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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

De onde vêm as palavras: Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão

Deonísio da Silva recorda o sermão de Padre Vieira: “Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis”

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 21h14 - Publicado em 27 nov 2016, 11h12

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Estas frases, que se tornaram um provérbio muito popular,  foram ditas pela primeira vez como desculpa pelo pirata e corsário inglês Francis Drake.

Depois de alegar que roubava outros ladrões, ele recebeu o honroso título de Sir, concedido pela rainha Elisabeth I, também conhecida por Isabel, a Rainha Virgem. A  rainha deu uma desculpa diferente: ele roubava de ladrões e trazia os bens para a Inglaterra.

Francis Drake morreu de disenteria aos 56 anos. A larápios contumazes nem sempre o maior de todos os males que lhes advêm é a morte. Às vezes, há outras humilhações, incluindo viver como presidiários ou mesmo morrer literalmente entre excrementos. Não è à toa que a situação de estar mal é definida por expressão chula, indicando as fezes como local onde a pessoa está: “Fulando está na mer…”.

O corpo do bandidão jaz nas proximidades de Portobelo, no Panamá, onde foi lançado ao mar dentro de um caixão de chumbo, portando armadura inteirinha de ouro e segurando uma longa espada, também de ouro.

É o que diz a lenda. E o jornalismo segue a velha máxima recomendada no filme O homem que matou o facínora, de John Ford, com John Wayne: “se a lenda é mais interessante do que a realidade, imprima-se a lenda”.

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No mesmo século do inglês Francis Drake, o português Pedro Álvares Cabral roubou de modo diferente: fez o primeiro superfaturamento  do Brasil.

A pimenta, o cravo e a canela, tão logo chegados a Portugal, tiveram um aumento de 1.000%, tudo aprovado pelo rei Dom Manuel, o Venturoso, que autorizou a majoração com o fim de compensar a perda dos naufrágios.

O episódio é narrado também pelo historiador Eduardo Bueno, que destoa de quase todos os seus colegas de ofício pela graça e pelo sabor de seu estilo, na escrita e na fala, como demonstra sua antológica entrevista dada a Augusto Nunes aqui nesta revista.

Das 13 naus do Descobrimento, apenas seis voltaram a Portugal. O navegador chefe da frota tinha apenas  32 anos. O rei autorizou a bandalheira, mas ninguém mais ouviu falar de Cabral, a ponto de para a antiga nota de mil cruzeiros ter sido inventada uma efígie dele, uma vez que não havia um único registro dos traços de seu rosto.

Os ladrões brasileiros, governantes ou governados, que desceram agora aos infernos, fizeram jus a essas outras viagens que ora fazem, rumo à cadeia. Mas talvez o pior castigo não seja ser preso e, sim, sentir-se ameaçado de prisão.

Quem escolhe ladrões para auxiliar o governo deve prestar atenção ao que diz o Padre Vieira, logo na abertura de seu Sermão do Bom Ladrão:Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar”.

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