentais.

A traição é uma delas. Com traições verdadeiras ou falsas, os delatores estão revelando ao distinto público que Judas pode não estar onde sempre esteve. E também pode ser que o descobrimento de quem seja o verdadeiro Judas demore muito mais tempo. O do Judas que dá étimo e mote a todos os significados pejorativos levou quase 2.000 anos, pois sua versão somente foi descoberta em 2006.

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  • Nem mesmo Leonardo Da Vinci poupou o traídor, que representou o falso amigo agarrado ao caixa e ainda derrubando o saleiro sobre a mesa da Última Ceia

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