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Cueca dolarizada

(Extraído do livro A Esperança Estilhaçada/Crônica da crise que abalou o PT e o Governo Lula, de Augusto Nunes, publicado pela Editora Planeta) A temperatura de julho de 2005 subiu furiosamente já no segundo dia graças a mais uma reportagem de VEJA. Amparada em farta documentação, informava que Marcos Valério fora o avalista, em 2003, […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 31 jul 2020, 12h39 - Publicado em 3 mar 2011, 20h01

(Extraído do livro A Esperança Estilhaçada/Crônica da crise que abalou o PT e o Governo Lula, de Augusto Nunes, publicado pela Editora Planeta)

A temperatura de julho de 2005 subiu furiosamente já no segundo dia graças a mais uma reportagem de VEJA. Amparada em farta documentação, informava que Marcos Valério fora o avalista, em 2003, de uma dívida contraída pelo PT no Banco de Minas Gerais (BMG), no valor de R$ 2,4 milhões. Pelo PT, tinham assinado a documentação o presidente José Genoino e o tesoureiro Delúbio Soares. Marcos Valério pagara a primeira parcela de R$ 350 mil e ficara por aí. O banco seguia aguardando a quitação das fatias restantes.

Genoino, que inicialmente alegara nem conhecer o publicitário, curvou-se às evidências. Conhecia, sim, mas só de vista. Jurou que assinara o papelório sem ler o texto nem conferir a identidade dos parceiros de risco. Mais uma entre tantas desculpas esfarrapadas que esquentaram o inverno. O tamanho do escândalo requeria a degola de cabeças coroadas. No dia 4 de julho, Sílvio Pereira pediu demissão do cargo de secretário-geral. No dia 5, Delúbio Soares licenciou-se da diretoria financeira (e das funções de guardião do caixa 2 e administrador do pronto-socorro especializado em aliados loucos por dinheiro). O presidente do partido segurou-se no cargo até 9 de julho. Não resistiu ao caso da cueca.

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Ninguém resistiria. No dia 8, o dirigente petista Paulo Frateschi descia de um carro estacionado diante da sede do PT paulista quando um jornalista se aproximou para dar-lhe a má noticia: “Você sabia que pegaram o assessor do irmão do Genoino com duzentos mil reais na mala e cem mil dólares na cueca?” Frateschi, como os demais petistas, vinha sendo espancado desde maio por novidades desoladoras. Já não se surpreenderia com nada, dizia aos amigos. Ficou assombrado.

“O que você disse? Repete essa!”, subiu o tom da voz. O jornalista reprisou a informação. “Não é possível ter tanto azar, porra!”, berrou Frateschi. “Você está me gozando! É trote!”. Ao entrar no local reservado à reunião de petistas de todo o país, o clima carregado avisou que todos ali sabiam do ocorrido. Decididamente, andava faltando sorte ao PT. Mas também andavam sobrando companheiros desastrados.

O autor da idéia de transformar cueca em mala íntima fora o cearense José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães, líder do PT na Assembléia Legislativa (e irmão de José Genoino, ainda presidente do partido atarantado com tantas denúncias envolvendo malas e maços de cédulas). A captura de um militante petista transportando uma fortuna clandestinamente (e com dólar na cueca) ultrapassara os limites da imaginação.

Adalberto foi preso pela Polícia Federal quando tentava embarcar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, rumo a Fortaleza. Chegara de Brasília, onde havia recolhido a dinheirama cuja gênese seguiria desconhecida. O conteúdo da mala foi revelado pelo sistema de controle da sala de embarque. Enquanto Adalberto gaguejava desculpas, uma revista manual tateou pacotes na cueca. Detido, o assessor do deputado cearense construiu uma explicação amalucada para a origem do dinheiro.

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Interrogado pelos federais, contou que ganhara aquilo tudo com a venda de verduras no Ceagesp, um gigantesco ponto de negócios por atacado. Para juntar a bolada  escondida por Adalberto, um agricultor precisa vender 12 toneladas de verduras, quantidade suficiente para abarrotar 100 caminhões de bom tamanho. Se operou tal proeza em um dia, Adalberto tem vaga assegurada no céu, ao lado dos santos milagreiros. Não precisa comprar na Igreja Universal do Reino de Deus o ingresso vendido por bispos como o deputado João Batista Ramos da Silva, preso em 11 de julho quando pastoreava R$ 10 milhões amontoados em sete malas.

Um dia depois do caso da cueca, Genoino se afastou da presidência do PT e do salário mensal de R$ 9 mil. Mas logo deixaria de lado a intenção de buscar trabalho remunerado. Em 2 de agosto, o ex-deputado requereu à presidência da Câmara o beneficio da aposentadoria parlamentar. Foi atendido em 72 horas pelo sempre generoso Severino Cavalcanti. Na edição de 5 de agosto, o Diário Oficial da União formalizou o repouso do guerreiro. Aos 59 anos, Genoino receberá mensalmente quase R$ 9mil. Como aposentados podem ser candidatos, sobra tempo para planejar a próxima campanha.

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