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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

De onde vêm as palavras: Arrecua os arfe para evitar a catastre

Deonísio da Silva conta que, na política, o nome dos que ignoram os conselhos de Neném Prancha é Legião, um dos codinomes do Diabo

Por Augusto Nunes - 29 Jan 2017, 11h23

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Neném Prancha sabia tudo do mundo do futebol e foi autor de frases memoráveis, mas algumas ele nunca as pronunciou. Elas se tornaram lendárias depois que lhe foram atribuídas por João Saldanha e Armando Nogueira.

Eis amostra grátis. “Pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”. “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma partida”. “Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem defende”. “Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado”. “O importante é o principal, o resto é secundário”.

Talvez a frase de Neném Prancha de que mais precisemos atualmente seja esta: “ Arrecua os arfe para evitar a catastre”. E por quê? Por que no Brasil dos últimos anos esquecemos o óbvio, ainda que ele uive e grite como o “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues.

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Seu nome era Antonio Franco de Oliveira. Aos onze anos, o menino da cidade fluminense de Resende trocou a cidade natal pelo Rio, onde morreu em 1976, aos 70 anos. Seu apelido era Neném Prancha por ter, ainda em criança, pés e mãos enormes. Como vivia quase sempre de chinelos e falava gesticulando muito, o apelido veio a calhar: plantado sobre duas pranchas, falava abanando mais duas.

Reza a lenda que “O importante é o principal, o resto é secundário” e “Arrecua os arfe para evitar a catastre” foram pronunciadas num jogo em que Neném Prancha, dirigindo um time de presidiários, já perdia de três a zero aos dez minutos. Reconhecendo a superioridade do adversário, a estratégia do técnico deu certo e ele evitou uma goleada maior. O importante, diante daquele time,  era perder de pouco.

Na Copa de 2014, quase quarenta anos depois da morte do famoso frasista, o técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, ignorando o conselho de Neném Prancha, dirigia a seleção brasileira na famosa derrota de sete a um para a Alemanha. Os alemães fizeram quatro gols em seis minutos e no final do primeiro tempo o Brasil já perdia de cinco a zero. Laterais e zagueiros não foram recuados e a catástrofe não foi evitada.

Na política, o nome dos que ignoram os conselhos de Neném Prancha é Legião, um dos codinomes do Diabo. Eles são uma multidão ainda maior do que as milícias do Outro, como reconheceu o poeta parnasiano Olavo Bilac numa de suas conferências: “As milícias de Belzebu compõem-se, segundo os mais rigorosos demonologistas, de 6 666 legiões, cada uma formada de 6 666 demônios”.

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Por que são tantos? Um empresário de circo, o americano Phineas Taylor Barnum, deu ainda no século XIX duas respostas certeiras: “Nasce um otário por minuto” e “Nada atrai mais a multidão do que outra multidão”.

O presidente Michel Temer poderia pensar um pouco sobre o que disseram o filósofo Neném Prancha e o empresário Taylor Barnum.

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